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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Considerações sobre “Amor Líquido” – Parte 2


Na Parte 1, o primeiro capítulo do livro “Amor Líquido” de Zygmunt Bauman foi desbravado. O “Amor Líquido”, podemos resumir, é o derretimento do amor e, portanto, sua descaracterização e desconfiguração. A pós-modernidade sofre de insegurança e isso reflete no enfraquecimento dos laços do relacionamento. Se o amor está disposto ao sacrifício e à renúncia em função do ser amado, o “amor líquido”, por temer o futuro, aposta e é incentivado por especialistas, em relacionamentos de curto prazo movidos, principalmente, pelo impulso e/ou oportunismo. Nesta segunda parte, iremos adentrar no segundo capítulo do livro intitulado “dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade”, onde se comenta as mudanças visíveis de configurações, percepção e interação em relação à pós-modernidade.

Homo sexualis: abandonado e destituído

Como afirmou Lévi-Strauss, o encontro dos sexos é o terreno em que natureza e cultura se deparam um com o outro pela primeira vez. É, além disso, o ponto ode partida, a origem de toda a cultura.

É fácil perceber que esse papel do sexo não foi acidental. Das muitas tendências, inclinações e propensões “naturais” dos seres humanos, o desejo sexual foi e continua sendo a mais óbvia, indubitável e incontestavelmente social. Ele se estende na direção de outro ser humano, exige sua presença e se esforça para transformá-la em união. Ele anseia por convívio. Torna qualquer ser humano — ainda que realizado e, sob todos os outros aspectos, autosuficiente — incompleto e insatisfeito, a menos que esteja unido a um outro.

Ciência do sexo

Bauman reclama de um “sexo racional” modelado pelos cientistas. Um aparato que alimenta um ciclo vicioso. Neste panorama, a demanda pela assistência sexual “tende a crescer, não a diminuir, já que eles sempre adiam o cumprimento de suas promessas. ‘A ciência sexual, não obstante, continua a existir, porque a miséria sexual se recusa a aparecer”. O Eros está em todo o lugar, mas não permanece em um mesmo local por muito tempo. O sexo deixou de ter função procriativa (compromissos que visavam a paternidade e maternidade), abrindo-se uma competição com a medicina para o papel reprodutivo, pois, conforme explica o sexólogo Sigush, existe a possibilidade de “escolher um filho num catálogo de doadores atraentes quase da mesma forma como eles [os consumidores contemporâneos] estão acostumados a comprar pelo correio ou por meio de revistas de moda”.

Para fazer um contraste com a pós-modernidade, Bauman relembra que no passado os filhos eram recebidos com expectativa da melhoria do bem-estar da família, já que seria mais uma pessoa a ajudar no trabalho. Além disso, muito contava a questão de deixar herdeiros para prosseguir a descendência da família.

A pós-modernidade, contudo, revela uma fragilidade das estruturas familiares. Famílias são facilmente desfeitas, sendo o relacionamento uma mera questão de escolha que pode ser revogada até segunda ordem. Situação esta que o filho perde o sentido de ser “uma ponte” para algo mais duradouro, tornando-se um fator misterioso que pode tanto servir para sustentar o lar permanentemente como para ser um fator de complicação para a dissolução futura.

Filho: um objeto de consumo emocional

De acordo com Bauman, os filhos não são desejados pelas alegrias do prazer paternal ou maternal esperados. Ele é tratado como mercadoria de alto custo:

Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida. Em termos puramente monetários, eles custam mais do que um carro luxuoso do ano, uma volta ao mundo em um cruzeiro ou até mesmo uma mansão. Pior ainda, o custo total tende a crescer com o tempo, e seu volume não pode ser fixado de antemão nem estimado com algum grau de certeza. Num mundo que não oferece mais planos de carreira e empregos estáveis, assinar um contrato de hipoteca com prestações de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanças, expor-se a um nível de risco atipicamente elevado e a uma fonte prolífica de ansiedade e medo. É provável que se pense duas vezes antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem óbvios os riscos envolvidos. E nenhuma dose de determinação e ponderação poderá remover a sombra de dúvida que tende a adulterar a alegria. Além disso, ter filhos é, em nossa época, uma questão de decisão, não um acidente — o que aumenta a ansiedade. Tê-los ou não é comprovadamente a decisão com maiores conseqüências e de maior alcance que existe, e portanto também a mais angustiante e estressante.

Além disso, Bauman relembra sobre o que foi comentado no capítulo anterior: existe também custos que não monetários como o fato de que “formar uma família” é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável, o que requer estar disposto ao sacrifício para que seja uma relação durável. Isso inclui, obviamente, sacrificar o próprio conforto pessoal, a autonomia de nossas preferências, projeto de carreira, em benefício do filho.

Bauman nota que em uma sociedade de relacionamentos efêmeros, a relação de obrigação, não revogável, que se tem com um filho é chocante e que a tomada de consciência de tal compromisso pode ser uma experiência traumática e que possivelmente pode estar por trás de casos de depressão e crises conjugais pós-partos.

Um, digamos, “espírito consumista” aliado a separação do sexo com reprodução faz com que pessoas queiram cada vez mais “garantias” a respeito de seus filhos. Diante disso, lucram-se as “companhias que ofereçam a chance de “escolher um filho num catálogo de adoadores atraentes” e clínicas de boas reputação que companham por encomenda o espectro genético de uma criança em gestação”.

Resumindo: a separação entre sexo e reprodução, amplamente observada, tem a anuência do poder. É o produto conjunto do líquido ambiente da vida moderna e do consumismo como estratégia escolhida, e a única disponível, de “procurar soluções biográficas para problemas socialmente produzidos” (Ulrich Beck). É a mistura de ambos os fatores que leva ao deslocamento das questões da reprodução e do parto para longe do sexo e na direção de uma esfera totalmente diferente, operada por uma lógica e um conjunto de regras inteiramente diversos dos que regem a atividade sexual. A destituição do homo sexualis é sobredeterminada.

Uma descrição que se aproxima do cenário de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

Sexo sem amor leva a frustração

Erich Fromm é resgatado para explicar que o sexo pelo sexo é enganoso, pois visando a “fusão total”, tem-se na realidade a “ilusão de união”.

A união reside do fato do homem e da mulher procurarem ardentemente escapar da solidão. A ilusão é o resultado obtido porque o clímax orgástico “deixa os estranhos tão distantes um do outro como estavam antes”, de modo que “eles sentem seu estranhamento de maneira ainda mais acentuada”. Nesse papel, o orgasmo sexual se torna um vício que pode ser comparada ao alcoolismo ou drogas.

Trata-se de uma união que é ilusória e que tende a ser frustrante, já que está separada do amor (um compromisso intencionalmente duradouro e indefinido com o bem-estar do parceiro). Somente o amor tem capacidade de fazer o sexo ter uma fusão genuína. Fora do amor, o sexo relaciona-se com uma fusão efêmera, dúbia e, em casos mais graves, autodestrutiva.

Agora espera-se que o sexo seja auto-sustentável e auto-suficiente, que “se mantenha sobre os próprios pés”, para ser julgado unicamente pela satisfação que possa trazer por si mesmo (ainda que, em regra, ela seja interrompida bem antes da expectativa gerada pela mídia). Não admira que também tenha crescido enormemente sua capacidade de gerar frustração e de exacerbar a própria sensação de estrangulamento que se esperava que curasse. A vitória do sexo na grande guerra de independência tem sido, na melhor das circunstâncias, uma vitória de Pirro. Os remédios maravilhosos parecem produzir moléstias e sofrimentos não menos numerosos e comprovadamente mais agudos do que aqueles que prometiam curar.”

A falsa libertação

Quando a libertação foi promovida como forma de liberta-se de uma “sociedade patriarcal, puritana, desmancha-prazeres, hipócrita e ainda por cima desafortunadamente vitoriana” os relacionamentos passaram a ser encaradas com o propósito de prazer e alegria, alegremente cega às suas consequências, de uma felicidade do tipo “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”.

O terapeuta Volkmar Sigusch é trazido para assinalar que vem aumentando a procura por especialistas e que as formas de relacionamentos íntimos em voga portam uma máscara da falsa felicidade. Se retirada a máscara, descobre-se anseios não-realizados, nervos em frangalhos, amores frustrados, sofrimentos, medos, solidão, hipocrisia, egoísmo e compulsão à repetição.

Uma situação desconfortável que pede por mudanças.

Aspecto de Consumo x Aspecto de Produtor

Em Modernidade Líquida, Bauman fez uma analogia entre o espírito de consumidor e o espírito de produtor. O primeiro, imediatista, pensa e age conforme a utilidade a curto prazo. O segundo, pautado por sonhos, objetivos e princípios, pauta-se em uma visão de longo prazo. Em “Amor Líquido”, o autor recorre novamente aos dois tipos.

O homem produtor, ou construtor, tinha confiança em seu poder de planejamento e se preocupava com os sentimentos dos futuros moradores (mulher e filhos):

“O respeito é, afinal, apenas um dos lados da faca de dois gumes da atenção, cuja outra ponta é a opressão. A indiferença e o desprezo são dois recifes com os quais muitas intenções éticas honestas têm se chocado, e os eus morais precisam de muita vigilância e habilidade de navegação para passar incólumes por eles. Isso dito, parece, não obstante, que a moral — aquele Fürsein ditado pela responsabilidade por um Outro e posto em operação assim que assumido —, com todas as suas paisagens deslumbrantes e seus desvios e emboscadas traiçoeiros, foi feita sob medida para o homo faber [produtor]”.

Já o homem consumidor está atrelado ao espírito do consumismo, cuja característica não é acumular bens, mas usá-los e descartá-los, para que haja espaço para novos bens e usos.

“Em geral, a capacidade de utilização de um bem sobrevive à sua utilidade para o consumidor. Mas, usada repetidamente, a mercadoria adquirida impede a busca por variedade, e a cada uso a aparência de novidade vai se desvanecendo e se apagando. Pobres daqueles que, em razão da escassez de recursos, são condenados a continuar usando bens que não mais contêm a promessa de sensações novas e inéditas. Pobres daqueles que, pela mesma razão, permanecem presos a um único bem em vez de flanar entre um sortimento amplo e aparentemente inesgotável. Tais pessoas são os excluídos na sociedade de consumo, os consumidores falhos, os inadequados e os incompetentes, os fracassados — famintos definhando em meio à opulência do banquete consumista.

Aqueles que não precisam se agarrar aos bens por muito tempo, e decerto não por tempo suficiente para permitir que o tédio se instale, são os bem-sucedidos. Na sociedade dos consumidores, o prestidigitador é a figura de sucesso. Não fosse isto um anátema para os fornecedores de bens de consumo, os consumidores fiéis ao seu caráter e destino desenvolveriam o hábito de alugar coisas em vez de comprá-las. Diferentemente dos vendedores de mercadorias, as empresas de locação prometem, de modo tentador, substituir com regularidade os bens alugados por modelos de último tipo. Os vendedores, para não ficarem para trás, prometem devolver o dinheiro se o cliente não estiver plenamente satisfeito e se (na esperança de que a satisfação não se evapore tão rápido) os bens adquiridos forem devolvidos dentro de, digamos, dez dias.”

A partir disso, Bauman discorre sobre o sexo de nossos dias, o “sexo puro” pautado em “encontro puramente sexual”, onde a inexistência de “restrições” compensaria a fragilidade do engajamento. Ele aponta que a larga publicidade do sexo e as angústias dos relacionamentos líquidos aumentaram as incertezas da líquida vida moderna:

“O maior deles [temores difusos e inominados] provinha da ambigüidade do encontro sexual: seria esse o passo inicial na direção de um relacionamento ou sua coroação e seu término? Um estágio numa seqüência significativa ou um episódio singular, um meio para um fim ou um ato independente? Nenhuma união de corpos pode, por mais que se tente, escapar à moldura social e cortar todas as conexões com outras facetas da existência social. Privado de seu antigo prestígio social e de significados que antes eram socialmente aprovados, o sexo encapsulava a incerteza aflitiva e alarmante que se tornou a principal ruína da líquida vida moderna.”

Adaptando o casamento

No “Amor Líquido”, o cenário de insegurança e angústias não diminui com o casamento. Para contornar esse problema em termos de “Modernidade Líquida”, os parisienses têm apostado, por exemplo, na troca de esposas:
Como estratégia para enfrentar o espectro da incerteza, do qual, como se sabe, os episódios sexuais estão repletos, o échangisme tem uma vantagem sobre o sexo casual e outros encontros igualmente arriscados e de curta duração. A proteção contra conseqüências indesejáveis é, nesse caso, dever e preocupação de outra pessoa e, na pior das circunstâncias, não constitui um esforço solitário, mas uma tarefa compartilhada com aliados poderosos e dedicados. A vantagem do échangisme sobre o simples adultério é particularmente gritante. Nenhum dos échangistes é traído, nenhum deles tem os interesses ameaçados e, tal como no modelo ideal de Habermas da “comunicação não-distorcida”, todos são participantes. O ménage à quatre (ou six, huit… quanto mais melhor) está livre de todas as pragas e deficiências que se sabe serem a maldição do ménage à trois.

Os praticantes querem regularizar a situação, criando clube de associados. Diante disso, Bauman questiona:
Mas será que elas defendem o homo sexualis de si mesmo? Será que os anseios irrealizados, as frustrações amorosas, os temores de ficar só e de se ferir, a hipocrisia e a culpa são deixados para trás depois de uma visita ao clube? Será possível encontrar lá a intimidade, a alegria, a ternura, a afeição e o amor? Bem, o visitante pode dizer de boa-fé: isto é sexo, seu estúpido — não tem nada a ver com nada disso. Mas se ele ou ela estiver certo(a), será que o sexo em si é importante? Ou que, seguindo Sigusch, se a substância da atividade sexual é a obtenção do prazer instantâneo, “então o mais importante não é o que se faz, mas simplesmente que aconteça”.

Ideologia do gênero

A angústia do Homo Sexualis (apegado ao sexo) também permite questionar a natureza. Há a tendência de negar que existe os sexos masculino e feminino. Estes seriam construções sexuais. O homem líquido quer poder escolher seu gênero sexual.

Sendo assim, não apenas o ato sexual, mas a própria sexualidade torna-se líquida (mútavel e inconstante), cabe ao homo sexualis escolher do catálogo das múltiplas identidades sexuais aquela que melhor se ajusta a ele ou ela. A respeito de tal artimanha, Bauman comenta:

“A subdefinição, a incompletude e a ausência de finalidade da identidade sexual (tal como todas as outras facetas da identidade nos líquidos ambientes modernos) são um veneno e seu antídoto misturados numa poderosa superdroga antitranqüilizante.

A consciência dessa ambivalência é desalentadora e não produz o fim da ansiedade. Gera uma incerteza que só pode ser temporariamente apaziguada, jamais totalmente extinta. Contamina qualquer condição escolhida/atingida com dúvidas persistentes a respeito de sua propriedade e sabedoria. Mas também protege da humilhação que vem com o fracasso parcial ou total. Há sempre a possibilidade de pôr a culpa numa escolha, considerando-a equivocada, e não na incapacidade de aproveitar as oportunidades por ela oferecidas, pelo fato de a bem-aventurança prevista não ter conseguido se materializar. Há sempre uma chance de abandonar a estrada pela qual se chegaria à realização e recomeçar — mesmo que a partir do zero, se as perspectivas parecerem atraentes.

O efeito combinado do veneno e do antídoto é manter o homo sexualis em perpétuo movimento, empurrado à frente (“esse tipo de sexualidade não conseguiu produzir a experiência culminante que me disseram que traria”) e puxado para trás (“outros tipos que vi e ouvi estão ao meu alcance — é apenas uma questão de decisão e esforço”).

O homo sexualis não é uma condição, muito menos uma condição permanente e imutável, mas um processo, cheio de tentativas e erros, viagens exploratórias arriscadas e descobertas ocasionais, intercaladas por numerosos tropeços, arrependimentos poroportunidades perdidas e alegrias por prazeres ilusórios.”

Trazendo Freud e Derrida, comenta-se que o homem moderno tem sua vista embaçada quanto ao sentido de manifestações “saudáveis” e “perversas” em matérias de instinto sexual. Na modernidade, muitas formas de atividade sexual não são apenas toleradas, mas frequentemente indicadas como terapias úteis.
“Parece que o elo entre a sublimação do instinto sexual e sua repressão, que Freud considerava condição indispensável de qualquer arranjo social disciplinado, foi rompido. A líquida sociedade moderna descobriu uma forma de explorar a propensão/receptividade humana a sublimar os instintos sexuais sem recorrer à repressão, ou pelo menos limitando-a radicalmente. Isso aconteceu graças à progressiva desregulação do processo sublimatório, agora difuso e disperso, o tempo todo mudando de direção e guiado pela sedução dos objetos de desejo sexual em oferta, e não por quaisquer pressões coercitivas”

Celular

Em uma sociedade que não pára de receber e enviar mensagens no celular, a crítica de Bauman volta se ao fato de que tal apego a essa dinâmica tecnológica de relação diminuiu a proximidade e beneficiou o afastamento.

O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais freqüentes e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida — ao contrário daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetrar. Os contatos exigem menos tempo e esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidos. A distância não é obstáculo para se entrar em contato — mas entrar em contato não é obstáculo para se permanecer à parte. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem sedimentos permanentes. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais que o apertar de um botão.

A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. “Estar conectado” é menos custoso do que “estar engajado” — mas também consideravelmente menos produtivo em termos da construção e manutenção de vínculos.

E esse tipo de afastamento também afeta o ambiente familiar:

“Quando estávamos a uns poucos anos do súbito desenvolvimento da proximidade virtual eletronicamente acionada, Michael Schluter e David Lee observaram que “nós usamos a privacidade como um traje pressurizado … Tudo menos convidar ao encontro; tudo menosenvolver-se”. Os lares não são mais ilhas de intimidade em meio aos mares, em rápido resfriamento, da privacidade. Transformaram-se de compartilhados playgrounds do amor e da amizade em locais de escaramuças territoriais, e de canteiros de obras onde se constrói o convívio em conjuntos de bunkers fortificados. “Nós entramos em nossas casas separadas e fechamos a porta, e então entramos em nossos quartos separados e fechamos a porta. A casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer, separadamente lado a lado.”

Seria tolo e irresponsável culpar as engenhocas eletrônicas pelo lento mas constante recuo da proximidade contínua, pessoal, direta, face a face, multifacetada e multiuso. E no entanto a proximidade virtual ostenta características que, no líquido mundo moderno, podem ser vistas, com boa razão, como vantajosas — mas que não podem ser facilmente obtidas sob as condições daquele outro tête-àtête, não-virtual. Não admira que a proximidade virtual tenha ganhado a preferência e seja praticada com maior zelo e espontaneidade do que qualquer outra forma de contigüidade. A solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum.”

Namoro pela internet

Algumas “vantagens” listadas:
  • Pode apertar a tecla deletar;
  • Não responder email é a coisa bem fácil;
  • Pode-se namorar sem medo de ‘repercursões’ no mundo real;
  • “Compra não-obrigatória” – “devolução do produto caso não fique satisfeito”
  • Terminar quando se desejar, sem confusão, sem avaliação de perdas e sem remorsos;
  • Como a modernidade líquida é instável, o namoro pela internet permite reduzir riscos e, simultaneamente, evitar perda de opções;
  • Não há necessidade “de estar à disposição quando o outro precisa”.
Assinala Baumann que o baixo comprometimento do namoro virtual, entretanto, não é a causa, mas a consequência da sociedade “líquida”:
“A responsabilidade por eliminar essas condições não pode ser atribuída à porta virtual do namoro eletrônico. Muito mais tem acontecido no caminho em direção à líquida e individualizada sociedade moderna para tornar os compromissos de longo prazo pouco numerosos, o engajamento a longo prazo uma rara expectativa e a obrigação de assistência mútua incondicional uma perspectiva que nem é realista nem percebida como digna de grandes esforços.”

***

Na última parte do capítulo, Bauman ainda falou da economia de mercado e do Estado, contudo sua abordagem já passou a carregar uma carga ideológica, que foge um pouco do tema dos relacionamentos “líquidos”.


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#Augusto

terça-feira, 23 de junho de 2015

Considerações sobre "Amor Líquido" – Parte 1


Eu já havia lido “Modernidade Líquida” de Zygmunt Bauman do qual, apesar de esquerdista, o sociólogo faz um retrato bastante preciso da realidade de nosso tempo. Agora, em tom um pouco mais, digamos, profundo, Baumann aborda aquilo que chamou de “Amor Líquido”. Se a modernidade líquida é caracterizada por mudar conforme as modas, o “Amor Líquido” passa a ser encarado como a forma pelo qual os relacionamentos amorosos, e até mesmo pessoais, estão sendo encarados em nossa pós-modernidade. Faço aqui um resumo comentado do primeiro capítulo do livro:

– O Amor para o transcendente:

No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantinéia ressaltou para Sócrates, com a sincera aprovação deste, que “o amor não se dirige ao belo, como você pensa; dirige-se à geração e ao nascimento no belo”. Amar é querer “gerar e procriar”, e assim o amante “busca e se ocupa em encontrar a coisa bela na qual possa gerar”. Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo.

A partir disso, Baumann discorre sobre a essência do amor: ser refém do destino. Uma vez que não é possível fugir do fato do futuro ser incerto, além da constatação de que os dois seres não podem ser conhecer inteiramente um ao outro, passa-se a impressão de que o amor depende de um capricho do Destino. No entanto, antes de temer o destino, o amor deve buscar abrir-se ao destino, admitindo a liberdade do ser de se incorporar no companheiro no amor, complementando com a citação de Erich Fromm: “A satisfação no amor individual não pode ser atingida sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras. […] uma cultura na qual são raras essas qualidades, atingir a capacidade de amar será sempre, necessariamente, uma rara conquista.” e endoçando-a “sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada”.

– Se encarado com luta, não importa quem vence, a união perde.

“[…] Quando se trata de amor, posse, poder fusão e desencanto são os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.

Nisso reside a assombrosa fragilidade do amor, lado a lado com sua maldita recusa em suportar com leveza a vulnerabilidade. Todo amor empenha-se em subjugar, mas quando triunfa encontra a derradeira derrota. Todo amor luta para enterrar as fontes de sua precariedade e incerteza, mas, se obtém êxito, logo começa a se enfraquecer — e definhar. Eros é possuído pelo fantasma de Tanatos, que nenhum encantamento mágico é capaz de exorcizar. A questão não é a precocidade de Eros, e não há instrução ou expedientes autodidáticos que possam libertá-lo de sua mórbida — suicida — inclinação.”

Essa parte é profunda. Aqui alerta-se que o amor esconde tentações que, se bem sucedidas, colocaram fim ao relacionamento. O limite perigoso é transpassado quando se perde o respeito. Imaginando que o outro é uma argila, ao terminar a moldagem das formas, o produto final perde interesse, pois se perde a essência do produto inicial.

– Distinção de desejo e amor

“Desejo é a vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir – aniquilar. […] Provar, explorar, tornar familiar e domesticar.”

“O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que “está lá fora”. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo”.

O desejo, quando conquistado, é efêmero. Ele é movido por um omisso impulso de destruição, vontade de morrer. um segredo bem guardado – sobretudo do próprio desejo.

O amor, ao contrário do desejo, quer exercer o domínio não pelo controle, mas mediante a renúncia e
sacrifício. É estar disposto a servir e aguardar a ordem, assumindo a responsabilidade.

“Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua”

Essa distinção de desejo e amor é feita porque a pós-modernidade tem o costume de trocar um pelo outro. Não, pior ainda, a nosso tempo potencializa o desejo transformando-o em impulso. A analogia que Bauman aplica é comparando os relacionamentos da pós-modernidade com uma impulsiva compra no shopping center com cartão de crédito.

Se o relacionamento pautado no desejo já seria ruim, no impulso torna-se pior, já que no desejo se prevê tempo para germinar, crescer e amadurecer. A pós-modernidade é, então, impaciente, move-se por impulso. Deste modo, o Outro pode ser comparado como uma mercadoria de shopping, que consumida instantaneamente, pode ser depois facilmente descartável.

“Consideradas defeituosas ou não “plenamente satisfatórias”, as mercadorias podem ser trocadas por outras, as quais se espera que agradem mais, mesmo que não haja um serviço de atendimento ao cliente e que a transação não inclua a garantia de devolução do dinheiro. Mas, ainda que cumpram o que delas se espera, não se imagina que permaneçam em uso por muito tempo. Afinal, automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de funcionamento satisfatórias são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que “novas e aperfeiçoadas versões” aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razão para que as parcerias sejam consideradas uma exceção à regra?”

É uma crítica bastante pertinente cuja conduta, como aponta o livro, é incentivada por “especialistas”.

Outra comparação que é feita é comprando-se os relacionamentos amorosos como um investimento como qualquer, podendo evidenciar um dilema é auto-conflitante, como observa:

“É claro. Relacionamentos são investimentos como quaisquer outros, mas será que alguma vez lhe ocorreria fazer juras de lealdade às ações que acabou de adquirir? Jurar ser fiel para sempre, nos bons e maus momentos, na riqueza e na pobreza, “até que a morte nos separe”? Nunca olhar para os lados, onde (quem sabe?) prêmios maiores podem estar acenando?

A primeira coisa que os bons acionistas (prestem atenção: os acionistas só detêm as ações, e é possível desfazer-se daquilo que se detém) fazem de manhã é abrir os jornais nas páginas sobre mercado de capitais para saber se é hora de manter suas ações ou desfazer-se delas. É assim também com outro tipo de ações, os relacionamentos. Só que nesse caso não existe um mercado em operação e ninguém fará por você o trabalho de ponderar as probabilidades e avaliar as chances (a menos que você contrate um especialista, da mesma forma que contrata um consultor financeiro ou um contador habilitado, embora no caso dos relacionamentos haja uma infinidade de programas de entrevistas e “dramas da vida real” tentando ocupar esse espaço). E assim você tem que seguir, dia após dia, por conta própria. Se cometer um erro, não terá direito ao conforto de pôr a culpa numa informação equivocada. Precisa estar em alerta constante. Se cochilar ou reduzir a vigilância, problema seu. “Estar num relacionamento” significa muita dor de cabeça, mas sobretudo uma incerteza permanente. Você nunca poderá estar plena e verdadeiramente seguro daquilo que faz — ou de ter feito a coisa certa ou no momento preciso.

Parece que esse dilema não tem uma boa solução. Pior ainda, que ele está impregnado de um paradoxo do tipo mais desagradável: não apenas a relação falha em termos da necessidade que deve-ria (e esperávamos que pudesse) cumprir, mas torna essa necessidade ainda mais afrontosa e exasperante. Você busca o relacionamento na expectativa de mitigar a insegurança que infestou sua solidão; mas o tratamento só fez expandir os sintomas, e agora você talvez se sinta mais inseguro do que antes, ainda que essa “nova e agravada” insegurança provenha de outras paragens. Se você pensava que os juros de seu investimento em companhia seriam pagos na moeda forte da segurança, parece que sua iniciativa se baseou em falsos pressupostos.”

Não esquecendo do agravante de que o outro lado também está encarando o relacionamento como mero investimento. O outro também pode querer “largar suas ações”, o que torna o problema ainda mais grave/arriscado.

– Insegurança agravante

Como ensinou Mario Ferreira dos Santos, no desespero, agrava-se a crise. A abordagem de Bauman aponta para direção bem próxima:

“Christopher Clulow, do Instituto Tavistock de Estudos Matrimoniais, outro especialista citado por Adrienne Burges, conclui: “Quando se sentem inseguros, os amantes tendem a se portar de modo não-construtivo, seja tentando agradar ou controlar, talvez até agredindo fisicamente — o que provavelmente afastará o outro ainda mais.” Quando a insegurança sobe a bordo, perde-se a confiança, a ponderação e a estabilidade da navegação. À deriva, a frágil balsa do relacionamento oscila entre as duas rochas nas quais muitas parcerias esbarram: a submissão e o poder absolutos, a aceitação humilde e a conquista arrogante, destruindo a própria autonomia e sufocando a do parceiro. Chocar-se contra uma dessas rochas afundaria até mesmo uma boa embarcação com tripulação qualificada — o que dizer de uma balsa com um marinheiro inexperiente que, criado na era dos acessórios, nunca teve a oportunidade de aprender a arte dos reparos? Nenhum marinheiro atualizado perderia tempo consertando uma peça sem condições para a navegação, preferindo trocá-la por outra sobressalente. Mas na balsa do relacionamento não há peças sobressalentes.”

Aqui tem um detalhe interessante que certamente chamou a atenção para quem já estudou um pouco sobre Globalismo. Não é comentado no livro, mas é importante evidenciar que o Instituto Tavistock é famoso por estudos comportamentais que visam progredir nos avanços da Engenharia Social. Ou seja, tornar um relacionamento inseguro, mediante a promoção do desejo, ou pior, do impulso em detrimento do amor, aumenta a insegurança das pessoas, tornando-as irracionais e mais incapazes de resolver os problemas. Dizendo de forma mais objetiva: o enfraquecimento dos elos amorosos leva à imbecilização das pessoas.

– Perversões do Amor

Algumas perversões nos relacionamentos são apontadas:

Perversão do comodismo: “devido à preguiça, ao medo ou a uma propensão à acomodação no relacionamento, consiste simplesmente em tentar agradar um ao outro enquanto continua fugindo do problema”. É como se o relacionamento deixa-se de ser comprometimento para ser um puxa-saquismo reciprocamente conveniente.

Perversão de mudar os outros: o desejo aparece novamente. Trata-se do desejo de mudar os outros, haja vista que “temos opiniões definidas sobre como fazer as coisas e sobre como os outros deveriam ser”. É um autoritarismo que realmente não combina com amor, pois este respeita a liberdade.

– A mudança através do tempo, mesmo quando partido de um “amor à primeira vista”.

Bauman chama a atenção para algo que, se formos reparar, deveria ser bastante evidente. Algo que fazendo uma breve reflexão sobre a realidade da vida, deveríamos ser capazes de notar:
  • “A resposta é dada por uma pessoa inevitalmente diferente daquela a quem foi feita a pergunta”.
  • A resposta é dada por uma pessoa que mudou desde que perguntou. Sendo impossível saber a profundidade da mudança.
  • “Ambos os parceiros sabiam que a mudança estava ocorrendo e lhe deram as boas-vindas.”
  • “O passado dos dois indivíduos serão incorporados aos seus presentes”
  • “Presteza em incorporar futuros compartilhados aos presentes individuais parcialmente compartilhados, parcialmente separados”.
É aquela coisa. A dinâmica do casamento é diferente da do namoro. Quando duas pessoas se comprometem com o “até que a morte os separe”, deveriam ter em mente que irão mergulhar de cabeça em águas inexploradas.

– “Especialistas”, promotores do “Amor Líquido”

Bauman então comenta sobre os ensinamentos de um especialista em relacionamento. Dado o risco, dado a insegurança, a solução proposta pelos especialistas passa a ser o “relacionamento de bolso”, justamente o que caracteriza o “Amor Líquido”. As condições para isso é não se apaixonar, manter o controle da relação e não se deixar influenciar pelo relacionamento. Se algo caminhar para algo mais sério, se houver qualquer traço de mudança, significa que é hora de terminar, afinal:

“A conveniência é a unica coisa que conta, e isso é algo para uma cabeça fria, não para um coração quente (muito menos superaquecido).”

Trata-se de um atitude envolta em um fatalismo-pessimista causada justamente pela insegurança induzida, conforme comentado anteriormente. A lógica é que se o relacionamento está fadado a falhar e que haverá sofrimento por conta disso, então o melhor é se relacionar de modo indiferente, frio, sem comprometimento emocional. Há nas informações circulantes todo um aparato de “conselhos” e de roteiros que visa a distorção e o esquecimento do verdadeiro significado de amor.

O “Amor Líquido” está contextualizado no medo do desconhecido e, tendo o Amor de verdade se tornado desconhecido, o “Amor Líquido” não deixa de ser o Amor que derreteu, tornando-se, por isso mesmo, desconhecido e irreconhecível.

– Advento de uma “ideologia da intimidade” que “transmuta categorias políticas em psicológicas”

O enfraquecimento dos relacionamentos amorosos promove uma insegurança que desnorteia as pessoas. Como “solução”, os especialistas promovem o “Amor Líquido”, que na verdade é um desamor. A perversa bolha de confusão está criada, faltando então protegê-la. É um ciclo vicioso, uma vez que a “solução” para a insegurança é sustentada pela promoção da insegurança amorosa. Está faltando uma coisa: blindar o ciclo contra potenciais ataques. É neste sentido que Bauman comenta:

Um resultado particularmente portentoso dessa nova ideologia foi a substituição dos “interesses compartilhados” pela “identidade compartilhada”. A fraternidade de base identitária estava para se tornar — prevenia Sennett — a “empada por um grupo seleto de pessoas aliada à rejeição das que não estiverem dentro do círculo local”. “Forasteiros, desconhecidos, diferentes tornam-se criaturas a serem afastadas.”

Esta segregação, revela Bauman, trabalha conforme um grupo para compartilhamento de intimidades sinceras, fruto da decadência dos vínculos pessoais (diminuição do amor), cuja formação se sustenta em uma tática de defesa humana contra a solidão:

À época em que Anderson desenvolveu seu modelo de “comunidade imaginada”, a desintegração dos vínculos e liames impessoais (e com eles, como apontaria Sennett, da arte da “civilidade” — de “usar a máscara” que simultaneamente protege e permite que se aprecie a companhia) havia atingido um estágio avançado, e assim a fricção e os afagos de ombros, a contigüidade, a intimidade, a “sinceridade”, o “entrar dentro do outro”, sem guardar segredos, confessando de modo compulsivo e compulsório, estavam se tornando rapidamente as únicas defesas humanas contra a solidão e o único fio disponível para se tecer o ansiado convívio. Só era possível conceber totalidades mais amplas do que o círculo de confissões mútuas como um “nós” intumescido e esticado; como a mesmidade, mal referida como “identidade”, em letras grandes. A única forma de incluir os “desconhecidos” em um “nós” era reuni-los como potenciais parceiros em rituais confessionais, tendentes arevelar um “interior” semelhante (e portanto familiar), quando pressionados a compartilhar suas íntimas sinceridades.

Ao ler este trecho, não pude deixar de lembrar da definição de ‘Imbecil Coletivo’ criada por Olavo de Carvalho. Nas palavras do filósofo, O Imbecil Coletivo é “um grupo de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior que se reúnem com a finalidade de imbecilizar-se umas às outras”. Observação feita, volto ao “Amor Líquido”.

Um grupo formado, por sua vez, não está livre de tensões, pois haverá concordâncias e discordâncias.
Deste modo cria-se um quadro de que, embora unidos pelas aflições, as pessoas sejam desunidas por demais opiniões. Deste modo, os próprios grupos fechados são “líquidos”:

Tal como nas vastas extensões da terra de fronteira global, também no nível popular, no domínio da política de vida, o palco para a ação é um recipiente cheio de amigos e inimigos potenciais, no qual se espera que coalizões flutuantes e inimizades à deriva se aglutinem por algum tempo, apenas para se dissolverem outra vez e abrirem espaço para outras e diferentes condensações. As “comunidades da mesmidade”, predeterminadas, mas aguardando serem reveladas e preenchidas com matéria sólida, estão cedendo vez a “comunidades de ocasião”, que se espera serem autoconstruídas em torno de eventos, ídolos, pânicos ou modas. Mais diversificadas como pontos focais, porém compartilhando a característica de uma curta, e decrescente, expectativa de vida. Elas não duram mais que as emoções que as mantêm no foco das atenções e estimulam a conjunção de interesses — fugaz, mas não por isso menos intensa — a se coligar e aderir “à causa”.

Nota-se, então, que a o enfraquecimento dos laços amorosos também enfraquece os laços sociais. O trecho acima, na realidade, é melhor aprofundado em um outro livro de Bauman chamado “Modernidade Líquida”. O “Amor Líquido” é, na realidade, um recorte da “Modernidade Líquida”.

Deste quadro cria-se dois problemas contrapostos que o autor coloca em termos de “tecer redes” e “surfar nelas”, decorrente um aparato tecnológico que facilitou a comunicação virtual, seja por telefones ou chats. O que caracteriza tal tipo de interação, neste quadro, são as interações frenéticas e frívolas, onde o objetivo é menos introspectivo do que manter o chat funcionando.

Disso, nota Bauman, vem os conteúdos de revistas que, onde os “especialistas” novamente aparecem para ajudar na manutenção da cultura das aparências:

“Cerca de metade da revista OM, semana após semana, é ocupada por uma seção intitulada “Vida” Explicam os editores: “Vida” é “o manual da vida moderna”. A seção tem suas subseções: primeiro vem “Moda” que informa sobre os problemas e tribulações da “aplicação de cosméticos”, com uma subseção, “Ela moda”, que exorta as leitoras a “não medir esforços para encontrar o par de sapatos certo”. É seguida pela subseção “Interiores”, com um breve interlúdio sobre “Casas de bonecas”. Depois vem a parte de “Jardins”, que explica como “manter as aparências” e “impressionar os hóspedes”, apesar da aborrecida verdade de que “o trabalho de um jardineiro nunca termina”. A subseção seguinte é “Comida” e depois “Restaurantes”, que mostra onde procurar comida gostosa quando se sai para jantar, e então “Vinhos”, indicando onde encontrar vinhos saborosos para consumir em casa. Tendo chegado a esse ponto, o leitor está bem preparado para examinar atentamente as três páginas da subseção “Viver” — dividida em “amor, sexo, família, amigos”.

Na semana de 16 de junho de 2002, “Viver” é dedicada aos CSSs — “casais semi-separados”, “revolucionários do relacionamento”, que “romperam a sufocante bolha do casal” e “seguem seus próprios caminhos” Sua dança a dois é em tempo parcial. Odeiam a idéia de compartilhar o lar e as atividades domésticas, preferindo manter domicílios, contas bancárias e círculos de amizade separados, e estarem juntos quando estão a fim. Tal como o trabalho ao estilo antigo, hoje dividido numa sucessão de horários flexíveis, tarefas únicas ou projetos de curto prazo, e da mesma forma que a compra ou o aluguel de uma propriedade, que agora tende a ser substituída pela ocupação time-share e pelos pacotes de fim de semana, o casamento ao estilo antigo, “até que a morte nos separe”, já desestabilizado pela coabitação “vamos ver como funciona”, reconhecidamente temporária, é substituído pelo “ficar juntos”, de horário parcial ou flexível.”

Eis então a dinâmica do Amor Líquido. Laços pessoais derretidos, liquefeitos, cuja solução proposta é, em vez de retomar os valores que proporcionavam relacionamentos mais sólidos e duradouros, aumentar a dose do veneno para que os relacionamentos sejam de curto prazo e com isso, quem sabe, intenta-se, ninguém se machuque. A ironia é que a insegurança e solidão, as grandes vilãs que “Amor Líquido” tenta combater, são também combustíveis para a manutenção da angústia social.


#Augusto