
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
A teoria dos três discursos da pós-modernidade

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
A Selva de Pedra e a Perda do Valor Humano

quarta-feira, 1 de julho de 2015
Considerações sobre "Amor Líquido" – Parte 3

- É um dos preceitos fundamentais da vida civilizada, mas é também o que mais contrario o tipo de razão que a civilização promove: a razão do interesse próprio e da busca da felicidade.
- Só pode ser aceito como “faz sentido”, via exortação teológica: acredite porque é absurdo;
- “Por que devo fazer isso? Que benefício me trará?
- Se eu amo alguém, ela ou ele deve ter merecido de alguma forma…
- Essa exigência não trás evidências suficientes de que o estranho a que devo amar me ama ou demonstra por mim a mínimo consideração. Pode até, se lhe convier, não hesitar em injuriar, zombar, caluniar ou mostrar seu poder superior…
- “qual é o objetivo de um preceito enunciado de modo tão solene se seu cumprimento não pode ser recomendado como algo razoável?”
“Tanto menor a probabilidade de uma norma ser obedecida, maior a obstinação com que tenderá a ser reafirmada. E a obrigação de amar o próximo talvez tenha menos probabilidade de ser obedecida do que qualquer outra. Quando o filósofo talmúdico Rabi Hillel foi desafiado por um possível convertido a explicar o ensinamento de Deus enquanto pudesse se sustentar numa perna só, ele ofereceu o “amar o próximo como a si mesmo” como a única resposta, embora completa, que encerra a totalidade dos mandamentos divinos.
Aceitar esse preceito é um ato de fé; um ato decisivo, pelo qual o ser humano rompe a couraça dos impulsos, ímpetos e predileções “naturais”, assume uma posição que se afasta da natureza, que é contrária a esta, e se torna o ser “não-natural” que, diferentemente das feras (e, na realidade, dos anjos, como apontou Aristóteles), os seres humanos são.
Aceitar o preceito do amor ao próximo é o ato de origem da humanidade. Todas as outras rotinas da coabitação humana, assim como suas ordens pré-estabelecidas ou retrospectivamente descobertas, são apenas uma lista (sempre incompleta) de notas de rodapé a esse preceito. Se ele fosse ignorado ou abandonado, não haveria ninguém para fazer essa lista ou refletir sobre sua incompletude.”
“o preceito do amor ao próximo desafia e interpela os instintos estabelecidos pela natureza, mas também o significado da sobrevivência por ela instituído, assim como o do amor-próprio que o protege.”
“Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos tranqüilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em consideração”
- Para haver amor-próprio, a pessoa deve ser amada primeiro;
- Se os outros me respeitam, então deve haver algo em mim que lhes posso oferecer. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou apenas um objetivo descartável que pode ser usado e jogado fora.
- Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação “amar o próximo como a si mesmo” carrega a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas razões que estimulam o nosso amor-próprio;
- “Amar o próximo como a si mesmo” evoca o desejo do próximo de ser reconhecido, admitido e confirmado a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não descartável.
“Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um — o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.”
“Não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos” é a desculpa favorita dos visionários, dos porta-vozes das visões oficialmente endossadas e dos generais que agem da mesma forma sob o comando dos porta-vozes. Essa fórmula transformou-se, com o passar dos anos, num verdadeiro slogan de nossos admiráveis tempos modernos.
“A negação da dignidade humana deprecia o valor de qualquer causa que necessite dessa negação para afirmar a si mesma.”
”(…) valor, o mais precioso dos valores humanos, o atributo sine qua non de humanidade, é uma vida de dignidade, não a sobrevivência a qualquer custo.”
“Os outros são, em primeiro lugar e acima de tudo, competidores, tramando como qualquer competidor, cavando buracos, preparando emboscadas, torcendo para que venhamos a tropeçar e cair. Os trunfos que ajudam os vencedores a superar a concorrência e emergir triunfantes da batalha impiedosa são de muitos tipos, variando da autoconfiança ruidosa à humilde auto-aniquilação. E no entanto, independente do estratagema empregado, dos trunfos dos sobreviventes e das deficiências dos perdedores, a história da sobrevivência tende a se desenvolver da mesma e monótona maneira: num jogo de sobrevivência, confiança, compaixão e clemência (os atributos supremos de Logstrup) são fatores suicidas. Se você não for mais duro e menos escrupuloso do que todos os outros, será liquidado por eles, com ou sem remorso. Estamos de volta à triste verdade do mundo darwiniano: é o mais apto que invariavelmente sobrevive. Ou melhor, a sobrevivência é a derradeira prova de aptidão.”
“Eles insistiram [..] em afirmar que este é um mundo duro, feito para pessoas duras: um mundo de indivíduos relegados a se basearem unicamente em seus próprios ardis, tentando ultrapassar e superar uns aos outros. Ao conhecer um estranho você precisa em primeiro lugar de vigilância, e em segundo e terceiro lugares de vigilância. Aproximar-se, colocar-se ombro a ombro e trabalhar em equipe fazem muito sentido enquanto o ajudam a avançar em seu próprio caminho. Mas perdem a razão de ser quando não trazem mais benefícios, ou quando estes — esperada ou apenas possivelmente — são menores que os obtidos evitando-se compromissos e cancelando-se obrigações.”
“não é, como o casamento um dia foi, uma “condição natural” cuja durabilidade possa ser tomada como algo garantido, a não ser em circunstâncias extremas. É uma característica do relacionamento puro que ele possa ser rompido, mais ou menos ao bel-prazer, por qualquer um dos parceiros e a qualquer momento. Para que uma relação seja mantida, é necessária a possibilidade de compromisso duradouro. Mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a um grande sofrimento no futuro, caso ela venha a ser dissolvida.”
“De qualquer forma, é raro serem modelos de coerência e continuidade a longo prazo. Dificilmente há um único ponto de referência sobre o qual se possa concentrar a atenção de modo fidedigno e seguro, para que os desorientados possam ser eximidos do fatigante dever da vigilância constante e das incessantes retrações de passos dados ou pretendidos. Não se dispõe de pontos de orientação que pareçam ter uma expectativa de vida mais longa do que os próprios necessitados de orientação, por mais curtas que possam ser suas existências físicas. A experiência individual aponta obstinadamente para o eu como o eixo mais provável da duração e da continuidade procuradas com tanta avidez.”
Em termos práticos, ela significa que, não importa o quanto um ser humano possa ressentir-se por ter sido abandonado (em última instância) à sua própria deliberação e responsabilidade, é precisamente esse abandono que contém a esperança de um convívio moralmente fecundo. A esperança — não a certeza. Em outras palavras, é que a incerteza é a terra natal da pessoa ética e o único solo em que a moral pode brotar e florescer.
Mas, como Logstrup prontamente nos assinala, é a “imediação do contato humano” que é “sustentada pelas expressões imediatas de vida”. Presumo que a conexão e o condicionamento mútuo ajam nos dois sentidos. A “imediação” parece desempenhar no pensamento de Logstrup um papel semelhante ao da “proximidade” nos textos de Levinas. As “expressões imediatas da vida” são disparadas pela proximidade, ou pela presença imediata de outro ser humano — fraco e vulnerável, sofrendo e precisando de auxílio. Somos desafiados pelo que vemos. E desafiados a agir — a ajudar, defender, trazer alívio, curar ou salvar.
”Em cada caso, um traço marcante da conduta é o auto-engano destinado a ocultar as fontes genuínas da ação. Por exemplo, o indivíduo “tem uma opinião muito elevada de si mesmo para tolerar a idéia de ter agido erradamente, e assim apela à ofensa para desviar a atenção de seu próprio deslize, o que consegue identificando-se com a parte prejudicada … Obtendo-se satisfação em ser a parte prejudicada, deve-se inventar erros para alimentar a autocondescendência.” A natureza autônoma da ação é, portanto, suprimida — é a outra parte, acusada da má conduta original, do delito que deu origem a tudo, apresentada como o verdadeiro ator do drama. O eu permanece, assim, totalmente do lado receptor. Sofre as ações dos outros em vez de ser um ator por direito próprio.”
Na base da “revolução sexual” ocorrida na segunda metade do século XX,encontra-se uma enorme demanda por satisfação e uma confusão entre desejos e necessidades. Todo o ser humano normal experimenta desejos sexuais; no entanto, os pressupostos freudianos de que esses desejos seriam “necessidades” ou “direitos”, de que ninguém conseguiria viver sem satisfazê-los, ou de que reprimi-los prejudicaria a saúde psicológica, simplesmente não são verdade.
Essa confusão entre necessidades e desejos radica na negação dos valores objetivos e de uma lei moral natural igualmente objetiva. Ninguém fez tanto estrago nessa área como Freud, especialmente no que diz respeito à moral sexual. O atual ataque ao casamento e a família, que foi preparado por Freud, causou devastações maiores do que qualquer revolução ou guerra que jamais houve. Afinal, onde haveremos de aprender a lição mais valiosa da nossa vida, a do amor desprendido, senão em famílias estáveis que o ensinam na prática?
quarta-feira, 24 de junho de 2015
Considerações sobre “Amor Líquido” – Parte 2

É fácil perceber que esse papel do sexo não foi acidental. Das muitas tendências, inclinações e propensões “naturais” dos seres humanos, o desejo sexual foi e continua sendo a mais óbvia, indubitável e incontestavelmente social. Ele se estende na direção de outro ser humano, exige sua presença e se esforça para transformá-la em união. Ele anseia por convívio. Torna qualquer ser humano — ainda que realizado e, sob todos os outros aspectos, autosuficiente — incompleto e insatisfeito, a menos que esteja unido a um outro.
Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida. Em termos puramente monetários, eles custam mais do que um carro luxuoso do ano, uma volta ao mundo em um cruzeiro ou até mesmo uma mansão. Pior ainda, o custo total tende a crescer com o tempo, e seu volume não pode ser fixado de antemão nem estimado com algum grau de certeza. Num mundo que não oferece mais planos de carreira e empregos estáveis, assinar um contrato de hipoteca com prestações de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanças, expor-se a um nível de risco atipicamente elevado e a uma fonte prolífica de ansiedade e medo. É provável que se pense duas vezes antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem óbvios os riscos envolvidos. E nenhuma dose de determinação e ponderação poderá remover a sombra de dúvida que tende a adulterar a alegria. Além disso, ter filhos é, em nossa época, uma questão de decisão, não um acidente — o que aumenta a ansiedade. Tê-los ou não é comprovadamente a decisão com maiores conseqüências e de maior alcance que existe, e portanto também a mais angustiante e estressante.
Resumindo: a separação entre sexo e reprodução, amplamente observada, tem a anuência do poder. É o produto conjunto do líquido ambiente da vida moderna e do consumismo como estratégia escolhida, e a única disponível, de “procurar soluções biográficas para problemas socialmente produzidos” (Ulrich Beck). É a mistura de ambos os fatores que leva ao deslocamento das questões da reprodução e do parto para longe do sexo e na direção de uma esfera totalmente diferente, operada por uma lógica e um conjunto de regras inteiramente diversos dos que regem a atividade sexual. A destituição do homo sexualis é sobredeterminada.
Agora espera-se que o sexo seja auto-sustentável e auto-suficiente, que “se mantenha sobre os próprios pés”, para ser julgado unicamente pela satisfação que possa trazer por si mesmo (ainda que, em regra, ela seja interrompida bem antes da expectativa gerada pela mídia). Não admira que também tenha crescido enormemente sua capacidade de gerar frustração e de exacerbar a própria sensação de estrangulamento que se esperava que curasse. A vitória do sexo na grande guerra de independência tem sido, na melhor das circunstâncias, uma vitória de Pirro. Os remédios maravilhosos parecem produzir moléstias e sofrimentos não menos numerosos e comprovadamente mais agudos do que aqueles que prometiam curar.”
“O respeito é, afinal, apenas um dos lados da faca de dois gumes da atenção, cuja outra ponta é a opressão. A indiferença e o desprezo são dois recifes com os quais muitas intenções éticas honestas têm se chocado, e os eus morais precisam de muita vigilância e habilidade de navegação para passar incólumes por eles. Isso dito, parece, não obstante, que a moral — aquele Fürsein ditado pela responsabilidade por um Outro e posto em operação assim que assumido —, com todas as suas paisagens deslumbrantes e seus desvios e emboscadas traiçoeiros, foi feita sob medida para o homo faber [produtor]”.
“Em geral, a capacidade de utilização de um bem sobrevive à sua utilidade para o consumidor. Mas, usada repetidamente, a mercadoria adquirida impede a busca por variedade, e a cada uso a aparência de novidade vai se desvanecendo e se apagando. Pobres daqueles que, em razão da escassez de recursos, são condenados a continuar usando bens que não mais contêm a promessa de sensações novas e inéditas. Pobres daqueles que, pela mesma razão, permanecem presos a um único bem em vez de flanar entre um sortimento amplo e aparentemente inesgotável. Tais pessoas são os excluídos na sociedade de consumo, os consumidores falhos, os inadequados e os incompetentes, os fracassados — famintos definhando em meio à opulência do banquete consumista.
Aqueles que não precisam se agarrar aos bens por muito tempo, e decerto não por tempo suficiente para permitir que o tédio se instale, são os bem-sucedidos. Na sociedade dos consumidores, o prestidigitador é a figura de sucesso. Não fosse isto um anátema para os fornecedores de bens de consumo, os consumidores fiéis ao seu caráter e destino desenvolveriam o hábito de alugar coisas em vez de comprá-las. Diferentemente dos vendedores de mercadorias, as empresas de locação prometem, de modo tentador, substituir com regularidade os bens alugados por modelos de último tipo. Os vendedores, para não ficarem para trás, prometem devolver o dinheiro se o cliente não estiver plenamente satisfeito e se (na esperança de que a satisfação não se evapore tão rápido) os bens adquiridos forem devolvidos dentro de, digamos, dez dias.”
“O maior deles [temores difusos e inominados] provinha da ambigüidade do encontro sexual: seria esse o passo inicial na direção de um relacionamento ou sua coroação e seu término? Um estágio numa seqüência significativa ou um episódio singular, um meio para um fim ou um ato independente? Nenhuma união de corpos pode, por mais que se tente, escapar à moldura social e cortar todas as conexões com outras facetas da existência social. Privado de seu antigo prestígio social e de significados que antes eram socialmente aprovados, o sexo encapsulava a incerteza aflitiva e alarmante que se tornou a principal ruína da líquida vida moderna.”
Como estratégia para enfrentar o espectro da incerteza, do qual, como se sabe, os episódios sexuais estão repletos, o échangisme tem uma vantagem sobre o sexo casual e outros encontros igualmente arriscados e de curta duração. A proteção contra conseqüências indesejáveis é, nesse caso, dever e preocupação de outra pessoa e, na pior das circunstâncias, não constitui um esforço solitário, mas uma tarefa compartilhada com aliados poderosos e dedicados. A vantagem do échangisme sobre o simples adultério é particularmente gritante. Nenhum dos échangistes é traído, nenhum deles tem os interesses ameaçados e, tal como no modelo ideal de Habermas da “comunicação não-distorcida”, todos são participantes. O ménage à quatre (ou six, huit… quanto mais melhor) está livre de todas as pragas e deficiências que se sabe serem a maldição do ménage à trois.
Mas será que elas defendem o homo sexualis de si mesmo? Será que os anseios irrealizados, as frustrações amorosas, os temores de ficar só e de se ferir, a hipocrisia e a culpa são deixados para trás depois de uma visita ao clube? Será possível encontrar lá a intimidade, a alegria, a ternura, a afeição e o amor? Bem, o visitante pode dizer de boa-fé: isto é sexo, seu estúpido — não tem nada a ver com nada disso. Mas se ele ou ela estiver certo(a), será que o sexo em si é importante? Ou que, seguindo Sigusch, se a substância da atividade sexual é a obtenção do prazer instantâneo, “então o mais importante não é o que se faz, mas simplesmente que aconteça”.
“A subdefinição, a incompletude e a ausência de finalidade da identidade sexual (tal como todas as outras facetas da identidade nos líquidos ambientes modernos) são um veneno e seu antídoto misturados numa poderosa superdroga antitranqüilizante.
A consciência dessa ambivalência é desalentadora e não produz o fim da ansiedade. Gera uma incerteza que só pode ser temporariamente apaziguada, jamais totalmente extinta. Contamina qualquer condição escolhida/atingida com dúvidas persistentes a respeito de sua propriedade e sabedoria. Mas também protege da humilhação que vem com o fracasso parcial ou total. Há sempre a possibilidade de pôr a culpa numa escolha, considerando-a equivocada, e não na incapacidade de aproveitar as oportunidades por ela oferecidas, pelo fato de a bem-aventurança prevista não ter conseguido se materializar. Há sempre uma chance de abandonar a estrada pela qual se chegaria à realização e recomeçar — mesmo que a partir do zero, se as perspectivas parecerem atraentes.
O efeito combinado do veneno e do antídoto é manter o homo sexualis em perpétuo movimento, empurrado à frente (“esse tipo de sexualidade não conseguiu produzir a experiência culminante que me disseram que traria”) e puxado para trás (“outros tipos que vi e ouvi estão ao meu alcance — é apenas uma questão de decisão e esforço”).
O homo sexualis não é uma condição, muito menos uma condição permanente e imutável, mas um processo, cheio de tentativas e erros, viagens exploratórias arriscadas e descobertas ocasionais, intercaladas por numerosos tropeços, arrependimentos poroportunidades perdidas e alegrias por prazeres ilusórios.”
“Parece que o elo entre a sublimação do instinto sexual e sua repressão, que Freud considerava condição indispensável de qualquer arranjo social disciplinado, foi rompido. A líquida sociedade moderna descobriu uma forma de explorar a propensão/receptividade humana a sublimar os instintos sexuais sem recorrer à repressão, ou pelo menos limitando-a radicalmente. Isso aconteceu graças à progressiva desregulação do processo sublimatório, agora difuso e disperso, o tempo todo mudando de direção e guiado pela sedução dos objetos de desejo sexual em oferta, e não por quaisquer pressões coercitivas”
O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais freqüentes e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida — ao contrário daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetrar. Os contatos exigem menos tempo e esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidos. A distância não é obstáculo para se entrar em contato — mas entrar em contato não é obstáculo para se permanecer à parte. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem sedimentos permanentes. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais que o apertar de um botão.
A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. “Estar conectado” é menos custoso do que “estar engajado” — mas também consideravelmente menos produtivo em termos da construção e manutenção de vínculos.
“Quando estávamos a uns poucos anos do súbito desenvolvimento da proximidade virtual eletronicamente acionada, Michael Schluter e David Lee observaram que “nós usamos a privacidade como um traje pressurizado … Tudo menos convidar ao encontro; tudo menosenvolver-se”. Os lares não são mais ilhas de intimidade em meio aos mares, em rápido resfriamento, da privacidade. Transformaram-se de compartilhados playgrounds do amor e da amizade em locais de escaramuças territoriais, e de canteiros de obras onde se constrói o convívio em conjuntos de bunkers fortificados. “Nós entramos em nossas casas separadas e fechamos a porta, e então entramos em nossos quartos separados e fechamos a porta. A casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer, separadamente lado a lado.”
Seria tolo e irresponsável culpar as engenhocas eletrônicas pelo lento mas constante recuo da proximidade contínua, pessoal, direta, face a face, multifacetada e multiuso. E no entanto a proximidade virtual ostenta características que, no líquido mundo moderno, podem ser vistas, com boa razão, como vantajosas — mas que não podem ser facilmente obtidas sob as condições daquele outro tête-àtête, não-virtual. Não admira que a proximidade virtual tenha ganhado a preferência e seja praticada com maior zelo e espontaneidade do que qualquer outra forma de contigüidade. A solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum.”
- Pode apertar a tecla deletar;
- Não responder email é a coisa bem fácil;
- Pode-se namorar sem medo de ‘repercursões’ no mundo real;
- “Compra não-obrigatória” – “devolução do produto caso não fique satisfeito”
- Terminar quando se desejar, sem confusão, sem avaliação de perdas e sem remorsos;
- Como a modernidade líquida é instável, o namoro pela internet permite reduzir riscos e, simultaneamente, evitar perda de opções;
- Não há necessidade “de estar à disposição quando o outro precisa”.
“A responsabilidade por eliminar essas condições não pode ser atribuída à porta virtual do namoro eletrônico. Muito mais tem acontecido no caminho em direção à líquida e individualizada sociedade moderna para tornar os compromissos de longo prazo pouco numerosos, o engajamento a longo prazo uma rara expectativa e a obrigação de assistência mútua incondicional uma perspectiva que nem é realista nem percebida como digna de grandes esforços.”
terça-feira, 23 de junho de 2015
Considerações sobre "Amor Líquido" – Parte 1

No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantinéia ressaltou para Sócrates, com a sincera aprovação deste, que “o amor não se dirige ao belo, como você pensa; dirige-se à geração e ao nascimento no belo”. Amar é querer “gerar e procriar”, e assim o amante “busca e se ocupa em encontrar a coisa bela na qual possa gerar”. Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo.
“[…] Quando se trata de amor, posse, poder fusão e desencanto são os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
Nisso reside a assombrosa fragilidade do amor, lado a lado com sua maldita recusa em suportar com leveza a vulnerabilidade. Todo amor empenha-se em subjugar, mas quando triunfa encontra a derradeira derrota. Todo amor luta para enterrar as fontes de sua precariedade e incerteza, mas, se obtém êxito, logo começa a se enfraquecer — e definhar. Eros é possuído pelo fantasma de Tanatos, que nenhum encantamento mágico é capaz de exorcizar. A questão não é a precocidade de Eros, e não há instrução ou expedientes autodidáticos que possam libertá-lo de sua mórbida — suicida — inclinação.”
“Desejo é a vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir – aniquilar. […] Provar, explorar, tornar familiar e domesticar.”
“O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que “está lá fora”. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo”.
“Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua”
“Consideradas defeituosas ou não “plenamente satisfatórias”, as mercadorias podem ser trocadas por outras, as quais se espera que agradem mais, mesmo que não haja um serviço de atendimento ao cliente e que a transação não inclua a garantia de devolução do dinheiro. Mas, ainda que cumpram o que delas se espera, não se imagina que permaneçam em uso por muito tempo. Afinal, automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de funcionamento satisfatórias são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que “novas e aperfeiçoadas versões” aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razão para que as parcerias sejam consideradas uma exceção à regra?”
“É claro. Relacionamentos são investimentos como quaisquer outros, mas será que alguma vez lhe ocorreria fazer juras de lealdade às ações que acabou de adquirir? Jurar ser fiel para sempre, nos bons e maus momentos, na riqueza e na pobreza, “até que a morte nos separe”? Nunca olhar para os lados, onde (quem sabe?) prêmios maiores podem estar acenando?
A primeira coisa que os bons acionistas (prestem atenção: os acionistas só detêm as ações, e é possível desfazer-se daquilo que se detém) fazem de manhã é abrir os jornais nas páginas sobre mercado de capitais para saber se é hora de manter suas ações ou desfazer-se delas. É assim também com outro tipo de ações, os relacionamentos. Só que nesse caso não existe um mercado em operação e ninguém fará por você o trabalho de ponderar as probabilidades e avaliar as chances (a menos que você contrate um especialista, da mesma forma que contrata um consultor financeiro ou um contador habilitado, embora no caso dos relacionamentos haja uma infinidade de programas de entrevistas e “dramas da vida real” tentando ocupar esse espaço). E assim você tem que seguir, dia após dia, por conta própria. Se cometer um erro, não terá direito ao conforto de pôr a culpa numa informação equivocada. Precisa estar em alerta constante. Se cochilar ou reduzir a vigilância, problema seu. “Estar num relacionamento” significa muita dor de cabeça, mas sobretudo uma incerteza permanente. Você nunca poderá estar plena e verdadeiramente seguro daquilo que faz — ou de ter feito a coisa certa ou no momento preciso.
Parece que esse dilema não tem uma boa solução. Pior ainda, que ele está impregnado de um paradoxo do tipo mais desagradável: não apenas a relação falha em termos da necessidade que deve-ria (e esperávamos que pudesse) cumprir, mas torna essa necessidade ainda mais afrontosa e exasperante. Você busca o relacionamento na expectativa de mitigar a insegurança que infestou sua solidão; mas o tratamento só fez expandir os sintomas, e agora você talvez se sinta mais inseguro do que antes, ainda que essa “nova e agravada” insegurança provenha de outras paragens. Se você pensava que os juros de seu investimento em companhia seriam pagos na moeda forte da segurança, parece que sua iniciativa se baseou em falsos pressupostos.”
“Christopher Clulow, do Instituto Tavistock de Estudos Matrimoniais, outro especialista citado por Adrienne Burges, conclui: “Quando se sentem inseguros, os amantes tendem a se portar de modo não-construtivo, seja tentando agradar ou controlar, talvez até agredindo fisicamente — o que provavelmente afastará o outro ainda mais.” Quando a insegurança sobe a bordo, perde-se a confiança, a ponderação e a estabilidade da navegação. À deriva, a frágil balsa do relacionamento oscila entre as duas rochas nas quais muitas parcerias esbarram: a submissão e o poder absolutos, a aceitação humilde e a conquista arrogante, destruindo a própria autonomia e sufocando a do parceiro. Chocar-se contra uma dessas rochas afundaria até mesmo uma boa embarcação com tripulação qualificada — o que dizer de uma balsa com um marinheiro inexperiente que, criado na era dos acessórios, nunca teve a oportunidade de aprender a arte dos reparos? Nenhum marinheiro atualizado perderia tempo consertando uma peça sem condições para a navegação, preferindo trocá-la por outra sobressalente. Mas na balsa do relacionamento não há peças sobressalentes.”
- “A resposta é dada por uma pessoa inevitalmente diferente daquela a quem foi feita a pergunta”.
- A resposta é dada por uma pessoa que mudou desde que perguntou. Sendo impossível saber a profundidade da mudança.
- “Ambos os parceiros sabiam que a mudança estava ocorrendo e lhe deram as boas-vindas.”
- “O passado dos dois indivíduos serão incorporados aos seus presentes”
- “Presteza em incorporar futuros compartilhados aos presentes individuais parcialmente compartilhados, parcialmente separados”.
“A conveniência é a unica coisa que conta, e isso é algo para uma cabeça fria, não para um coração quente (muito menos superaquecido).”
Um resultado particularmente portentoso dessa nova ideologia foi a substituição dos “interesses compartilhados” pela “identidade compartilhada”. A fraternidade de base identitária estava para se tornar — prevenia Sennett — a “empada por um grupo seleto de pessoas aliada à rejeição das que não estiverem dentro do círculo local”. “Forasteiros, desconhecidos, diferentes tornam-se criaturas a serem afastadas.”
À época em que Anderson desenvolveu seu modelo de “comunidade imaginada”, a desintegração dos vínculos e liames impessoais (e com eles, como apontaria Sennett, da arte da “civilidade” — de “usar a máscara” que simultaneamente protege e permite que se aprecie a companhia) havia atingido um estágio avançado, e assim a fricção e os afagos de ombros, a contigüidade, a intimidade, a “sinceridade”, o “entrar dentro do outro”, sem guardar segredos, confessando de modo compulsivo e compulsório, estavam se tornando rapidamente as únicas defesas humanas contra a solidão e o único fio disponível para se tecer o ansiado convívio. Só era possível conceber totalidades mais amplas do que o círculo de confissões mútuas como um “nós” intumescido e esticado; como a mesmidade, mal referida como “identidade”, em letras grandes. A única forma de incluir os “desconhecidos” em um “nós” era reuni-los como potenciais parceiros em rituais confessionais, tendentes arevelar um “interior” semelhante (e portanto familiar), quando pressionados a compartilhar suas íntimas sinceridades.
Tal como nas vastas extensões da terra de fronteira global, também no nível popular, no domínio da política de vida, o palco para a ação é um recipiente cheio de amigos e inimigos potenciais, no qual se espera que coalizões flutuantes e inimizades à deriva se aglutinem por algum tempo, apenas para se dissolverem outra vez e abrirem espaço para outras e diferentes condensações. As “comunidades da mesmidade”, predeterminadas, mas aguardando serem reveladas e preenchidas com matéria sólida, estão cedendo vez a “comunidades de ocasião”, que se espera serem autoconstruídas em torno de eventos, ídolos, pânicos ou modas. Mais diversificadas como pontos focais, porém compartilhando a característica de uma curta, e decrescente, expectativa de vida. Elas não duram mais que as emoções que as mantêm no foco das atenções e estimulam a conjunção de interesses — fugaz, mas não por isso menos intensa — a se coligar e aderir “à causa”.
“Cerca de metade da revista OM, semana após semana, é ocupada por uma seção intitulada “Vida” Explicam os editores: “Vida” é “o manual da vida moderna”. A seção tem suas subseções: primeiro vem “Moda” que informa sobre os problemas e tribulações da “aplicação de cosméticos”, com uma subseção, “Ela moda”, que exorta as leitoras a “não medir esforços para encontrar o par de sapatos certo”. É seguida pela subseção “Interiores”, com um breve interlúdio sobre “Casas de bonecas”. Depois vem a parte de “Jardins”, que explica como “manter as aparências” e “impressionar os hóspedes”, apesar da aborrecida verdade de que “o trabalho de um jardineiro nunca termina”. A subseção seguinte é “Comida” e depois “Restaurantes”, que mostra onde procurar comida gostosa quando se sai para jantar, e então “Vinhos”, indicando onde encontrar vinhos saborosos para consumir em casa. Tendo chegado a esse ponto, o leitor está bem preparado para examinar atentamente as três páginas da subseção “Viver” — dividida em “amor, sexo, família, amigos”.
Na semana de 16 de junho de 2002, “Viver” é dedicada aos CSSs — “casais semi-separados”, “revolucionários do relacionamento”, que “romperam a sufocante bolha do casal” e “seguem seus próprios caminhos” Sua dança a dois é em tempo parcial. Odeiam a idéia de compartilhar o lar e as atividades domésticas, preferindo manter domicílios, contas bancárias e círculos de amizade separados, e estarem juntos quando estão a fim. Tal como o trabalho ao estilo antigo, hoje dividido numa sucessão de horários flexíveis, tarefas únicas ou projetos de curto prazo, e da mesma forma que a compra ou o aluguel de uma propriedade, que agora tende a ser substituída pela ocupação time-share e pelos pacotes de fim de semana, o casamento ao estilo antigo, “até que a morte nos separe”, já desestabilizado pela coabitação “vamos ver como funciona”, reconhecidamente temporária, é substituído pelo “ficar juntos”, de horário parcial ou flexível.”
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Mansidão Shibumista e a Revolta Realista: a “bola de cristal” e a redução da realidade
Os seguidores de Nessahan Alita e seu movimento “realista” adquirem uma certa visão de mundo que é por demais reveladora. O espécime “realista” dessa vez é John Konstantinos que, através de sua “bola de cristal, sintetiza-nos o seguinte quadro referente às mulheres:
A mulher passa a vida toda na putaria dispensa os homens bons e trabalhadores pra viver na vadiagem, depois que ficam velhas e não podem mais disputar os cafajestes com as mais novas, ai” se arrependem” e procuram um dos caras bons que ela sempre dispensava na jventude, pra assumir o bagaco que os cafajestes não querem mais,assumir os filhos dos caras também, e por isso que vadiagem feminina não acabara pois elas sabem que no final de tudo vai haver um hominho pra compensa-las por toda sua vida de promiscuidade.
Realmente uma retórica verossímil. Parece até ser criativa, mas não é muito diferente da versão feminista para criar o repúdio aos homens. “Os homens ficam galinhando até cansarem, então na hora de casar escolhem as mulheres boazinhas. Enquanto houver mulher tradicional disposta a cuidar da casa para um homem galinha, sempre haverá a opressão machista”. Na “bola de cristal”, há também o elemento do liberalismo, onde o relacionamento humano é reduzido a uma mera questão de competição e busca do lucro.
O que se consegue notar é que os dois discursos da “bola de cristal” escondem táticas de demonização ao sexo oposto e, sobretudo, alicerçam-se na incapacidade de arrependimento.
Ao tomar a mulher como um ser incapaz de se arrepender, os “realistas” sentem-se livres para criticá-las sem dó nem piedade. Não apenas isso: já não bastasse o coração incapaz de reconhecer suas próprias culpas, mas também são maquiavélicas o suficiente para traçar um plano de fuga. Não há ali um ser humano passível de erros ou conduzidos por uma cultura anti-cristã, e por isso mesmo confusos e sem norte, mas seres que só agem segundo a lógica do interesse a curto prazo e com um plano de escape a longo.
A origem dessa teoria “realista” que usam como bola de cristal está no conceito de “lado obscuro feminino” apresentado por Nessahan Alita. A coisa funciona do seguinte modo: toda mulher tem um lado obscuro que, se deixar aflorar, a domina e conduz seus comportamentos para negligenciar homens bons e atrair-se por homens maus. É basicamente por conta do poder desse lado obscuro que a mulher não se arrepende, ela seria um fantoche desse lado obscuro.
É um quadro que lembra o que Chesterton diz a respeito do materialismo: “usar o livre-pensamento para destruir o livre-pensamento”, criando uma corrente escravizante.
Os cristãos podem até perceber uma certa semelhança do “lado obscuro” com a natureza do pecado, mas o cristão não nega a graça divina e seu amor misericordioso que perdoa os nossos pecados. Esta é a principal diferença entre a visão “realista” e a visão cristã dos erros humanos. O que faz perceber que moldar a mulher errante como um ser incapaz de arrepender é menos uma questão de descrição da realidade do que ocultação da dificuldade de perdoar dos realistas.
Um outro ponto da “bola de cristal” descrita pelo John deve ser abordado. A história dele é verossímil. Existe a desonestidade de tomar uma situação anedótica como realidade geral, um recorte da realidade sendo tomada como a realidade inteira (é por isso que eu acho curioso eles se autodenominarem “Real”), mas… Digamos que se trata de uma mulher que “ferveu” em sua juventude e agora quer se relacionar de modo duradouro. Como saber se o arrependimento é verdadeiro ou não?
Talvez fosse necessário, antes de partir para um relacionamento duradouro, a ser mantido até a morte de um dos dois, uma etapa anterior para conhecimento recíproco, onde um tenta compreender o outro, traçar projetos futuros, descobrir qualidades e defeitos, concordâncias e discordâncias… Uma etapa anterior onde o sexo está fora de questão e a demonstração de afetividade restringe-se a beijos e carícias sutis.
Não estou sugerindo e nem propondo nenhum modelo novo. Trata-se do bom e velho modelo de namoro cristão, que na verdade é o mais correto e efetivo de todos. É um imperativo do namoro o compartilhamento do passado e de arrependimentos, bem como a observância para analisar o caráter alheio.
Nós shibumistas reencontramos a verdade do namoro, já os “realistas” estão na “modernidade moderna”, vítimas da revolução sexual. Em um namoro, estão dispostos a fazer tudo, exceto namorar. É por isso que possuem medo de assumir uma “mulher rodada”. E para evitar cair nesse erro – cujo antídoto é facilmente obtido pelo sistema de namoro cristão e observância nas virtudes humanas – optam por se relacionarem de modo “desapegado” como todas as mulheres.
No fundo do discurso da “bola de cristal”, reside tão somente o objetivo de tentar justificar uma contradição gritante: mulher promíscua é ruim; homem promíscuo é bom.
Os “realistas” não acreditam no arrependimento da vadia, e por isso não se afetam pela culpa caso a usem para objeto de prazer; os shibumistas, até porque somos exemplos vivos de conversão, acreditamos no perdão divino e enxergamos a dignidade até nas mulheres errantes. Não tentamos justificar o injustificável apelando para uma idéia de erro invencível de um “lado obscuro”.
#Augusto
