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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A teoria dos três discursos da pós-modernidade


Como fugir da verdade como o diabo foge da cruz? Eis o esforço, ou melhor, não esforço de pensar oriundo de nossa sociedade pós-moderna. Se é de conhecimento universal, conhecimento que abarca desde ciências e filosofias antigas, que a verdade deve guiar o homem nas virtudes, hoje as pessoas se acham as “moderninhas”, mas fazem questão de ignorar este detalhe fundamental. Por conta disso, comentem erro atrás de erro. Tornam-se pessoas vazias, egoísta, incrédulas e medrosas.

Por conta do derretimento dos valores, as pessoas deixam-se guiar pelas modas, pouco importando se elas fazem sentido ou não. O “penso com a própria cabeça” passa, então, a significar, na prática, o eu “penso como todo mundo”, “sigo o achismo da maioria”. E o critério moral passa a ser o “respeito humano”, ou seja, “todo mundo faz”, esquecendo de uma refutação que qualquer mãe decente fez para rebater as molecagens do filho criança, “se todo mundo pular da ponte, você vai pular junto?”.

O comportamento de massas é basicamente um monte de gente querendo dar tiro no pé. Vale tudo, menos a verdade que, no pensar egocêntrico das pessoas, é mera questão de gosto.

É neste contexto de adentramos na teoria dos três discursos da pós-modernidade. Trata-se da atitude de correr vergonhosamente da verdade. E como isso é feito? Fundamentalmente, troca-se a razão pela racionalização (pensar por absurdo, por desonestidade e/ou comodismo) e aplica-se, basicamente, três truques retóricos:

1) Relativismo: Quem nunca leu um “””argumento””” do tipo “essa é a sua opinião”? Parte-se do pressuposto que a verdade não existe e que todas as opiniões são iguais em valores. Curiosamente, se eu disser que na conta bancária do rapaz tem R$ 10,00 e não R$ 1000,00 como ele acreditava, este tipo de discurso será abandonado e a verdade (eu quero os mil reais que são meus), como um passe de mágica, volta a existir.

2) Intimidação: São ofensas ou provocação como “você é arrogante”, ou “você é inseguro”. Como se não fosse arrogante aquele que, sem motivo ou provas, acusa o outro de ser arrogante. E o que dizer do que chama o outro de inseguro, mas que, diante de uma realidade, teme em querer não enxergá-la?

3) Talvez a mais poderosa das armas para fugir da verdade, é a ridicularização: uma espécie de “””argumento”””” do tipo do tipo “ptz, é ridículo isso que você disse!” (sem explicar o porquê do ridículo).

Essas três posturas diante da verdade não fazem sentido, só conduzem ao erro e, portanto, na auto-ilusão. Não obstante, é um discurso corriqueiro nas conversas do dia a dia. Sugiro o exercício: tente prestar atenção nesse tipo de padrão nas diferentes discussões que você participa ou acompanha do no dia a dia… Adianto, contudo, que perceber a frequência a que se recorre aos três tipos de padrão é assustador, pois torna-se nítido que estamos em uma sociedade doente e idiotizada. E por que isso ocorre? O Pe. Charbonneau basicamente matou a charada. Esta é uma sociedade do medo… E as pessoas com medo fogem da verdade. E a sociedade tem medo porque dá valor excessivo às coisas erradas, a saber: a técnica, o dinheiro, o prazer mundano…
#Augusto

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A Selva de Pedra e a Perda do Valor Humano

Sobre essa criançada (e tem uns imbecis com 40-60 anos de idade com a mentalidade que se descreverá a seguir) criada a leite com pera e ovomaltine nas cidades grandes:

São idiotas, que cresceram fechados em apartamento, que sabem o que viram na TV e na escola. Que acreditaram durante anos que o leite vinha de uma entidade mística contida dentro da caixinha. Que acreditavam que os pais são entidades que entregam presentes, porque só os viam algumas vezes no dia por poucos minutos. Nunca saberão o que é plantar algo, rachar uma lenha, pescar, respeitar os mais velhos, a importância dos pais, do trabalho duro, de valorizarem o que importa.

Se não sabem nem de onde as coisas vem (caso do leite), imagina compreenderem conceitos como Deus, salvação, importância da vida, família? Nunca tiveram pais presentes que lhes ensinassem isso, estes estavam sufocados em trabalhos extenuantes. Esses pais caíram na ladainha materialista sustentada pelo liberalismo econômico e marxismo, acreditaram que trabalhar feito burros de carga é o que vale, garantir o bem-estar e as necessidades materiais da criança, os desejos. Aí os filhos e filhas cresceram uns moleques que só querem saber de baladas, de algazarra em movimentos prol minorias a quem eles sequer pertencem, e quando pertencem fazem mais para chamar a atenção que nunca tiveram em casa. Ficam em uma adolescência infinita de rebeldia sem sentido.

Uma criatura dessas cresce num ambiente doido, como uma caverna de Platão à moda moderna. Enxerga tudo através de telas e o pouco que conhece do interior de sua gaiola do vigésimo andar é, quando muito, algum shopping. Quando cresce está perdido numa selva de pedra, começam a lhe incutir na mente que o que importa é trabalhar, ganhar dinheiro, fazer o que seus pais fizeram. E ele se pergunta: “É só isso?”. E então começa a procurar algo que lhe preencha esse vazio. Um vazio existencial, um vazio de alma. Alguns vão pra esquerda fazer miçanga, oficina de qualquer coisa numa Universidade, falar besteiras. Outros se reúnem pra discutir problemas políticas, meter o pau na esquerda e no governo e acreditam revolucionar a política via Facebook. Os dois são grupos vazios, feito de pessoas vazias em sua maioria. Pessoas sem referencial de existência e sem sentido de vida que entram em grupos por falta de companhia, pois sabem que se forem pra casa não vai ter ninguém lá além da empregada.

Observa-se bem isso nessa geração atual. O direitista de Facebook típico, por exemplo, é aquele moleque criado a leite com pera. Que leu meia dúzia de livros de autores ditos conservadores e acha que pode solucionar os problemas do mundo do alto de seu prédio, como se tivesse jogando The Sims. Quando acham algum que defenda família, vida, Tradição, que tenha referência religiosa forte, que compreende a natureza e a Criação geralmente é alguém criado no meio do mato quando criança. Isso não é fruto do acaso, mas das primeiras experiências da criança sobre relacionamentos, mundo, Deus e tudo à sua volta que deixam essas marcas para a vida inteira. Do outro lado está a turma da esquerda, que acredita a partir de seus professores universitários o que é melhor para os pobres, os homossexuais, as feministas, os negros, e tudo o mais que eles possam dividir em algum grupo qualquer e chamá-los minorias, afirmando e incutindo na mente desses coitados que eles estão sendo discriminados, quando na verdade nunca pararam para pedir a opinião desses, se estes querem essa guerra sem sentido, essa encheção de saco; que nunca pararam para ouvir o que essas pessoas estão precisando, uns trastes incapazes de arregaçar as mangas por caridade a esses que dizem defender, mas que se apoiam no Estado objetivando algum cargo ou benefício público e/ou político. Possuem antes a sede do poder que a vontade de auxílio ao próximo. Afinal, só aprenderam a enxergar duas coisas desde criança: dinheiro e poder. Foi isso que seus pais sempre esperaram e foi por isso que os forçaram a entrarem em faculdades. Mas como sempre foram crianças que tiveram tudo a mão querem continuar assim: o Estado é a chave que lhes dará o que querem, e eles sabem disso. Seus professores lhes falaram disso e vêem nesses a realização da vida. Não enxergam que esse vazio não pode ser preenchido por tais absurdos, e quando avisados disso ignoram.

Depois o povo não entende esse grande número de malucos que se engajam em movimentos de minorias, ateus, socialistas, em cidade maiores, um bando de gente sem referencial. Esse povo nunca teve uma direção na vida, nunca apreendeu nada da realidade, vive sem sentido, vive para trabalhar ou fazer militância, acumular capital ou consegui-lo via estatal, vive do vazio e tenta preencher esse vazio emocional e/ou de alma desde a infância (principalmente o vazio da falta paterna e materna, de Deus) com quaisquer coisas materiais ou conceito e/ou atividades absurdos. Por nunca terem tido um norte na vida ficam girando entre tudo isso, pulando como macacos de galho em galho, girando como uma agulha de bússola desvairada próxima de um imã. É essa a imagem mental dessas pessoas. Algo complicadíssimo de ser revertido. Para muitos muito provavelmente impossível. Que o digam nossos doutores e mestres das Universidades públicas brasileiras que fomentam a tudo isso como se fosse a coisa mais importante do mundo.

Junto disso ainda temos o capitalismo puro proposto pelos liberais econômicos, a corrida desenfreada pelo dinheiro que os liberais econômicos promovem e causa essa correria diária de todo mundo e que é o que tem levado à oportunidades de destruição cultural cada vez maiores pelo marxismo-gramscismo. “Ninguém sabe direito como isso aconteceu”, falam os filósofos a respeito disso em aspecto macro ao falar das Instituições, dos planejamentos de governo e nunca pararam pra analisar relações sociais menores. As menores instituições entre indivíduos e as que mais lhe influenciam (a família principalmente) e que são capazes de formar o caráter do indivíduo. Anda todo mundo perdido se perguntando: quando começou tudo isso?

Começou no exato momento em que os pais não tiveram mais tempo para os filhos. Quando houve a separação das relações mais íntimas, mais fortes e que estruturariam os valores do indivíduo, afastando pais de filhos. Essa separação ocorreu primeiramente pela necessidade do trabalho, da acumulação, do aumento do custo de vida, e posteriormente via estatal ao estimular creches, crianças a serem doutrinadas nas escolas cada vez mais cedo, etc. É esse o amansamento e esse o abrandamento que acontece a qualquer ser quando afastado dos pais. Os pais, os únicos com capacidade suficiente para ensinam a criança a enfrentar os perigos do mundo e lhes os valores humanos, e não a tia da escola que precisa cuidar de 30 crianças ao mesmo tempo.

Os amplos estudos de psicologia para controle da mente e do comportamento humano que se seguiram em regimes comunistas e mesmo nos Estados Unidos no século XX são grandes responsáveis pelo que ocorre hoje. O controle estatal é o primordial para qualquer um dos dois sistemas. No comunismo visando a servidão ao Estado e nos EUA a produtividade desenfreada e o modo de vida workaholic (com uma fachada de liberdade, quando na realidade o homem mais parece um escravo do próprio trabalho) fizeram o que um zoológico faz. Separaram os pais da prole porque sabiam que o animal retirado da natureza e enjaulado se torna dócil se desde pequeno não há alguém da própria espécie (os pais) mais forte que lhes ensine os princípios básicos para que sobreviva no mundo. Tanto é assim que um animal domesticado não se adapta à natureza e é capaz de morrer de fome, pois não possui instinto e dificilmente o desenvolverá. As pessoas perderam os instintos, viraram uns chorões, uns coitados, e não se desenvolveram mentalmente. Cresceram em tamanho, em responsabilidades e quando caem de cara no mundo choram a proteção estatal como choravam para a tia da escola no primeiro dia de aula.

O mesmo que acontece aos animais aconteceu às pessoas. Criadas em zoológicos de pedra e amansadas desde cedo nas escolas e pelos meios midiáticos e digitais, sem referencial e estrutura mental, emocional e espiritual se tornaram trastes incapazes de enfrentar o mundo quando adultos. Agora não possuem instinto quanto ao que importa ao homem para viver, não tem direção, sentido de vida, estão como um animal domesticado solto na floresta a morrer de fome.

#João Carlos

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Considerações sobre "Amor Líquido" – Parte 3


No capítulo 2 de “Amor Líquido”, o sociólogo Zigmunt Bauman comentou a respeito da ilusão do sexo sem amor, cujo resultado é a frustração e sofrimento que afeta inclusive a instituição familiar. O efeito do “amor líquido” nos relacionamentos é o afastamento e mudança de arranjos de relacionamento, sendo os contatos virtuais um exemplo prático dessa realidade.

A terceira parte do livro “Amor Líquido” possui um título sugestivo: “sobre a dificuldade de amar ao próximo”, uma clara alusão ao resumo dos mandamentos de Deus [Amar a Deus sobre toda as coisas e o próximo como a ti mesmo (Mt 22,37)].

Bauman inicia o capítulo com as provocações reducionistas de Freud contra este mandamento que foi o preceito fundador de nossa civilização:

  • É um dos preceitos fundamentais da vida civilizada, mas é também o que mais contrario o tipo de razão que a civilização promove: a razão do interesse próprio e da busca da felicidade.
  • Só pode ser aceito como “faz sentido”, via exortação teológica: acredite porque é absurdo;
  • “Por que devo fazer isso? Que benefício me trará?
  • Se eu amo alguém, ela ou ele deve ter merecido de alguma forma…
  • Essa exigência não trás evidências suficientes de que o estranho a que devo amar me ama ou demonstra por mim a mínimo consideração. Pode até, se lhe convier, não hesitar em injuriar, zombar, caluniar ou mostrar seu poder superior…
  • “qual é o objetivo de um preceito enunciado de modo tão solene se seu cumprimento não pode ser recomendado como algo razoável?”
Destes questionamentos, Freud conclui que se trata de “um mandamento que na verdade se justifica pelo fato de que nada mais contraria tão fortemente a natureza original do homem”. Bauman então prossegue:

“Tanto menor a probabilidade de uma norma ser obedecida, maior a obstinação com que tenderá a ser reafirmada. E a obrigação de amar o próximo talvez tenha menos probabilidade de ser obedecida do que qualquer outra. Quando o filósofo talmúdico Rabi Hillel foi desafiado por um possível convertido a explicar o ensinamento de Deus enquanto pudesse se sustentar numa perna só, ele ofereceu o “amar o próximo como a si mesmo” como a única resposta, embora completa, que encerra a totalidade dos mandamentos divinos.

Aceitar esse preceito é um ato de fé; um ato decisivo, pelo qual o ser humano rompe a couraça dos impulsos, ímpetos e predileções “naturais”, assume uma posição que se afasta da natureza, que é contrária a esta, e se torna o ser “não-natural” que, diferentemente das feras (e, na realidade, dos anjos, como apontou Aristóteles), os seres humanos são.

Aceitar o preceito do amor ao próximo é o ato de origem da humanidade. Todas as outras rotinas da coabitação humana, assim como suas ordens pré-estabelecidas ou retrospectivamente descobertas, são apenas uma lista (sempre incompleta) de notas de rodapé a esse preceito. Se ele fosse ignorado ou abandonado, não haveria ninguém para fazer essa lista ou refletir sobre sua incompletude.”

O amor, como pôde-se perceber, é o caminho para sair da animalidade. Animalidade esta que Freud encara como uma fatalidade do ser humano (crença refutada por Viktor Frankl). Freud foi incapaz de reconhecer a transcendência do amor, aludindo a capacidade do homem “amar” apenas segundo seu próprio interesse, ou seja, o erro de partida de Freud ao falar do amor foi confundi-lo com o “Amor Líquido”, confusão esta cada vez mais disseminada e praticada em nossos tempos pós-modernos.

– Passagem decisiva do instinto de sobrevivência para a moralidade

A passagem que resume as leis de Deus torna a moralidade uma parte da sobrevivência não do homem, mas da humanidade no humano. Enquanto a mera sobrevivência humana, a exemplo dos outros animais, não precisa de mandamento, uma vez que predomina-se um ambiente de lei do mais forte, o amor ao próximo como a si mesmo torna a sobrevivência humana diferente de qualquer outra criatura viva:
“o preceito do amor ao próximo desafia e interpela os instintos estabelecidos pela natureza, mas também o significado da sobrevivência por ela instituído, assim como o do amor-próprio que o protege.”

– Amor-próprio

Para termos amor-próprio, reflete Bauman, precisamos ser amados. A recusa do amor alimenta a auto-aversão. Sendo assim, devemos construir o amor-próprio a partir do amor que nos é oferecidos por outros.

Como saber que não fomos desconsiderados ou descartados? Como saber que há um amor que está prestes a aparecer e que somos dignos dele? Eis a resposta:
“Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos tranqüilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em consideração”

A partir disso, pode-se esquematizar o raciocínio de Bauman:

  • Para haver amor-próprio, a pessoa deve ser amada primeiro;
  • Se os outros me respeitam, então deve haver algo em mim que lhes posso oferecer. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou apenas um objetivo descartável que pode ser usado e jogado fora.
  • Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação “amar o próximo como a si mesmo” carrega a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas razões que estimulam o nosso amor-próprio;
  • “Amar o próximo como a si mesmo” evoca o desejo do próximo de ser reconhecido, admitido e confirmado a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não descartável.
“Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um — o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.”

Este pensamento de Bauman parece ser próximo ao princípio conservador de Russell Kirk a respeito da variabilidade.

– Dignidade Humana

Bauman usa de um discurso antiamericano, aproveitando-se da fala infeliz de uma porta-voz americana em sua justificativa a respeito do bloqueio econômico ao Iraque, para dizer algo que é bem certo:

“Não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos” é a desculpa favorita dos visionários, dos porta-vozes das visões oficialmente endossadas e dos generais que agem da mesma forma sob o comando dos porta-vozes. Essa fórmula transformou-se, com o passar dos anos, num verdadeiro slogan de nossos admiráveis tempos modernos.

Apesar de prosseguir incorporado de discurso esquerdista e de um espírito de utópica paz mundial, Bauman continua falando coisas profundas e relevantes a respeito da dignidade humana:

“A negação da dignidade humana deprecia o valor de qualquer causa que necessite dessa negação para afirmar a si mesma.”

Em seguida, o sociólogo parece encarnar de um espírito conservador para criticar os utópicos, cujas ideologias não são capazes de respeitar a dignidade humana, pelo contrário, o resultado prático dessas ideologias é, na realidade, o roubo, desvirtuamento e mutilação da dignidade.

Infelizmente, para estes visionários, parece difícil perceber que não consegue impor legalmente a perfeição humana. A mudança deve passar pela livre tentativa individual de cada um, no respeito e defesa da própria dignidade e das demais pessoas:

”(…) valor, o mais precioso dos valores humanos, o atributo sine qua non de humanidade, é uma vida de dignidade, não a sobrevivência a qualquer custo.”

– Desumanização e Holocausto

Bauman afirma que o direito do mais forte, mais astuto, engenhoso ou ardiloso de fazer o possível para sobreviver ao mais fraco e desafortunado é uma das lições mais horripilantes do Holocausto.

Para a filosofia do mais forte vigorar, é necessário que seja despido de todas as conotações éticas, inclusive a crua essência do jogo de soma zero da sobrevivência. Desde que você seja o mais forte, pode escapar impune, não importa o que tenha feito ao fraco. É a partir disso que se devasta moralmente as vítimas através do processo de desumanização. E isso foi verificado no Holocausto.

À medida que cresce a lista de atrocidades, maior a necessidade de desumanização das vítimas de modo não apenas impedir que as vítimas sejam ouvidas, mas para que sequer sejam objetos de atenção.

– Confiança

Bauman rejeita a visão de Antonina Zhelazkova, uma etnóloga que utiliza de determinismo para afirmar que o ser humano não tem capacidade de frear os impulsos oriundos dos ressentimentos [ela deve adorar Freud e Nietzsche]. Ela não aceita que as pessoas estejam em posição de combater o impulso de se tornarem assassinas depois de terem sido vítimas. Na visão da etnóloga, isso seria exigir em demasia das pessoas. Por conta disso, a forma da vítima escapar à dor e à humilhação seria matar ou humilhar seu algoz ou benfeitor. Ou descontar suas frustrações nas pessoas mais fracas.

Provavelmente Zhelazkova nunca assistiu ao Chaves que, apesar de ser uma clássica série de humor, iluminou várias gerações com um ensinamento muito sério: “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.

A esse respeito, Bauman também trás uma visão mais otimista de Logstrup, que afirma que “é uma característica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural confiança. Só em circunstância especial desconfiamos antecipadamente de um estranho… Em circunstância normais, contudo, nós aceitamos a palavra do estranho e não duvidamos dele até que tenhamos uma razão particular para isso. Nunca suspeitamos da falsidade de uma pessoa até que a tenhamos apanhado numa mentira.”

Com duas visões diferentes, Zygmunt pondera que as pessoas tendem a tecer suas memórias do mundo utilizando o fio de suas experiências. No caso de Logstrup, um homem muito bem casado, um seguro emprego como professor de teologia e vivendo em uma tranquila e pequena paróquia da Ilha de Funen. 

Referente às pessoas da pós-modernidade, contudo, a visão otimista estaria em desacordo com o que é insinuado pelas narrativas comuns da experiência humana e recomendado pelas estratégias de vida que lhes são apresentadas no dia-a-dia. A mídia, representado mais claramente nos populares reality shows, transmitem uma imagem bem diferente: “Não confie em ninguém”, invertendo a idéia de Logstrupe: “É uma característica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural suspeita.”

Segundo Bauman “esses espetáculos televisivos que tomaram milhões de espectadores de assalta e imediatamente capturaram sua imaginação eram ensaios públicos sobre a descartabilidade do ser humano.” A mensagem remente à triste verdade do mundo darwiniano (estado selvagem): o que vale é a sobrevivência do mais forte.

“Os outros são, em primeiro lugar e acima de tudo, competidores, tramando como qualquer competidor, cavando buracos, preparando emboscadas, torcendo para que venhamos a tropeçar e cair. Os trunfos que ajudam os vencedores a superar a concorrência e emergir triunfantes da batalha impiedosa são de muitos tipos, variando da autoconfiança ruidosa à humilde auto-aniquilação. E no entanto, independente do estratagema empregado, dos trunfos dos sobreviventes e das deficiências dos perdedores, a história da sobrevivência tende a se desenvolver da mesma e monótona maneira: num jogo de sobrevivência, confiança, compaixão e clemência (os atributos supremos de Logstrup) são fatores suicidas. Se você não for mais duro e menos escrupuloso do que todos os outros, será liquidado por eles, com ou sem remorso. Estamos de volta à triste verdade do mundo darwiniano: é o mais apto que invariavelmente sobrevive. Ou melhor, a sobrevivência é a derradeira prova de aptidão.”

É lamentado que os jovens, por não serem leitores de livros, e particularmente de livros antigos, possuem dificuldade de refletir sobre a mensagem que, graças a programas como Big Brother, já se tornou senso comum da pós-modernidade que Bauman atesta:

“Eles insistiram [..] em afirmar que este é um mundo duro, feito para pessoas duras: um mundo de indivíduos relegados a se basearem unicamente em seus próprios ardis, tentando ultrapassar e superar uns aos outros. Ao conhecer um estranho você precisa em primeiro lugar de vigilância, e em segundo e terceiro lugares de vigilância. Aproximar-se, colocar-se ombro a ombro e trabalhar em equipe fazem muito sentido enquanto o ajudam a avançar em seu próprio caminho. Mas perdem a razão de ser quando não trazem mais benefícios, ou quando estes — esperada ou apenas possivelmente — são menores que os obtidos evitando-se compromissos e cancelando-se obrigações.”

– O relacionamento puro

O “Amor Líquido” remonta a um estado de “relacionamento puro”, na qual se entra “pelo que cada um pode ganhar” e se “continua apenas enquanto ambas as partes imaginem que estão proporcionando a cada uma das satisfações suficientes para permanecerem na relação”.

Para Anthony Giddens, o “relacionamento puro”:

“não é, como o casamento um dia foi, uma “condição natural” cuja durabilidade possa ser tomada como algo garantido, a não ser em circunstâncias extremas. É uma característica do relacionamento puro que ele possa ser rompido, mais ou menos ao bel-prazer, por qualquer um dos parceiros e a qualquer momento. Para que uma relação seja mantida, é necessária a possibilidade de compromisso duradouro. Mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a um grande sofrimento no futuro, caso ela venha a ser dissolvida.”

No sentido do “relacionamento puro”, o casamento como compromisso incondicional (na alegria e na tristeza, na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença, até que a morte nos separe) é encarado como uma armadilha que se deve evitar a todo custo. A situação complica ainda mais, pois não é suficiente o comprometimento de fidelidade, tido como arriscado, seja investido por apenas uma parte, pois mesmo que uma pessoa assuma seriamente o compromisso, se a outra estiver no espírito do “relacionamento puro” poderá abandonar o barco a hora que achar conveniente. No “relacionamento puro”, o requisito para se terminar a relação independe do desejo do outro. A partir do momento que as coisas esfriam, ou que “a grama do vizinho pareça ser mais verde”, etc. uma das partes se sente livre para romper.

– Conspiração contra a confiança

Segundo Bauman, a confiança foi condenada a uma vida cheia de frustração. Pessoas (sozinhas, individualmente ou em conjunto) empresas, partidos, comunidades, grandes causas ou padrões de vida investidos com autoridade de guiar nossa existência frequentemente deixam de compensar a devoção.

“De qualquer forma, é raro serem modelos de coerência e continuidade a longo prazo. Dificilmente há um único ponto de referência sobre o qual se possa concentrar a atenção de modo fidedigno e seguro, para que os desorientados possam ser eximidos do fatigante dever da vigilância constante e das incessantes retrações de passos dados ou pretendidos. Não se dispõe de pontos de orientação que pareçam ter uma expectativa de vida mais longa do que os próprios necessitados de orientação, por mais curtas que possam ser suas existências físicas. A experiência individual aponta obstinadamente para o eu como o eixo mais provável da duração e da continuidade procuradas com tanta avidez.”

Essa desorientação faz surgir uma pressão para a “necessidade de moral”, contudo – alerta Bauman, a moral não pode ser guiada pela expectativa de lucro, conforto, glória ou auto-engrandecimento. Voltandose a Logstrup, Bauman para explicar que nos atos morais “exclui-se um motivo ulterior”. Sendo assim, a demanda ética – pressão “objetiva” para que sejamos éticos, necessária pelo fato de compartilharmos o planeta com os outros, é e deve ser silenciosa, uma vez que “obediência à demanda ética” pode facilmente transformar-se (se deformada e distorcida) num motivo de conduta.

Em termos práticos, ela significa que, não importa o quanto um ser humano possa ressentir-se por ter sido abandonado (em última instância) à sua própria deliberação e responsabilidade, é precisamente esse abandono que contém a esperança de um convívio moralmente fecundo. A esperança — não a certeza. Em outras palavras, é que a incerteza é a terra natal da pessoa ética e o único solo em que a moral pode brotar e florescer.

Mas, como Logstrup prontamente nos assinala, é a “imediação do contato humano” que é “sustentada pelas expressões imediatas de vida”. Presumo que a conexão e o condicionamento mútuo ajam nos dois sentidos. A “imediação” parece desempenhar no pensamento de Logstrup um papel semelhante ao da “proximidade” nos textos de Levinas. As “expressões imediatas da vida” são disparadas pela proximidade, ou pela presença imediata de outro ser humano — fraco e vulnerável, sofrendo e precisando de auxílio. Somos desafiados pelo que vemos. E desafiados a agir — a ajudar, defender, trazer alívio, curar ou salvar.

– Expressão soberana da vida

Por mais que fale de “demanda moral” ou “demanda ética”, ela continuará à espera, pois o fato de encarará-la como uma necessidade já tira o caráter moral dela. Bauman pode parecer meio maluco nessa abordagem da moral, mas o que ele parece dizer, na realidade, é que a “demanda moral” de nosso tempo quer dar obrigações aos outros, sem antes lembrar do “eu”. O que seria, de fato, uma hipocrisia danada, o famoso “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. É dai que se tira a “expressão soberana da vida” que, ao contrário da “demanda ética”, sempre se realiza e se conclui prontamente – embora não por escolha, mas “de modo espontâneo, sem que se exija”.

Oposto ao “Amor Líquido”, seria fazer boas ações sem querer tirar lucro pessoal. O adversário da “expressão soberana da vida” é a “expressão constrangida”, que é induzida externamente (heterônoma em vez de autônoma, portanto). É uma expressão cujos motivos (desvirtuados como causas) se projetam sobre os agentes externos. Como exemplo de “expressão constrangida” temos a ofensa, o ciúme e inveja:

”Em cada caso, um traço marcante da conduta é o auto-engano destinado a ocultar as fontes genuínas da ação. Por exemplo, o indivíduo “tem uma opinião muito elevada de si mesmo para tolerar a idéia de ter agido erradamente, e assim apela à ofensa para desviar a atenção de seu próprio deslize, o que consegue identificando-se com a parte prejudicada … Obtendo-se satisfação em ser a parte prejudicada, deve-se inventar erros para alimentar a autocondescendência.” A natureza autônoma da ação é, portanto, suprimida — é a outra parte, acusada da má conduta original, do delito que deu origem a tudo, apresentada como o verdadeiro ator do drama. O eu permanece, assim, totalmente do lado receptor. Sofre as ações dos outros em vez de ser um ator por direito próprio.”

Esse tipo de postura parecer reforçar-se a si mesmo. Para manter a credibilidade do “eu”, o ultraje imputado à outra parte deve ser mais assustador e acima de tudo menos curável ou redimível, e os consequentes sofrimentos das vítimas devem ser declarados ainda mais abomináveis e dolorosos. A tática consiste em ficar sempre na ofensiva. Se alguém criticá-lo, suba a crítica sobre a pessoa. No linguajar popular, trata-se de “falar dos podres” em relação à pessoa quando for confrontado pela mesma. Com isso, seu erro passa a ser escondido no erro do outro.

É evidente então que para dar asas à “expressão soberana da vida” – uma expressão se se manifesta, acima de tudo, na confiança, na misericórdia e na compaixão – é preciso superar as restrições autoimpostas mediante o desmascaramento e desvalidação do auto-engano, ou seja, é preciso superar seus próprios erros para diminuir a eficácia da “expressão constrangida”.

O terceiro capítulo do livro continua com o sociólogo analisando o problema das cidades urbanas que, por serem complexos e muitas vezes especulativos, não será tratado aqui neste texto.

Para encerrar este capítulo, vale compartilha uma análise de Peter Kreeft sobre Freud ao que tange o assunto do “Amor Líquido”. O Capítulo 3 iniciou-se com Bauman trazendo as provocações do psicoanalista, encerraremos com Kreeft comentando sobre o que foi o grande promotor da revolução sexual e que, de certo modo, resume o conteúdo dos dois capítulos anteriores:

Na base da “revolução sexual” ocorrida na segunda metade do século XX,encontra-se uma enorme demanda por satisfação e uma confusão entre desejos e necessidades. Todo o ser humano normal experimenta desejos sexuais; no entanto, os pressupostos freudianos de que esses desejos seriam “necessidades” ou “direitos”, de que ninguém conseguiria viver sem satisfazê-los, ou de que reprimi-los prejudicaria a saúde psicológica, simplesmente não são verdade.

Essa confusão entre necessidades e desejos radica na negação dos valores objetivos e de uma lei moral natural igualmente objetiva. Ninguém fez tanto estrago nessa área como Freud, especialmente no que diz respeito à moral sexual. O atual ataque ao casamento e a família, que foi preparado por Freud, causou devastações maiores do que qualquer revolução ou guerra que jamais houve. Afinal, onde haveremos de aprender a lição mais valiosa da nossa vida, a do amor desprendido, senão em famílias estáveis que o ensinam na prática?


#Augusto 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Considerações sobre “Amor Líquido” – Parte 2


Na Parte 1, o primeiro capítulo do livro “Amor Líquido” de Zygmunt Bauman foi desbravado. O “Amor Líquido”, podemos resumir, é o derretimento do amor e, portanto, sua descaracterização e desconfiguração. A pós-modernidade sofre de insegurança e isso reflete no enfraquecimento dos laços do relacionamento. Se o amor está disposto ao sacrifício e à renúncia em função do ser amado, o “amor líquido”, por temer o futuro, aposta e é incentivado por especialistas, em relacionamentos de curto prazo movidos, principalmente, pelo impulso e/ou oportunismo. Nesta segunda parte, iremos adentrar no segundo capítulo do livro intitulado “dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade”, onde se comenta as mudanças visíveis de configurações, percepção e interação em relação à pós-modernidade.

Homo sexualis: abandonado e destituído

Como afirmou Lévi-Strauss, o encontro dos sexos é o terreno em que natureza e cultura se deparam um com o outro pela primeira vez. É, além disso, o ponto ode partida, a origem de toda a cultura.

É fácil perceber que esse papel do sexo não foi acidental. Das muitas tendências, inclinações e propensões “naturais” dos seres humanos, o desejo sexual foi e continua sendo a mais óbvia, indubitável e incontestavelmente social. Ele se estende na direção de outro ser humano, exige sua presença e se esforça para transformá-la em união. Ele anseia por convívio. Torna qualquer ser humano — ainda que realizado e, sob todos os outros aspectos, autosuficiente — incompleto e insatisfeito, a menos que esteja unido a um outro.

Ciência do sexo

Bauman reclama de um “sexo racional” modelado pelos cientistas. Um aparato que alimenta um ciclo vicioso. Neste panorama, a demanda pela assistência sexual “tende a crescer, não a diminuir, já que eles sempre adiam o cumprimento de suas promessas. ‘A ciência sexual, não obstante, continua a existir, porque a miséria sexual se recusa a aparecer”. O Eros está em todo o lugar, mas não permanece em um mesmo local por muito tempo. O sexo deixou de ter função procriativa (compromissos que visavam a paternidade e maternidade), abrindo-se uma competição com a medicina para o papel reprodutivo, pois, conforme explica o sexólogo Sigush, existe a possibilidade de “escolher um filho num catálogo de doadores atraentes quase da mesma forma como eles [os consumidores contemporâneos] estão acostumados a comprar pelo correio ou por meio de revistas de moda”.

Para fazer um contraste com a pós-modernidade, Bauman relembra que no passado os filhos eram recebidos com expectativa da melhoria do bem-estar da família, já que seria mais uma pessoa a ajudar no trabalho. Além disso, muito contava a questão de deixar herdeiros para prosseguir a descendência da família.

A pós-modernidade, contudo, revela uma fragilidade das estruturas familiares. Famílias são facilmente desfeitas, sendo o relacionamento uma mera questão de escolha que pode ser revogada até segunda ordem. Situação esta que o filho perde o sentido de ser “uma ponte” para algo mais duradouro, tornando-se um fator misterioso que pode tanto servir para sustentar o lar permanentemente como para ser um fator de complicação para a dissolução futura.

Filho: um objeto de consumo emocional

De acordo com Bauman, os filhos não são desejados pelas alegrias do prazer paternal ou maternal esperados. Ele é tratado como mercadoria de alto custo:

Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida. Em termos puramente monetários, eles custam mais do que um carro luxuoso do ano, uma volta ao mundo em um cruzeiro ou até mesmo uma mansão. Pior ainda, o custo total tende a crescer com o tempo, e seu volume não pode ser fixado de antemão nem estimado com algum grau de certeza. Num mundo que não oferece mais planos de carreira e empregos estáveis, assinar um contrato de hipoteca com prestações de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanças, expor-se a um nível de risco atipicamente elevado e a uma fonte prolífica de ansiedade e medo. É provável que se pense duas vezes antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem óbvios os riscos envolvidos. E nenhuma dose de determinação e ponderação poderá remover a sombra de dúvida que tende a adulterar a alegria. Além disso, ter filhos é, em nossa época, uma questão de decisão, não um acidente — o que aumenta a ansiedade. Tê-los ou não é comprovadamente a decisão com maiores conseqüências e de maior alcance que existe, e portanto também a mais angustiante e estressante.

Além disso, Bauman relembra sobre o que foi comentado no capítulo anterior: existe também custos que não monetários como o fato de que “formar uma família” é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável, o que requer estar disposto ao sacrifício para que seja uma relação durável. Isso inclui, obviamente, sacrificar o próprio conforto pessoal, a autonomia de nossas preferências, projeto de carreira, em benefício do filho.

Bauman nota que em uma sociedade de relacionamentos efêmeros, a relação de obrigação, não revogável, que se tem com um filho é chocante e que a tomada de consciência de tal compromisso pode ser uma experiência traumática e que possivelmente pode estar por trás de casos de depressão e crises conjugais pós-partos.

Um, digamos, “espírito consumista” aliado a separação do sexo com reprodução faz com que pessoas queiram cada vez mais “garantias” a respeito de seus filhos. Diante disso, lucram-se as “companhias que ofereçam a chance de “escolher um filho num catálogo de adoadores atraentes” e clínicas de boas reputação que companham por encomenda o espectro genético de uma criança em gestação”.

Resumindo: a separação entre sexo e reprodução, amplamente observada, tem a anuência do poder. É o produto conjunto do líquido ambiente da vida moderna e do consumismo como estratégia escolhida, e a única disponível, de “procurar soluções biográficas para problemas socialmente produzidos” (Ulrich Beck). É a mistura de ambos os fatores que leva ao deslocamento das questões da reprodução e do parto para longe do sexo e na direção de uma esfera totalmente diferente, operada por uma lógica e um conjunto de regras inteiramente diversos dos que regem a atividade sexual. A destituição do homo sexualis é sobredeterminada.

Uma descrição que se aproxima do cenário de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

Sexo sem amor leva a frustração

Erich Fromm é resgatado para explicar que o sexo pelo sexo é enganoso, pois visando a “fusão total”, tem-se na realidade a “ilusão de união”.

A união reside do fato do homem e da mulher procurarem ardentemente escapar da solidão. A ilusão é o resultado obtido porque o clímax orgástico “deixa os estranhos tão distantes um do outro como estavam antes”, de modo que “eles sentem seu estranhamento de maneira ainda mais acentuada”. Nesse papel, o orgasmo sexual se torna um vício que pode ser comparada ao alcoolismo ou drogas.

Trata-se de uma união que é ilusória e que tende a ser frustrante, já que está separada do amor (um compromisso intencionalmente duradouro e indefinido com o bem-estar do parceiro). Somente o amor tem capacidade de fazer o sexo ter uma fusão genuína. Fora do amor, o sexo relaciona-se com uma fusão efêmera, dúbia e, em casos mais graves, autodestrutiva.

Agora espera-se que o sexo seja auto-sustentável e auto-suficiente, que “se mantenha sobre os próprios pés”, para ser julgado unicamente pela satisfação que possa trazer por si mesmo (ainda que, em regra, ela seja interrompida bem antes da expectativa gerada pela mídia). Não admira que também tenha crescido enormemente sua capacidade de gerar frustração e de exacerbar a própria sensação de estrangulamento que se esperava que curasse. A vitória do sexo na grande guerra de independência tem sido, na melhor das circunstâncias, uma vitória de Pirro. Os remédios maravilhosos parecem produzir moléstias e sofrimentos não menos numerosos e comprovadamente mais agudos do que aqueles que prometiam curar.”

A falsa libertação

Quando a libertação foi promovida como forma de liberta-se de uma “sociedade patriarcal, puritana, desmancha-prazeres, hipócrita e ainda por cima desafortunadamente vitoriana” os relacionamentos passaram a ser encaradas com o propósito de prazer e alegria, alegremente cega às suas consequências, de uma felicidade do tipo “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”.

O terapeuta Volkmar Sigusch é trazido para assinalar que vem aumentando a procura por especialistas e que as formas de relacionamentos íntimos em voga portam uma máscara da falsa felicidade. Se retirada a máscara, descobre-se anseios não-realizados, nervos em frangalhos, amores frustrados, sofrimentos, medos, solidão, hipocrisia, egoísmo e compulsão à repetição.

Uma situação desconfortável que pede por mudanças.

Aspecto de Consumo x Aspecto de Produtor

Em Modernidade Líquida, Bauman fez uma analogia entre o espírito de consumidor e o espírito de produtor. O primeiro, imediatista, pensa e age conforme a utilidade a curto prazo. O segundo, pautado por sonhos, objetivos e princípios, pauta-se em uma visão de longo prazo. Em “Amor Líquido”, o autor recorre novamente aos dois tipos.

O homem produtor, ou construtor, tinha confiança em seu poder de planejamento e se preocupava com os sentimentos dos futuros moradores (mulher e filhos):

“O respeito é, afinal, apenas um dos lados da faca de dois gumes da atenção, cuja outra ponta é a opressão. A indiferença e o desprezo são dois recifes com os quais muitas intenções éticas honestas têm se chocado, e os eus morais precisam de muita vigilância e habilidade de navegação para passar incólumes por eles. Isso dito, parece, não obstante, que a moral — aquele Fürsein ditado pela responsabilidade por um Outro e posto em operação assim que assumido —, com todas as suas paisagens deslumbrantes e seus desvios e emboscadas traiçoeiros, foi feita sob medida para o homo faber [produtor]”.

Já o homem consumidor está atrelado ao espírito do consumismo, cuja característica não é acumular bens, mas usá-los e descartá-los, para que haja espaço para novos bens e usos.

“Em geral, a capacidade de utilização de um bem sobrevive à sua utilidade para o consumidor. Mas, usada repetidamente, a mercadoria adquirida impede a busca por variedade, e a cada uso a aparência de novidade vai se desvanecendo e se apagando. Pobres daqueles que, em razão da escassez de recursos, são condenados a continuar usando bens que não mais contêm a promessa de sensações novas e inéditas. Pobres daqueles que, pela mesma razão, permanecem presos a um único bem em vez de flanar entre um sortimento amplo e aparentemente inesgotável. Tais pessoas são os excluídos na sociedade de consumo, os consumidores falhos, os inadequados e os incompetentes, os fracassados — famintos definhando em meio à opulência do banquete consumista.

Aqueles que não precisam se agarrar aos bens por muito tempo, e decerto não por tempo suficiente para permitir que o tédio se instale, são os bem-sucedidos. Na sociedade dos consumidores, o prestidigitador é a figura de sucesso. Não fosse isto um anátema para os fornecedores de bens de consumo, os consumidores fiéis ao seu caráter e destino desenvolveriam o hábito de alugar coisas em vez de comprá-las. Diferentemente dos vendedores de mercadorias, as empresas de locação prometem, de modo tentador, substituir com regularidade os bens alugados por modelos de último tipo. Os vendedores, para não ficarem para trás, prometem devolver o dinheiro se o cliente não estiver plenamente satisfeito e se (na esperança de que a satisfação não se evapore tão rápido) os bens adquiridos forem devolvidos dentro de, digamos, dez dias.”

A partir disso, Bauman discorre sobre o sexo de nossos dias, o “sexo puro” pautado em “encontro puramente sexual”, onde a inexistência de “restrições” compensaria a fragilidade do engajamento. Ele aponta que a larga publicidade do sexo e as angústias dos relacionamentos líquidos aumentaram as incertezas da líquida vida moderna:

“O maior deles [temores difusos e inominados] provinha da ambigüidade do encontro sexual: seria esse o passo inicial na direção de um relacionamento ou sua coroação e seu término? Um estágio numa seqüência significativa ou um episódio singular, um meio para um fim ou um ato independente? Nenhuma união de corpos pode, por mais que se tente, escapar à moldura social e cortar todas as conexões com outras facetas da existência social. Privado de seu antigo prestígio social e de significados que antes eram socialmente aprovados, o sexo encapsulava a incerteza aflitiva e alarmante que se tornou a principal ruína da líquida vida moderna.”

Adaptando o casamento

No “Amor Líquido”, o cenário de insegurança e angústias não diminui com o casamento. Para contornar esse problema em termos de “Modernidade Líquida”, os parisienses têm apostado, por exemplo, na troca de esposas:
Como estratégia para enfrentar o espectro da incerteza, do qual, como se sabe, os episódios sexuais estão repletos, o échangisme tem uma vantagem sobre o sexo casual e outros encontros igualmente arriscados e de curta duração. A proteção contra conseqüências indesejáveis é, nesse caso, dever e preocupação de outra pessoa e, na pior das circunstâncias, não constitui um esforço solitário, mas uma tarefa compartilhada com aliados poderosos e dedicados. A vantagem do échangisme sobre o simples adultério é particularmente gritante. Nenhum dos échangistes é traído, nenhum deles tem os interesses ameaçados e, tal como no modelo ideal de Habermas da “comunicação não-distorcida”, todos são participantes. O ménage à quatre (ou six, huit… quanto mais melhor) está livre de todas as pragas e deficiências que se sabe serem a maldição do ménage à trois.

Os praticantes querem regularizar a situação, criando clube de associados. Diante disso, Bauman questiona:
Mas será que elas defendem o homo sexualis de si mesmo? Será que os anseios irrealizados, as frustrações amorosas, os temores de ficar só e de se ferir, a hipocrisia e a culpa são deixados para trás depois de uma visita ao clube? Será possível encontrar lá a intimidade, a alegria, a ternura, a afeição e o amor? Bem, o visitante pode dizer de boa-fé: isto é sexo, seu estúpido — não tem nada a ver com nada disso. Mas se ele ou ela estiver certo(a), será que o sexo em si é importante? Ou que, seguindo Sigusch, se a substância da atividade sexual é a obtenção do prazer instantâneo, “então o mais importante não é o que se faz, mas simplesmente que aconteça”.

Ideologia do gênero

A angústia do Homo Sexualis (apegado ao sexo) também permite questionar a natureza. Há a tendência de negar que existe os sexos masculino e feminino. Estes seriam construções sexuais. O homem líquido quer poder escolher seu gênero sexual.

Sendo assim, não apenas o ato sexual, mas a própria sexualidade torna-se líquida (mútavel e inconstante), cabe ao homo sexualis escolher do catálogo das múltiplas identidades sexuais aquela que melhor se ajusta a ele ou ela. A respeito de tal artimanha, Bauman comenta:

“A subdefinição, a incompletude e a ausência de finalidade da identidade sexual (tal como todas as outras facetas da identidade nos líquidos ambientes modernos) são um veneno e seu antídoto misturados numa poderosa superdroga antitranqüilizante.

A consciência dessa ambivalência é desalentadora e não produz o fim da ansiedade. Gera uma incerteza que só pode ser temporariamente apaziguada, jamais totalmente extinta. Contamina qualquer condição escolhida/atingida com dúvidas persistentes a respeito de sua propriedade e sabedoria. Mas também protege da humilhação que vem com o fracasso parcial ou total. Há sempre a possibilidade de pôr a culpa numa escolha, considerando-a equivocada, e não na incapacidade de aproveitar as oportunidades por ela oferecidas, pelo fato de a bem-aventurança prevista não ter conseguido se materializar. Há sempre uma chance de abandonar a estrada pela qual se chegaria à realização e recomeçar — mesmo que a partir do zero, se as perspectivas parecerem atraentes.

O efeito combinado do veneno e do antídoto é manter o homo sexualis em perpétuo movimento, empurrado à frente (“esse tipo de sexualidade não conseguiu produzir a experiência culminante que me disseram que traria”) e puxado para trás (“outros tipos que vi e ouvi estão ao meu alcance — é apenas uma questão de decisão e esforço”).

O homo sexualis não é uma condição, muito menos uma condição permanente e imutável, mas um processo, cheio de tentativas e erros, viagens exploratórias arriscadas e descobertas ocasionais, intercaladas por numerosos tropeços, arrependimentos poroportunidades perdidas e alegrias por prazeres ilusórios.”

Trazendo Freud e Derrida, comenta-se que o homem moderno tem sua vista embaçada quanto ao sentido de manifestações “saudáveis” e “perversas” em matérias de instinto sexual. Na modernidade, muitas formas de atividade sexual não são apenas toleradas, mas frequentemente indicadas como terapias úteis.
“Parece que o elo entre a sublimação do instinto sexual e sua repressão, que Freud considerava condição indispensável de qualquer arranjo social disciplinado, foi rompido. A líquida sociedade moderna descobriu uma forma de explorar a propensão/receptividade humana a sublimar os instintos sexuais sem recorrer à repressão, ou pelo menos limitando-a radicalmente. Isso aconteceu graças à progressiva desregulação do processo sublimatório, agora difuso e disperso, o tempo todo mudando de direção e guiado pela sedução dos objetos de desejo sexual em oferta, e não por quaisquer pressões coercitivas”

Celular

Em uma sociedade que não pára de receber e enviar mensagens no celular, a crítica de Bauman volta se ao fato de que tal apego a essa dinâmica tecnológica de relação diminuiu a proximidade e beneficiou o afastamento.

O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais freqüentes e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida — ao contrário daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetrar. Os contatos exigem menos tempo e esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidos. A distância não é obstáculo para se entrar em contato — mas entrar em contato não é obstáculo para se permanecer à parte. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem sedimentos permanentes. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais que o apertar de um botão.

A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. “Estar conectado” é menos custoso do que “estar engajado” — mas também consideravelmente menos produtivo em termos da construção e manutenção de vínculos.

E esse tipo de afastamento também afeta o ambiente familiar:

“Quando estávamos a uns poucos anos do súbito desenvolvimento da proximidade virtual eletronicamente acionada, Michael Schluter e David Lee observaram que “nós usamos a privacidade como um traje pressurizado … Tudo menos convidar ao encontro; tudo menosenvolver-se”. Os lares não são mais ilhas de intimidade em meio aos mares, em rápido resfriamento, da privacidade. Transformaram-se de compartilhados playgrounds do amor e da amizade em locais de escaramuças territoriais, e de canteiros de obras onde se constrói o convívio em conjuntos de bunkers fortificados. “Nós entramos em nossas casas separadas e fechamos a porta, e então entramos em nossos quartos separados e fechamos a porta. A casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer, separadamente lado a lado.”

Seria tolo e irresponsável culpar as engenhocas eletrônicas pelo lento mas constante recuo da proximidade contínua, pessoal, direta, face a face, multifacetada e multiuso. E no entanto a proximidade virtual ostenta características que, no líquido mundo moderno, podem ser vistas, com boa razão, como vantajosas — mas que não podem ser facilmente obtidas sob as condições daquele outro tête-àtête, não-virtual. Não admira que a proximidade virtual tenha ganhado a preferência e seja praticada com maior zelo e espontaneidade do que qualquer outra forma de contigüidade. A solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum.”

Namoro pela internet

Algumas “vantagens” listadas:
  • Pode apertar a tecla deletar;
  • Não responder email é a coisa bem fácil;
  • Pode-se namorar sem medo de ‘repercursões’ no mundo real;
  • “Compra não-obrigatória” – “devolução do produto caso não fique satisfeito”
  • Terminar quando se desejar, sem confusão, sem avaliação de perdas e sem remorsos;
  • Como a modernidade líquida é instável, o namoro pela internet permite reduzir riscos e, simultaneamente, evitar perda de opções;
  • Não há necessidade “de estar à disposição quando o outro precisa”.
Assinala Baumann que o baixo comprometimento do namoro virtual, entretanto, não é a causa, mas a consequência da sociedade “líquida”:
“A responsabilidade por eliminar essas condições não pode ser atribuída à porta virtual do namoro eletrônico. Muito mais tem acontecido no caminho em direção à líquida e individualizada sociedade moderna para tornar os compromissos de longo prazo pouco numerosos, o engajamento a longo prazo uma rara expectativa e a obrigação de assistência mútua incondicional uma perspectiva que nem é realista nem percebida como digna de grandes esforços.”

***

Na última parte do capítulo, Bauman ainda falou da economia de mercado e do Estado, contudo sua abordagem já passou a carregar uma carga ideológica, que foge um pouco do tema dos relacionamentos “líquidos”.


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#Augusto

terça-feira, 23 de junho de 2015

Considerações sobre "Amor Líquido" – Parte 1


Eu já havia lido “Modernidade Líquida” de Zygmunt Bauman do qual, apesar de esquerdista, o sociólogo faz um retrato bastante preciso da realidade de nosso tempo. Agora, em tom um pouco mais, digamos, profundo, Baumann aborda aquilo que chamou de “Amor Líquido”. Se a modernidade líquida é caracterizada por mudar conforme as modas, o “Amor Líquido” passa a ser encarado como a forma pelo qual os relacionamentos amorosos, e até mesmo pessoais, estão sendo encarados em nossa pós-modernidade. Faço aqui um resumo comentado do primeiro capítulo do livro:

– O Amor para o transcendente:

No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantinéia ressaltou para Sócrates, com a sincera aprovação deste, que “o amor não se dirige ao belo, como você pensa; dirige-se à geração e ao nascimento no belo”. Amar é querer “gerar e procriar”, e assim o amante “busca e se ocupa em encontrar a coisa bela na qual possa gerar”. Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo.

A partir disso, Baumann discorre sobre a essência do amor: ser refém do destino. Uma vez que não é possível fugir do fato do futuro ser incerto, além da constatação de que os dois seres não podem ser conhecer inteiramente um ao outro, passa-se a impressão de que o amor depende de um capricho do Destino. No entanto, antes de temer o destino, o amor deve buscar abrir-se ao destino, admitindo a liberdade do ser de se incorporar no companheiro no amor, complementando com a citação de Erich Fromm: “A satisfação no amor individual não pode ser atingida sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras. […] uma cultura na qual são raras essas qualidades, atingir a capacidade de amar será sempre, necessariamente, uma rara conquista.” e endoçando-a “sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada”.

– Se encarado com luta, não importa quem vence, a união perde.

“[…] Quando se trata de amor, posse, poder fusão e desencanto são os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.

Nisso reside a assombrosa fragilidade do amor, lado a lado com sua maldita recusa em suportar com leveza a vulnerabilidade. Todo amor empenha-se em subjugar, mas quando triunfa encontra a derradeira derrota. Todo amor luta para enterrar as fontes de sua precariedade e incerteza, mas, se obtém êxito, logo começa a se enfraquecer — e definhar. Eros é possuído pelo fantasma de Tanatos, que nenhum encantamento mágico é capaz de exorcizar. A questão não é a precocidade de Eros, e não há instrução ou expedientes autodidáticos que possam libertá-lo de sua mórbida — suicida — inclinação.”

Essa parte é profunda. Aqui alerta-se que o amor esconde tentações que, se bem sucedidas, colocaram fim ao relacionamento. O limite perigoso é transpassado quando se perde o respeito. Imaginando que o outro é uma argila, ao terminar a moldagem das formas, o produto final perde interesse, pois se perde a essência do produto inicial.

– Distinção de desejo e amor

“Desejo é a vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir – aniquilar. […] Provar, explorar, tornar familiar e domesticar.”

“O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que “está lá fora”. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo”.

O desejo, quando conquistado, é efêmero. Ele é movido por um omisso impulso de destruição, vontade de morrer. um segredo bem guardado – sobretudo do próprio desejo.

O amor, ao contrário do desejo, quer exercer o domínio não pelo controle, mas mediante a renúncia e
sacrifício. É estar disposto a servir e aguardar a ordem, assumindo a responsabilidade.

“Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua”

Essa distinção de desejo e amor é feita porque a pós-modernidade tem o costume de trocar um pelo outro. Não, pior ainda, a nosso tempo potencializa o desejo transformando-o em impulso. A analogia que Bauman aplica é comparando os relacionamentos da pós-modernidade com uma impulsiva compra no shopping center com cartão de crédito.

Se o relacionamento pautado no desejo já seria ruim, no impulso torna-se pior, já que no desejo se prevê tempo para germinar, crescer e amadurecer. A pós-modernidade é, então, impaciente, move-se por impulso. Deste modo, o Outro pode ser comparado como uma mercadoria de shopping, que consumida instantaneamente, pode ser depois facilmente descartável.

“Consideradas defeituosas ou não “plenamente satisfatórias”, as mercadorias podem ser trocadas por outras, as quais se espera que agradem mais, mesmo que não haja um serviço de atendimento ao cliente e que a transação não inclua a garantia de devolução do dinheiro. Mas, ainda que cumpram o que delas se espera, não se imagina que permaneçam em uso por muito tempo. Afinal, automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de funcionamento satisfatórias são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que “novas e aperfeiçoadas versões” aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razão para que as parcerias sejam consideradas uma exceção à regra?”

É uma crítica bastante pertinente cuja conduta, como aponta o livro, é incentivada por “especialistas”.

Outra comparação que é feita é comprando-se os relacionamentos amorosos como um investimento como qualquer, podendo evidenciar um dilema é auto-conflitante, como observa:

“É claro. Relacionamentos são investimentos como quaisquer outros, mas será que alguma vez lhe ocorreria fazer juras de lealdade às ações que acabou de adquirir? Jurar ser fiel para sempre, nos bons e maus momentos, na riqueza e na pobreza, “até que a morte nos separe”? Nunca olhar para os lados, onde (quem sabe?) prêmios maiores podem estar acenando?

A primeira coisa que os bons acionistas (prestem atenção: os acionistas só detêm as ações, e é possível desfazer-se daquilo que se detém) fazem de manhã é abrir os jornais nas páginas sobre mercado de capitais para saber se é hora de manter suas ações ou desfazer-se delas. É assim também com outro tipo de ações, os relacionamentos. Só que nesse caso não existe um mercado em operação e ninguém fará por você o trabalho de ponderar as probabilidades e avaliar as chances (a menos que você contrate um especialista, da mesma forma que contrata um consultor financeiro ou um contador habilitado, embora no caso dos relacionamentos haja uma infinidade de programas de entrevistas e “dramas da vida real” tentando ocupar esse espaço). E assim você tem que seguir, dia após dia, por conta própria. Se cometer um erro, não terá direito ao conforto de pôr a culpa numa informação equivocada. Precisa estar em alerta constante. Se cochilar ou reduzir a vigilância, problema seu. “Estar num relacionamento” significa muita dor de cabeça, mas sobretudo uma incerteza permanente. Você nunca poderá estar plena e verdadeiramente seguro daquilo que faz — ou de ter feito a coisa certa ou no momento preciso.

Parece que esse dilema não tem uma boa solução. Pior ainda, que ele está impregnado de um paradoxo do tipo mais desagradável: não apenas a relação falha em termos da necessidade que deve-ria (e esperávamos que pudesse) cumprir, mas torna essa necessidade ainda mais afrontosa e exasperante. Você busca o relacionamento na expectativa de mitigar a insegurança que infestou sua solidão; mas o tratamento só fez expandir os sintomas, e agora você talvez se sinta mais inseguro do que antes, ainda que essa “nova e agravada” insegurança provenha de outras paragens. Se você pensava que os juros de seu investimento em companhia seriam pagos na moeda forte da segurança, parece que sua iniciativa se baseou em falsos pressupostos.”

Não esquecendo do agravante de que o outro lado também está encarando o relacionamento como mero investimento. O outro também pode querer “largar suas ações”, o que torna o problema ainda mais grave/arriscado.

– Insegurança agravante

Como ensinou Mario Ferreira dos Santos, no desespero, agrava-se a crise. A abordagem de Bauman aponta para direção bem próxima:

“Christopher Clulow, do Instituto Tavistock de Estudos Matrimoniais, outro especialista citado por Adrienne Burges, conclui: “Quando se sentem inseguros, os amantes tendem a se portar de modo não-construtivo, seja tentando agradar ou controlar, talvez até agredindo fisicamente — o que provavelmente afastará o outro ainda mais.” Quando a insegurança sobe a bordo, perde-se a confiança, a ponderação e a estabilidade da navegação. À deriva, a frágil balsa do relacionamento oscila entre as duas rochas nas quais muitas parcerias esbarram: a submissão e o poder absolutos, a aceitação humilde e a conquista arrogante, destruindo a própria autonomia e sufocando a do parceiro. Chocar-se contra uma dessas rochas afundaria até mesmo uma boa embarcação com tripulação qualificada — o que dizer de uma balsa com um marinheiro inexperiente que, criado na era dos acessórios, nunca teve a oportunidade de aprender a arte dos reparos? Nenhum marinheiro atualizado perderia tempo consertando uma peça sem condições para a navegação, preferindo trocá-la por outra sobressalente. Mas na balsa do relacionamento não há peças sobressalentes.”

Aqui tem um detalhe interessante que certamente chamou a atenção para quem já estudou um pouco sobre Globalismo. Não é comentado no livro, mas é importante evidenciar que o Instituto Tavistock é famoso por estudos comportamentais que visam progredir nos avanços da Engenharia Social. Ou seja, tornar um relacionamento inseguro, mediante a promoção do desejo, ou pior, do impulso em detrimento do amor, aumenta a insegurança das pessoas, tornando-as irracionais e mais incapazes de resolver os problemas. Dizendo de forma mais objetiva: o enfraquecimento dos elos amorosos leva à imbecilização das pessoas.

– Perversões do Amor

Algumas perversões nos relacionamentos são apontadas:

Perversão do comodismo: “devido à preguiça, ao medo ou a uma propensão à acomodação no relacionamento, consiste simplesmente em tentar agradar um ao outro enquanto continua fugindo do problema”. É como se o relacionamento deixa-se de ser comprometimento para ser um puxa-saquismo reciprocamente conveniente.

Perversão de mudar os outros: o desejo aparece novamente. Trata-se do desejo de mudar os outros, haja vista que “temos opiniões definidas sobre como fazer as coisas e sobre como os outros deveriam ser”. É um autoritarismo que realmente não combina com amor, pois este respeita a liberdade.

– A mudança através do tempo, mesmo quando partido de um “amor à primeira vista”.

Bauman chama a atenção para algo que, se formos reparar, deveria ser bastante evidente. Algo que fazendo uma breve reflexão sobre a realidade da vida, deveríamos ser capazes de notar:
  • “A resposta é dada por uma pessoa inevitalmente diferente daquela a quem foi feita a pergunta”.
  • A resposta é dada por uma pessoa que mudou desde que perguntou. Sendo impossível saber a profundidade da mudança.
  • “Ambos os parceiros sabiam que a mudança estava ocorrendo e lhe deram as boas-vindas.”
  • “O passado dos dois indivíduos serão incorporados aos seus presentes”
  • “Presteza em incorporar futuros compartilhados aos presentes individuais parcialmente compartilhados, parcialmente separados”.
É aquela coisa. A dinâmica do casamento é diferente da do namoro. Quando duas pessoas se comprometem com o “até que a morte os separe”, deveriam ter em mente que irão mergulhar de cabeça em águas inexploradas.

– “Especialistas”, promotores do “Amor Líquido”

Bauman então comenta sobre os ensinamentos de um especialista em relacionamento. Dado o risco, dado a insegurança, a solução proposta pelos especialistas passa a ser o “relacionamento de bolso”, justamente o que caracteriza o “Amor Líquido”. As condições para isso é não se apaixonar, manter o controle da relação e não se deixar influenciar pelo relacionamento. Se algo caminhar para algo mais sério, se houver qualquer traço de mudança, significa que é hora de terminar, afinal:

“A conveniência é a unica coisa que conta, e isso é algo para uma cabeça fria, não para um coração quente (muito menos superaquecido).”

Trata-se de um atitude envolta em um fatalismo-pessimista causada justamente pela insegurança induzida, conforme comentado anteriormente. A lógica é que se o relacionamento está fadado a falhar e que haverá sofrimento por conta disso, então o melhor é se relacionar de modo indiferente, frio, sem comprometimento emocional. Há nas informações circulantes todo um aparato de “conselhos” e de roteiros que visa a distorção e o esquecimento do verdadeiro significado de amor.

O “Amor Líquido” está contextualizado no medo do desconhecido e, tendo o Amor de verdade se tornado desconhecido, o “Amor Líquido” não deixa de ser o Amor que derreteu, tornando-se, por isso mesmo, desconhecido e irreconhecível.

– Advento de uma “ideologia da intimidade” que “transmuta categorias políticas em psicológicas”

O enfraquecimento dos relacionamentos amorosos promove uma insegurança que desnorteia as pessoas. Como “solução”, os especialistas promovem o “Amor Líquido”, que na verdade é um desamor. A perversa bolha de confusão está criada, faltando então protegê-la. É um ciclo vicioso, uma vez que a “solução” para a insegurança é sustentada pela promoção da insegurança amorosa. Está faltando uma coisa: blindar o ciclo contra potenciais ataques. É neste sentido que Bauman comenta:

Um resultado particularmente portentoso dessa nova ideologia foi a substituição dos “interesses compartilhados” pela “identidade compartilhada”. A fraternidade de base identitária estava para se tornar — prevenia Sennett — a “empada por um grupo seleto de pessoas aliada à rejeição das que não estiverem dentro do círculo local”. “Forasteiros, desconhecidos, diferentes tornam-se criaturas a serem afastadas.”

Esta segregação, revela Bauman, trabalha conforme um grupo para compartilhamento de intimidades sinceras, fruto da decadência dos vínculos pessoais (diminuição do amor), cuja formação se sustenta em uma tática de defesa humana contra a solidão:

À época em que Anderson desenvolveu seu modelo de “comunidade imaginada”, a desintegração dos vínculos e liames impessoais (e com eles, como apontaria Sennett, da arte da “civilidade” — de “usar a máscara” que simultaneamente protege e permite que se aprecie a companhia) havia atingido um estágio avançado, e assim a fricção e os afagos de ombros, a contigüidade, a intimidade, a “sinceridade”, o “entrar dentro do outro”, sem guardar segredos, confessando de modo compulsivo e compulsório, estavam se tornando rapidamente as únicas defesas humanas contra a solidão e o único fio disponível para se tecer o ansiado convívio. Só era possível conceber totalidades mais amplas do que o círculo de confissões mútuas como um “nós” intumescido e esticado; como a mesmidade, mal referida como “identidade”, em letras grandes. A única forma de incluir os “desconhecidos” em um “nós” era reuni-los como potenciais parceiros em rituais confessionais, tendentes arevelar um “interior” semelhante (e portanto familiar), quando pressionados a compartilhar suas íntimas sinceridades.

Ao ler este trecho, não pude deixar de lembrar da definição de ‘Imbecil Coletivo’ criada por Olavo de Carvalho. Nas palavras do filósofo, O Imbecil Coletivo é “um grupo de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior que se reúnem com a finalidade de imbecilizar-se umas às outras”. Observação feita, volto ao “Amor Líquido”.

Um grupo formado, por sua vez, não está livre de tensões, pois haverá concordâncias e discordâncias.
Deste modo cria-se um quadro de que, embora unidos pelas aflições, as pessoas sejam desunidas por demais opiniões. Deste modo, os próprios grupos fechados são “líquidos”:

Tal como nas vastas extensões da terra de fronteira global, também no nível popular, no domínio da política de vida, o palco para a ação é um recipiente cheio de amigos e inimigos potenciais, no qual se espera que coalizões flutuantes e inimizades à deriva se aglutinem por algum tempo, apenas para se dissolverem outra vez e abrirem espaço para outras e diferentes condensações. As “comunidades da mesmidade”, predeterminadas, mas aguardando serem reveladas e preenchidas com matéria sólida, estão cedendo vez a “comunidades de ocasião”, que se espera serem autoconstruídas em torno de eventos, ídolos, pânicos ou modas. Mais diversificadas como pontos focais, porém compartilhando a característica de uma curta, e decrescente, expectativa de vida. Elas não duram mais que as emoções que as mantêm no foco das atenções e estimulam a conjunção de interesses — fugaz, mas não por isso menos intensa — a se coligar e aderir “à causa”.

Nota-se, então, que a o enfraquecimento dos laços amorosos também enfraquece os laços sociais. O trecho acima, na realidade, é melhor aprofundado em um outro livro de Bauman chamado “Modernidade Líquida”. O “Amor Líquido” é, na realidade, um recorte da “Modernidade Líquida”.

Deste quadro cria-se dois problemas contrapostos que o autor coloca em termos de “tecer redes” e “surfar nelas”, decorrente um aparato tecnológico que facilitou a comunicação virtual, seja por telefones ou chats. O que caracteriza tal tipo de interação, neste quadro, são as interações frenéticas e frívolas, onde o objetivo é menos introspectivo do que manter o chat funcionando.

Disso, nota Bauman, vem os conteúdos de revistas que, onde os “especialistas” novamente aparecem para ajudar na manutenção da cultura das aparências:

“Cerca de metade da revista OM, semana após semana, é ocupada por uma seção intitulada “Vida” Explicam os editores: “Vida” é “o manual da vida moderna”. A seção tem suas subseções: primeiro vem “Moda” que informa sobre os problemas e tribulações da “aplicação de cosméticos”, com uma subseção, “Ela moda”, que exorta as leitoras a “não medir esforços para encontrar o par de sapatos certo”. É seguida pela subseção “Interiores”, com um breve interlúdio sobre “Casas de bonecas”. Depois vem a parte de “Jardins”, que explica como “manter as aparências” e “impressionar os hóspedes”, apesar da aborrecida verdade de que “o trabalho de um jardineiro nunca termina”. A subseção seguinte é “Comida” e depois “Restaurantes”, que mostra onde procurar comida gostosa quando se sai para jantar, e então “Vinhos”, indicando onde encontrar vinhos saborosos para consumir em casa. Tendo chegado a esse ponto, o leitor está bem preparado para examinar atentamente as três páginas da subseção “Viver” — dividida em “amor, sexo, família, amigos”.

Na semana de 16 de junho de 2002, “Viver” é dedicada aos CSSs — “casais semi-separados”, “revolucionários do relacionamento”, que “romperam a sufocante bolha do casal” e “seguem seus próprios caminhos” Sua dança a dois é em tempo parcial. Odeiam a idéia de compartilhar o lar e as atividades domésticas, preferindo manter domicílios, contas bancárias e círculos de amizade separados, e estarem juntos quando estão a fim. Tal como o trabalho ao estilo antigo, hoje dividido numa sucessão de horários flexíveis, tarefas únicas ou projetos de curto prazo, e da mesma forma que a compra ou o aluguel de uma propriedade, que agora tende a ser substituída pela ocupação time-share e pelos pacotes de fim de semana, o casamento ao estilo antigo, “até que a morte nos separe”, já desestabilizado pela coabitação “vamos ver como funciona”, reconhecidamente temporária, é substituído pelo “ficar juntos”, de horário parcial ou flexível.”

Eis então a dinâmica do Amor Líquido. Laços pessoais derretidos, liquefeitos, cuja solução proposta é, em vez de retomar os valores que proporcionavam relacionamentos mais sólidos e duradouros, aumentar a dose do veneno para que os relacionamentos sejam de curto prazo e com isso, quem sabe, intenta-se, ninguém se machuque. A ironia é que a insegurança e solidão, as grandes vilãs que “Amor Líquido” tenta combater, são também combustíveis para a manutenção da angústia social.


#Augusto

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Mansidão Shibumista e a Revolta Realista: a “bola de cristal” e a redução da realidade

Os seguidores de Nessahan Alita e seu movimento “realista” adquirem uma certa visão de mundo que é por demais reveladora. O espécime “realista” dessa vez é John Konstantinos que, através de sua “bola de cristal, sintetiza-nos o seguinte quadro referente às mulheres:

A mulher passa a vida toda na putaria dispensa os homens bons e trabalhadores pra viver na vadiagem, depois que ficam velhas e não podem mais disputar os cafajestes com as mais novas, ai” se arrependem” e procuram um dos caras bons que ela sempre dispensava na jventude, pra assumir o bagaco que os cafajestes não querem mais,assumir os filhos dos caras também, e por isso que vadiagem feminina não acabara pois elas sabem que no final de tudo vai haver um hominho pra compensa-las por toda sua vida de promiscuidade.

Realmente uma retórica verossímil. Parece até ser criativa, mas não é muito diferente da versão feminista para criar o repúdio aos homens. “Os homens ficam galinhando até cansarem, então na hora de casar escolhem as mulheres boazinhas. Enquanto houver mulher tradicional disposta a cuidar da casa para um homem galinha, sempre haverá a opressão machista”. Na “bola de cristal”, há também o elemento do liberalismo, onde o relacionamento humano é reduzido a uma mera questão de competição e busca do lucro.

O que se consegue notar é que os dois discursos da “bola de cristal” escondem táticas de demonização ao sexo oposto e, sobretudo, alicerçam-se na incapacidade de arrependimento.

Ao tomar a mulher como um ser incapaz de se arrepender, os “realistas” sentem-se livres para criticá-las sem dó nem piedade. Não apenas isso: já não bastasse o coração incapaz de reconhecer suas próprias culpas, mas também são maquiavélicas o suficiente para traçar um plano de fuga. Não há ali um ser humano passível de erros ou conduzidos por uma cultura anti-cristã, e por isso mesmo confusos e sem norte, mas seres que só agem segundo a lógica do interesse a curto prazo e com um plano de escape a longo.

A origem dessa teoria “realista” que usam como bola de cristal está no conceito de “lado obscuro feminino” apresentado por Nessahan Alita. A coisa funciona do seguinte modo: toda mulher tem um lado obscuro que, se deixar aflorar, a domina e conduz seus comportamentos para negligenciar homens bons e atrair-se por homens maus. É basicamente por conta do poder desse lado obscuro que a mulher não se arrepende, ela seria um fantoche desse lado obscuro.

É um quadro que lembra o que Chesterton diz a respeito do materialismo: “usar o livre-pensamento para destruir o livre-pensamento”, criando uma corrente escravizante.

Os cristãos podem até perceber uma certa semelhança do “lado obscuro” com a natureza do pecado, mas o cristão não nega a graça divina e seu amor misericordioso que perdoa os nossos pecados. Esta é a principal diferença entre a visão “realista” e a visão cristã dos erros humanos. O que faz perceber que moldar a mulher errante como um ser incapaz de arrepender é menos uma questão de descrição da realidade do que ocultação da dificuldade de perdoar dos realistas.

Um outro ponto da “bola de cristal” descrita pelo John deve ser abordado. A história dele é verossímil. Existe a desonestidade de tomar uma situação anedótica como realidade geral, um recorte da realidade sendo tomada como a realidade inteira (é por isso que eu acho curioso eles se autodenominarem “Real”), mas… Digamos que se trata de uma mulher que “ferveu” em sua juventude e agora quer se relacionar de modo duradouro. Como saber se o arrependimento é verdadeiro ou não?

Talvez fosse necessário, antes de partir para um relacionamento duradouro, a ser mantido até a morte de um dos dois, uma etapa anterior para conhecimento recíproco, onde um tenta compreender o outro, traçar projetos futuros, descobrir qualidades e defeitos, concordâncias e discordâncias… Uma etapa anterior onde o sexo está fora de questão e a demonstração de afetividade restringe-se a beijos e carícias sutis.

Não estou sugerindo e nem propondo nenhum modelo novo. Trata-se do bom e velho modelo de namoro cristão, que na verdade é o mais correto e efetivo de todos. É um imperativo do namoro o compartilhamento do passado e de arrependimentos, bem como a observância para analisar o caráter alheio.

Nós shibumistas reencontramos a verdade do namoro, já os “realistas” estão na “modernidade moderna”, vítimas da revolução sexual. Em um namoro, estão dispostos a fazer tudo, exceto namorar. É por isso que possuem medo de assumir uma “mulher rodada”. E para evitar cair nesse erro – cujo antídoto é facilmente obtido pelo sistema de namoro cristão e observância nas virtudes humanas – optam por se relacionarem de modo “desapegado” como todas as mulheres.

No fundo do discurso da “bola de cristal”, reside tão somente o objetivo de tentar justificar uma contradição gritante: mulher promíscua é ruim; homem promíscuo é bom.

Os “realistas” não acreditam no arrependimento da vadia, e por isso não se afetam pela culpa caso a usem para objeto de prazer; os shibumistas, até porque somos exemplos vivos de conversão, acreditamos no perdão divino e enxergamos a dignidade até nas mulheres errantes. Não tentamos justificar o injustificável apelando para uma idéia de erro invencível de um “lado obscuro”.

#Augusto