
Agora, com mais segurança, podemos entender melhor o Método Shibumi a partir da mais famosa analogia feita por Bruce Lee:
“Não se coloque dentro de uma forma, se adapte e construa sua própria, e deixa-a expandir, como a água. Se colocarmos a água num copo, ela se torna o copo; se você colocar água numa garrafa ela se torna a garrafa. A água pode fluir ou pode colidir. Seja água, meu amigo.” (Bruce Lee, O Tao do Jeet Kune Do)
Além de dizer respeito a tudo o que já vimos até agora, essa analogia também pode ser usada para explicar a importância da internalização. Usamos a analogia da água tanto para explicar a essência do Shibumismo, como também para explicar a forma que um seguidor deve proceder, idealmente. Ou seja, internalizando-o.
Vejamos, então, os 10 passos que Bruce Lee mostra em seu livro para alcançar o que chama de “Caminho da Verdade”:
1. Busca da verdade;
2. Consciência da verdade (e sua existência);
3. Percepção da verdade (seu conteúdo e direção - com a percepção do movimento);
4. Entendimento da verdade (um filósofo de primeira linha pratica para entender - o TAO. Não para ser fragmentado , mas para ver a totalidade - Krishnamurti);
5. Vivência da verdade;
6. Domínio da verdade;
7. Esquecimento da verdade;
8. Esquecimento do portador da verdade;
9. Retorno a fonte original (onde a verdade tem suas raízes);
10. DESCANSO NO NADA...
Temos nesses 10 passos o roteiro da internalização. Buscamos a verdade, ainda que, no começo, sem total consciência de sua existência. Com o tempo, vamos nos tornando conscientes de que há, de fato, uma verdade. Continuamos nossa busca e, com isso, vamos nos aproximando da verdade, o que nos permite percebê-la. Agora, passamos para a prática da verdade, que é essencial para seu entendimento. Ainda há, porém, um grande abismo entre prática e vivência. Ainda há mecanizações na prática, enquanto a vivência já permite alguma fluidez. Na prática, começamos a explorar as estradas que levam ao domínio. Na vivência, já caminhamos com total familiaridade nessa estrada. Ela se torna tão familiar que não precisamos mais nos esforçar para nos mantermos em uma direção correta. Tudo se torna automático. Quanto mais vivemos, mais dominamos. Agora, com o domínio, podemos esquecer, tendo a segurança de que não nos perderemos mais. Nos desapegamos conscientemente da verdade e de sua estrada. Não precisamos mais de um esforço consciente. A verdade se torna parte de nós. Somos agora capazes de retornar às raízes com um entendimento verdadeiro das mesmas e de suas ramificações. Descansamos, enfim, no vazio. Não há mais a necessidade de “forçar”. O que buscamos já é parte de nós.
Entendemos agora que a verdade humana não é necessariamente uma verdade. Homens são falhos. Somente Deus é perfeito. Entendemos que não existem verdades absolutas justamente porque existe uma única verdade absoluta. Nos desapegamos conscientemente da verdade falha dos homens, para nos apegarmos inconscientemente à Verdade única e absoluta. Deixamos de lado o apego a regras Shibumistas para podermos buscar honestamente a Filosofia Shibumista. Nos livramos de uma vez por toda de mecanizações para, finalmente, alcançarmos a internalização.
É justamente isso que significa “esquecer a verdade”. Ao acreditar tão fortemente em alguma coisa, a ponto de tomá-la como uma verdade universal, somos incapazes de nos abrir para outras verdades. Acabamos numa rua de duas vias, ambas sem saída: Ou nos tornamos incapazes de aceitar a verdade ou, pior ainda, passamos a relativizar a verdade para tentar adequá-la àquela falsa verdade que temos como absoluta. Por isso a necessidade do esquecimento da verdade e da capacidade de internalização. Há um ditado que diz que nunca encontramos nada quando estamos procurando.
Já percebeu que muitas vezes não encontramos o que procuramos? É justamente quando já desistimos de procurar que aparece. É aí que, quando menos esperamos e, muitas vezes, até já esquecemos que estávamos procurando, aquilo aparece, de repente, na nossa frente.
Vejamos um exemplo:
Você conhece uma filosofia, estuda-a, faz o possível para dominar suas teorias, decora toda a obra de seus autores e se torna uma espécie de erudito. E aí, quando pensa que está pronto, começa a errar cada vez mais. Se preocupa tanto com o sistema e suas teorias, que passa a polarizar tudo. Se torna aquilo que poderíamos chamar de "mula filosófica”, agindo como um robô, levando tudo ao pé da letra, repetindo frases enlatadas que decorou lendo livros, blogs e fóruns. O que você está fazendo aqui é justamente o oposto da internalização. Está apenas simulando um comportamento.
Isso ocorre devido ao apego a um sistema. Ao se esforçar tanto para seguir uma cartilha que tomou por verdade absoluta, você deixa de lado sua própria individualidade e passa a ser somente a caricatura de um perfil idealizado.
Para ser natural é necessário “esquecer a verdade”, ou seja, se desapegar de sistemas e teorias. A preocupação leva ao nervosismo. Você não só deixa de ser você mesmo, como também se torna ainda mais inseguro, exigindo de si mesmo algo que não deve ser. A única saída é a internalização. Só dessa forma você é capaz de agir naturalmente. Aquela filosofia, então, passa a ser parte de seu ser, uma extensão de seu próprio corpo.
Tome como exemplo o processo de aprendizado de uma arte marcial: Você aprende os movimentos. Se está iniciando na arte, levará um tempo para conseguir liberar um soco ou um chute. É natural que um iniciante pense antes de golpear: “Vou dar um soco... Será que agora devo chutar?”. Aos poucos, com a prática, esses movimentos passam a ter maior fluidez, até que, finalmente, comecem a sair naturalmente, se tornando parte de você, fluindo de dentro para fora, sem necessidade de esforço e pensamento. É aqui que você esquece, se desapega. Agora, o artista e seus movimentos são um só.
Podemos comparar o fluxo do Shibumismo com o movimento das águas. Somos capazes de perceber que há dois tipos de movimentações. A do Shibumismo em si e, também, daqueles que seguem o Shibumismo. Essa fluidez, como já vimos, é necessária por três motivos:
1. Crescimento pessoal do seguidor do Shibumismo
2. Desenvolvimento constante do próprio Shibumismo
3. Comprometimento do Shibumismo com a verdade
Como também vimos, há uma forte ligação entre o segundo e o terceiro. É comum que haja uma confusão com a ideia de abertura, já que vivemos numa época onde “abrir a cabeça” se tornou apenas uma desculpa para relativismo moral. Pode ser que, à princípio, essa confusão pareça ainda maior, já que, ao contrário das crenças modernas, vemos que, para o Shibumismo, abertura significa justamente uma forma de luta contra relativismos.
Quanto ao crescimento pessoal daqueles que seguem o Shibumismo, é importante entender que ser como a água é justamente o oposto da mecanização, ou seja, a internalização. Ser como a água não é simplesmente a ideia de manter a cabeça aberta para qualquer coisa. Para um indivíduo ser como a água, ele deve ser capaz de se expressar naturalmente, de forma fluída. Por isso a importância da internalização. Não há fluidez na mecanização. Não se atinge a fluidez por meio da força. A prática é importante para o domínio. Como já dizia Bruce Lee, um homem que treinou um soco por dia durante mil dias está mais preparado que um homem que treinou mil socos uma única vez na vida. Não basta somente a prática. É necessário torná-la um hábito. Torne-a parte de sua vida e logo será capaz de tornar aquilo parte de seu ser. Só assim poderá alcançar a fluidez, ou seja, a internalização.
Um exemplo que podemos tomar das artes marciais é o da diferença entre o treino e o combate. Quando você inicia seus treinamentos, há um esforço consciente pela técnica. O iniciante pensa antes de se mover. Sendo consciente, há um atraso em suas expressões. Elas ainda não são naturais. Como poderia ele entrar em um combate dessa forma? Seria um desastre! Com alguma prática ele é até capaz de alcançar uma boa técnica em seus movimentos. Mas, ainda sem a internalização, esses movimentos não são naturais. É como uma pessoa que aprende a dirigir: Ainda na auto-escola ela é capaz de dirigir bem, tecnicamente, fazer uma excelente baliza e passar no exame com uma pontuação perfeita. Ele tem as técnicas, mas ainda não tem o reflexo e segurança necessária. Solte-o na estrada e ele provavelmente cometerá muitos erros. Ele é tecnicamente um bom motorista, mas não é capaz de dirigir naturalmente. Tudo ainda é forçado.
Convido-o agora à refletir sobre as seguintes citações:
“Esvazie sua xícara primeiro, só então você poderá provar meu chá. Afinal de contas a utilidade da xícara está em poder esvaziar-se. Abra sua mente para receber novas idéias.” (Bruce Lee)
"Não seja tão mente aberta, pois seu cérebro pode cair para fora..." (G. K. Chesterton)
Uma análise superficial pode dar a idéia de que ambas se opõem. É perfeitamente normal que se tenha essa primeira impressão. Porém, uma reflexão mais aprofundada nos permite entender que, na verdade, ambas se complementam. Essa complementação resume perfeitamente o que vimos até agora sobre o equilíbrio entre o caráter fásico do Shibumismo e seu comprometimento com a busca da Verdade.
Infelizmente, é comum que haja hoje uma confusão entre ter uma mente aberta e relativismo. Ao formular suas teorias sobre o Jeet Kune Do, Bruce Lee não teve a intenção de aplicar algum tipo de relativismo nas artes marciais. Da mesma forma, Chesterton, ao nos alertar sobre o perigo de ser “tão mente aberta”, não estava dizendo para sermos inflexíveis. Ambos os pensadores entendiam a importância do equilíbrio e era justamente isso que estavam enfatizando.
Um bom exemplo disso seria uma comparação entre o Jeet Kune Do de Bruce Lee e o MMA (Mixed Martial Arts). O MMA, como já diz o nome, é uma modalidade que permite a “mistura” de artes marciais. Normalmente, um lutador de MMA conhece mais de um estilo. Um exemplo são os lutadores que praticam Jiu-Jitsu e Muay Thai. Eles conhecem e treinam ambos os estilos. Porém, não é uma arte marcial. É simplesmente um conhecimento em duas ou mais artes marciais completas. Já o Jeet Kune Do, não é uma mistura de estilos, mas uma arte que pode abranger movimentos de diversos estilos. Enquanto o lutador de MMA pratica mais de um estilo, em sua forma clássica, com seus pontos fortes e pontos fracos, o lutador de Jeet Kune Do não prática nenhum estilo. Na verdade, ele busca incorporar as vantagens de outros estilos em sua luta, enquanto se livra das desvantagens. Enquanto o MMA é basicamente uma mistura de estilos, o Jeet Kune Do pode ser visto como uma filtragem. O Jeet Kune Do não busca a quantidade, mas a qualidade. Como já dizia Bruce Lee, “não é um acrescimo diário, mas, sim, um descrescimo diário”. Há todo um processo de reflexão filosófica. E isso pode ser visto justamente nas citações acima. A mente se abre para novas ideias, mas se mantém alerta para impedir que as ruins entrem.
O indivíduo mecanizado cai facilmente na confusão entre mente aberta e relativismo por estar completamente focado na forma. Além de agir como um robô, ainda não é capaz de fazer uma filtragem. Ou acaba negando tudo, se estagnado no tradicionalismo, ou acaba aceitando tudo e caindo no relativismo. Esses são efeitos secundários deste foco com a forma. Ao manter o foco somente na forma, se torna cego para o conteúdo. Dessa maneira, se avilta ou se deslumbra facilmente, negando ou aceitando as coisas por completo após uma análise superficial, sem realmente conhecer ou entender seu conteúdo. Ou nega tudo aquilo que, à primeira vista, não lhe agrade, ou aceita tudo aquilo que lhe impressione de primeira. Em ambos os casos, é comum que acabe criando uma tremenda confusão mental apenas para poder lidar com todas contradições que encontrou entre o antigo e o novo. Confusões que servem como uma anestesia para a mente nos casos em que decide ignorar o novo por não aceitar que há erros no antigo, e nos casos em que sente a necessidade de aceitar os erros do novo quando são claramente demonstrados pelo antigo. Assim, tanto o modernista quanto o tradicionalista, caem no relativismo.
#Lawlyet
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