Páginas

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Considerações sobre “Amor Líquido” – Parte 2


Na Parte 1, o primeiro capítulo do livro “Amor Líquido” de Zygmunt Bauman foi desbravado. O “Amor Líquido”, podemos resumir, é o derretimento do amor e, portanto, sua descaracterização e desconfiguração. A pós-modernidade sofre de insegurança e isso reflete no enfraquecimento dos laços do relacionamento. Se o amor está disposto ao sacrifício e à renúncia em função do ser amado, o “amor líquido”, por temer o futuro, aposta e é incentivado por especialistas, em relacionamentos de curto prazo movidos, principalmente, pelo impulso e/ou oportunismo. Nesta segunda parte, iremos adentrar no segundo capítulo do livro intitulado “dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade”, onde se comenta as mudanças visíveis de configurações, percepção e interação em relação à pós-modernidade.

Homo sexualis: abandonado e destituído

Como afirmou Lévi-Strauss, o encontro dos sexos é o terreno em que natureza e cultura se deparam um com o outro pela primeira vez. É, além disso, o ponto ode partida, a origem de toda a cultura.

É fácil perceber que esse papel do sexo não foi acidental. Das muitas tendências, inclinações e propensões “naturais” dos seres humanos, o desejo sexual foi e continua sendo a mais óbvia, indubitável e incontestavelmente social. Ele se estende na direção de outro ser humano, exige sua presença e se esforça para transformá-la em união. Ele anseia por convívio. Torna qualquer ser humano — ainda que realizado e, sob todos os outros aspectos, autosuficiente — incompleto e insatisfeito, a menos que esteja unido a um outro.

Ciência do sexo

Bauman reclama de um “sexo racional” modelado pelos cientistas. Um aparato que alimenta um ciclo vicioso. Neste panorama, a demanda pela assistência sexual “tende a crescer, não a diminuir, já que eles sempre adiam o cumprimento de suas promessas. ‘A ciência sexual, não obstante, continua a existir, porque a miséria sexual se recusa a aparecer”. O Eros está em todo o lugar, mas não permanece em um mesmo local por muito tempo. O sexo deixou de ter função procriativa (compromissos que visavam a paternidade e maternidade), abrindo-se uma competição com a medicina para o papel reprodutivo, pois, conforme explica o sexólogo Sigush, existe a possibilidade de “escolher um filho num catálogo de doadores atraentes quase da mesma forma como eles [os consumidores contemporâneos] estão acostumados a comprar pelo correio ou por meio de revistas de moda”.

Para fazer um contraste com a pós-modernidade, Bauman relembra que no passado os filhos eram recebidos com expectativa da melhoria do bem-estar da família, já que seria mais uma pessoa a ajudar no trabalho. Além disso, muito contava a questão de deixar herdeiros para prosseguir a descendência da família.

A pós-modernidade, contudo, revela uma fragilidade das estruturas familiares. Famílias são facilmente desfeitas, sendo o relacionamento uma mera questão de escolha que pode ser revogada até segunda ordem. Situação esta que o filho perde o sentido de ser “uma ponte” para algo mais duradouro, tornando-se um fator misterioso que pode tanto servir para sustentar o lar permanentemente como para ser um fator de complicação para a dissolução futura.

Filho: um objeto de consumo emocional

De acordo com Bauman, os filhos não são desejados pelas alegrias do prazer paternal ou maternal esperados. Ele é tratado como mercadoria de alto custo:

Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida. Em termos puramente monetários, eles custam mais do que um carro luxuoso do ano, uma volta ao mundo em um cruzeiro ou até mesmo uma mansão. Pior ainda, o custo total tende a crescer com o tempo, e seu volume não pode ser fixado de antemão nem estimado com algum grau de certeza. Num mundo que não oferece mais planos de carreira e empregos estáveis, assinar um contrato de hipoteca com prestações de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanças, expor-se a um nível de risco atipicamente elevado e a uma fonte prolífica de ansiedade e medo. É provável que se pense duas vezes antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem óbvios os riscos envolvidos. E nenhuma dose de determinação e ponderação poderá remover a sombra de dúvida que tende a adulterar a alegria. Além disso, ter filhos é, em nossa época, uma questão de decisão, não um acidente — o que aumenta a ansiedade. Tê-los ou não é comprovadamente a decisão com maiores conseqüências e de maior alcance que existe, e portanto também a mais angustiante e estressante.

Além disso, Bauman relembra sobre o que foi comentado no capítulo anterior: existe também custos que não monetários como o fato de que “formar uma família” é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável, o que requer estar disposto ao sacrifício para que seja uma relação durável. Isso inclui, obviamente, sacrificar o próprio conforto pessoal, a autonomia de nossas preferências, projeto de carreira, em benefício do filho.

Bauman nota que em uma sociedade de relacionamentos efêmeros, a relação de obrigação, não revogável, que se tem com um filho é chocante e que a tomada de consciência de tal compromisso pode ser uma experiência traumática e que possivelmente pode estar por trás de casos de depressão e crises conjugais pós-partos.

Um, digamos, “espírito consumista” aliado a separação do sexo com reprodução faz com que pessoas queiram cada vez mais “garantias” a respeito de seus filhos. Diante disso, lucram-se as “companhias que ofereçam a chance de “escolher um filho num catálogo de adoadores atraentes” e clínicas de boas reputação que companham por encomenda o espectro genético de uma criança em gestação”.

Resumindo: a separação entre sexo e reprodução, amplamente observada, tem a anuência do poder. É o produto conjunto do líquido ambiente da vida moderna e do consumismo como estratégia escolhida, e a única disponível, de “procurar soluções biográficas para problemas socialmente produzidos” (Ulrich Beck). É a mistura de ambos os fatores que leva ao deslocamento das questões da reprodução e do parto para longe do sexo e na direção de uma esfera totalmente diferente, operada por uma lógica e um conjunto de regras inteiramente diversos dos que regem a atividade sexual. A destituição do homo sexualis é sobredeterminada.

Uma descrição que se aproxima do cenário de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

Sexo sem amor leva a frustração

Erich Fromm é resgatado para explicar que o sexo pelo sexo é enganoso, pois visando a “fusão total”, tem-se na realidade a “ilusão de união”.

A união reside do fato do homem e da mulher procurarem ardentemente escapar da solidão. A ilusão é o resultado obtido porque o clímax orgástico “deixa os estranhos tão distantes um do outro como estavam antes”, de modo que “eles sentem seu estranhamento de maneira ainda mais acentuada”. Nesse papel, o orgasmo sexual se torna um vício que pode ser comparada ao alcoolismo ou drogas.

Trata-se de uma união que é ilusória e que tende a ser frustrante, já que está separada do amor (um compromisso intencionalmente duradouro e indefinido com o bem-estar do parceiro). Somente o amor tem capacidade de fazer o sexo ter uma fusão genuína. Fora do amor, o sexo relaciona-se com uma fusão efêmera, dúbia e, em casos mais graves, autodestrutiva.

Agora espera-se que o sexo seja auto-sustentável e auto-suficiente, que “se mantenha sobre os próprios pés”, para ser julgado unicamente pela satisfação que possa trazer por si mesmo (ainda que, em regra, ela seja interrompida bem antes da expectativa gerada pela mídia). Não admira que também tenha crescido enormemente sua capacidade de gerar frustração e de exacerbar a própria sensação de estrangulamento que se esperava que curasse. A vitória do sexo na grande guerra de independência tem sido, na melhor das circunstâncias, uma vitória de Pirro. Os remédios maravilhosos parecem produzir moléstias e sofrimentos não menos numerosos e comprovadamente mais agudos do que aqueles que prometiam curar.”

A falsa libertação

Quando a libertação foi promovida como forma de liberta-se de uma “sociedade patriarcal, puritana, desmancha-prazeres, hipócrita e ainda por cima desafortunadamente vitoriana” os relacionamentos passaram a ser encaradas com o propósito de prazer e alegria, alegremente cega às suas consequências, de uma felicidade do tipo “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”.

O terapeuta Volkmar Sigusch é trazido para assinalar que vem aumentando a procura por especialistas e que as formas de relacionamentos íntimos em voga portam uma máscara da falsa felicidade. Se retirada a máscara, descobre-se anseios não-realizados, nervos em frangalhos, amores frustrados, sofrimentos, medos, solidão, hipocrisia, egoísmo e compulsão à repetição.

Uma situação desconfortável que pede por mudanças.

Aspecto de Consumo x Aspecto de Produtor

Em Modernidade Líquida, Bauman fez uma analogia entre o espírito de consumidor e o espírito de produtor. O primeiro, imediatista, pensa e age conforme a utilidade a curto prazo. O segundo, pautado por sonhos, objetivos e princípios, pauta-se em uma visão de longo prazo. Em “Amor Líquido”, o autor recorre novamente aos dois tipos.

O homem produtor, ou construtor, tinha confiança em seu poder de planejamento e se preocupava com os sentimentos dos futuros moradores (mulher e filhos):

“O respeito é, afinal, apenas um dos lados da faca de dois gumes da atenção, cuja outra ponta é a opressão. A indiferença e o desprezo são dois recifes com os quais muitas intenções éticas honestas têm se chocado, e os eus morais precisam de muita vigilância e habilidade de navegação para passar incólumes por eles. Isso dito, parece, não obstante, que a moral — aquele Fürsein ditado pela responsabilidade por um Outro e posto em operação assim que assumido —, com todas as suas paisagens deslumbrantes e seus desvios e emboscadas traiçoeiros, foi feita sob medida para o homo faber [produtor]”.

Já o homem consumidor está atrelado ao espírito do consumismo, cuja característica não é acumular bens, mas usá-los e descartá-los, para que haja espaço para novos bens e usos.

“Em geral, a capacidade de utilização de um bem sobrevive à sua utilidade para o consumidor. Mas, usada repetidamente, a mercadoria adquirida impede a busca por variedade, e a cada uso a aparência de novidade vai se desvanecendo e se apagando. Pobres daqueles que, em razão da escassez de recursos, são condenados a continuar usando bens que não mais contêm a promessa de sensações novas e inéditas. Pobres daqueles que, pela mesma razão, permanecem presos a um único bem em vez de flanar entre um sortimento amplo e aparentemente inesgotável. Tais pessoas são os excluídos na sociedade de consumo, os consumidores falhos, os inadequados e os incompetentes, os fracassados — famintos definhando em meio à opulência do banquete consumista.

Aqueles que não precisam se agarrar aos bens por muito tempo, e decerto não por tempo suficiente para permitir que o tédio se instale, são os bem-sucedidos. Na sociedade dos consumidores, o prestidigitador é a figura de sucesso. Não fosse isto um anátema para os fornecedores de bens de consumo, os consumidores fiéis ao seu caráter e destino desenvolveriam o hábito de alugar coisas em vez de comprá-las. Diferentemente dos vendedores de mercadorias, as empresas de locação prometem, de modo tentador, substituir com regularidade os bens alugados por modelos de último tipo. Os vendedores, para não ficarem para trás, prometem devolver o dinheiro se o cliente não estiver plenamente satisfeito e se (na esperança de que a satisfação não se evapore tão rápido) os bens adquiridos forem devolvidos dentro de, digamos, dez dias.”

A partir disso, Bauman discorre sobre o sexo de nossos dias, o “sexo puro” pautado em “encontro puramente sexual”, onde a inexistência de “restrições” compensaria a fragilidade do engajamento. Ele aponta que a larga publicidade do sexo e as angústias dos relacionamentos líquidos aumentaram as incertezas da líquida vida moderna:

“O maior deles [temores difusos e inominados] provinha da ambigüidade do encontro sexual: seria esse o passo inicial na direção de um relacionamento ou sua coroação e seu término? Um estágio numa seqüência significativa ou um episódio singular, um meio para um fim ou um ato independente? Nenhuma união de corpos pode, por mais que se tente, escapar à moldura social e cortar todas as conexões com outras facetas da existência social. Privado de seu antigo prestígio social e de significados que antes eram socialmente aprovados, o sexo encapsulava a incerteza aflitiva e alarmante que se tornou a principal ruína da líquida vida moderna.”

Adaptando o casamento

No “Amor Líquido”, o cenário de insegurança e angústias não diminui com o casamento. Para contornar esse problema em termos de “Modernidade Líquida”, os parisienses têm apostado, por exemplo, na troca de esposas:
Como estratégia para enfrentar o espectro da incerteza, do qual, como se sabe, os episódios sexuais estão repletos, o échangisme tem uma vantagem sobre o sexo casual e outros encontros igualmente arriscados e de curta duração. A proteção contra conseqüências indesejáveis é, nesse caso, dever e preocupação de outra pessoa e, na pior das circunstâncias, não constitui um esforço solitário, mas uma tarefa compartilhada com aliados poderosos e dedicados. A vantagem do échangisme sobre o simples adultério é particularmente gritante. Nenhum dos échangistes é traído, nenhum deles tem os interesses ameaçados e, tal como no modelo ideal de Habermas da “comunicação não-distorcida”, todos são participantes. O ménage à quatre (ou six, huit… quanto mais melhor) está livre de todas as pragas e deficiências que se sabe serem a maldição do ménage à trois.

Os praticantes querem regularizar a situação, criando clube de associados. Diante disso, Bauman questiona:
Mas será que elas defendem o homo sexualis de si mesmo? Será que os anseios irrealizados, as frustrações amorosas, os temores de ficar só e de se ferir, a hipocrisia e a culpa são deixados para trás depois de uma visita ao clube? Será possível encontrar lá a intimidade, a alegria, a ternura, a afeição e o amor? Bem, o visitante pode dizer de boa-fé: isto é sexo, seu estúpido — não tem nada a ver com nada disso. Mas se ele ou ela estiver certo(a), será que o sexo em si é importante? Ou que, seguindo Sigusch, se a substância da atividade sexual é a obtenção do prazer instantâneo, “então o mais importante não é o que se faz, mas simplesmente que aconteça”.

Ideologia do gênero

A angústia do Homo Sexualis (apegado ao sexo) também permite questionar a natureza. Há a tendência de negar que existe os sexos masculino e feminino. Estes seriam construções sexuais. O homem líquido quer poder escolher seu gênero sexual.

Sendo assim, não apenas o ato sexual, mas a própria sexualidade torna-se líquida (mútavel e inconstante), cabe ao homo sexualis escolher do catálogo das múltiplas identidades sexuais aquela que melhor se ajusta a ele ou ela. A respeito de tal artimanha, Bauman comenta:

“A subdefinição, a incompletude e a ausência de finalidade da identidade sexual (tal como todas as outras facetas da identidade nos líquidos ambientes modernos) são um veneno e seu antídoto misturados numa poderosa superdroga antitranqüilizante.

A consciência dessa ambivalência é desalentadora e não produz o fim da ansiedade. Gera uma incerteza que só pode ser temporariamente apaziguada, jamais totalmente extinta. Contamina qualquer condição escolhida/atingida com dúvidas persistentes a respeito de sua propriedade e sabedoria. Mas também protege da humilhação que vem com o fracasso parcial ou total. Há sempre a possibilidade de pôr a culpa numa escolha, considerando-a equivocada, e não na incapacidade de aproveitar as oportunidades por ela oferecidas, pelo fato de a bem-aventurança prevista não ter conseguido se materializar. Há sempre uma chance de abandonar a estrada pela qual se chegaria à realização e recomeçar — mesmo que a partir do zero, se as perspectivas parecerem atraentes.

O efeito combinado do veneno e do antídoto é manter o homo sexualis em perpétuo movimento, empurrado à frente (“esse tipo de sexualidade não conseguiu produzir a experiência culminante que me disseram que traria”) e puxado para trás (“outros tipos que vi e ouvi estão ao meu alcance — é apenas uma questão de decisão e esforço”).

O homo sexualis não é uma condição, muito menos uma condição permanente e imutável, mas um processo, cheio de tentativas e erros, viagens exploratórias arriscadas e descobertas ocasionais, intercaladas por numerosos tropeços, arrependimentos poroportunidades perdidas e alegrias por prazeres ilusórios.”

Trazendo Freud e Derrida, comenta-se que o homem moderno tem sua vista embaçada quanto ao sentido de manifestações “saudáveis” e “perversas” em matérias de instinto sexual. Na modernidade, muitas formas de atividade sexual não são apenas toleradas, mas frequentemente indicadas como terapias úteis.
“Parece que o elo entre a sublimação do instinto sexual e sua repressão, que Freud considerava condição indispensável de qualquer arranjo social disciplinado, foi rompido. A líquida sociedade moderna descobriu uma forma de explorar a propensão/receptividade humana a sublimar os instintos sexuais sem recorrer à repressão, ou pelo menos limitando-a radicalmente. Isso aconteceu graças à progressiva desregulação do processo sublimatório, agora difuso e disperso, o tempo todo mudando de direção e guiado pela sedução dos objetos de desejo sexual em oferta, e não por quaisquer pressões coercitivas”

Celular

Em uma sociedade que não pára de receber e enviar mensagens no celular, a crítica de Bauman volta se ao fato de que tal apego a essa dinâmica tecnológica de relação diminuiu a proximidade e beneficiou o afastamento.

O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais freqüentes e mais banais, mais intensas e mais breves. As conexões tendem a ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços. Centradas no negócio à mão, estão protegidas da possibilidade de extrapolar e engajar os parceiros além do tempo e do tópico da mensagem digitada e lida — ao contrário daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, são conhecidos por perpetrar. Os contatos exigem menos tempo e esforço para serem estabelecidos, e também para serem rompidos. A distância não é obstáculo para se entrar em contato — mas entrar em contato não é obstáculo para se permanecer à parte. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem sedimentos permanentes. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais que o apertar de um botão.

A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. “Estar conectado” é menos custoso do que “estar engajado” — mas também consideravelmente menos produtivo em termos da construção e manutenção de vínculos.

E esse tipo de afastamento também afeta o ambiente familiar:

“Quando estávamos a uns poucos anos do súbito desenvolvimento da proximidade virtual eletronicamente acionada, Michael Schluter e David Lee observaram que “nós usamos a privacidade como um traje pressurizado … Tudo menos convidar ao encontro; tudo menosenvolver-se”. Os lares não são mais ilhas de intimidade em meio aos mares, em rápido resfriamento, da privacidade. Transformaram-se de compartilhados playgrounds do amor e da amizade em locais de escaramuças territoriais, e de canteiros de obras onde se constrói o convívio em conjuntos de bunkers fortificados. “Nós entramos em nossas casas separadas e fechamos a porta, e então entramos em nossos quartos separados e fechamos a porta. A casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer, separadamente lado a lado.”

Seria tolo e irresponsável culpar as engenhocas eletrônicas pelo lento mas constante recuo da proximidade contínua, pessoal, direta, face a face, multifacetada e multiuso. E no entanto a proximidade virtual ostenta características que, no líquido mundo moderno, podem ser vistas, com boa razão, como vantajosas — mas que não podem ser facilmente obtidas sob as condições daquele outro tête-àtête, não-virtual. Não admira que a proximidade virtual tenha ganhado a preferência e seja praticada com maior zelo e espontaneidade do que qualquer outra forma de contigüidade. A solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum.”

Namoro pela internet

Algumas “vantagens” listadas:
  • Pode apertar a tecla deletar;
  • Não responder email é a coisa bem fácil;
  • Pode-se namorar sem medo de ‘repercursões’ no mundo real;
  • “Compra não-obrigatória” – “devolução do produto caso não fique satisfeito”
  • Terminar quando se desejar, sem confusão, sem avaliação de perdas e sem remorsos;
  • Como a modernidade líquida é instável, o namoro pela internet permite reduzir riscos e, simultaneamente, evitar perda de opções;
  • Não há necessidade “de estar à disposição quando o outro precisa”.
Assinala Baumann que o baixo comprometimento do namoro virtual, entretanto, não é a causa, mas a consequência da sociedade “líquida”:
“A responsabilidade por eliminar essas condições não pode ser atribuída à porta virtual do namoro eletrônico. Muito mais tem acontecido no caminho em direção à líquida e individualizada sociedade moderna para tornar os compromissos de longo prazo pouco numerosos, o engajamento a longo prazo uma rara expectativa e a obrigação de assistência mútua incondicional uma perspectiva que nem é realista nem percebida como digna de grandes esforços.”

***

Na última parte do capítulo, Bauman ainda falou da economia de mercado e do Estado, contudo sua abordagem já passou a carregar uma carga ideológica, que foge um pouco do tema dos relacionamentos “líquidos”.


<< Parte 1 | Parte 3 >>

#Augusto

Nenhum comentário:

Postar um comentário