Primeira Missa no Brasil. Pintura de Eugênio Cisterna, c. 1898. Igreja de São Joaquim no Prati, Roma
sexta-feira, 2 de maio de 2025
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
Chá para ciclistas?
Você já ouviu falar sobre tomar chá verde para melhorar o rendimento muscular? O chá verde é um potente antioxidante e anti-inflamatório, o que motiva muita gente a consumir esse chá como forma de melhorar as defesas antioxidantes, importantes para a nossa saúde. Dois estudos recentes do nosso laboratório trouxeram algumas evidências sobre o uso de chá verde por parte de esportistas.
Adianto a conclusão. Parece que o chá verde pode ajudar na recuperação após esforços intensos. Quando ciclistas foram submetidos à fadiga acumulada em dias seguidos, o chá verde ajudou na recuperação. Verificamos isso da seguinte forma: primeiramente os ciclistas realizaram um teste incremental máximo para determinação da potência máxima.
Nos dias seguintes, eles realizavam um teste submáximo de 50 minutos em um cicloergômetro com intensidade fixa em 60% da potência máxima.
Então eles receberam cápsulas com compostos de chá verde ou um placebo que deviam ser tomadas ao longo de 15 dias. Nos três últimos dias de suplementação eles faziam sessões de exercícios de extensão de joelhos até a exaustão, para fadigar a musculatura da coxa (principais músculos produtores de potência no ciclismo). Por fim, repetiam o teste em cicloergômetro.
Esse último teste era realizado em uma condição de forte fadiga acumulada após dois dias prévios de exaustão do quadríceps. Os ciclistas que haviam tomado o composto de chá verde tinham melhor condição de ativação dos músculos e menores indicativos de dano muscular no último teste de ciclismo. Isso sugere que o chá verde ajudou na recuperação ao longo dos dias de treino intenso (1).
Esse tipo de situação de fadiga acumulada pode acarretar dor muscular tardia.
Em outro estudo recente, observamos que embora a sensação dor tardia não seja menor após a suplementação com chá verde, os marcadores de dano muscular se mostram diminuídos (2). Novamente isso sugere que o chá verde parece ter potencial para ajudar a minimizar o dano muscular após o exercício intenso.
Referências:
(1) Machado ÁS, da Silva W, Souza MA, Carpes FP. Green Tea Extract Preserves Neuromuscular activation and muscle damage markers in athletes under cumulative fatigue. Front Physiol. 2018 Aug 17;9:1137. doi: 10.3389/fphys.2018.01137.
(2) da Silva W, Machado ÁS, Souza MA, Mello-Carpes PB, Carpes FP. Effect of green tea extract supplementation on exercise-induced delayed onset muscle soreness and muscular damage. Physiol Behav. 2018 Oct 1;194:77-82. doi: 10.1016/j.physbeh.2018.05.006.
Fonte: revistabicicleta.com
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
Pedale: conheça 10 benefícios de andar de bicicleta para a sua saúde
Em um mundo que não para de mudar, o uso da bicicleta como meio de transporte aumenta cada vez mais. Seja para fugir dos engarrafamentos ou para adotar um estilo de vida mais saudável, motivos não faltam para começar a pedalar.
Além de ser um meio de transporte barato e sustentável, a bicicleta também é ferramenta para quem quer apenas se exercitar. E seu uso, não importa para qual objetivo, só faz bem à saúde! Quer saber quais benefícios você pode ter ao pedalar? Listamos 10 para você!
1. Emagrece
Andar de bicicleta é um exercício que acelera o seu metabolismo, ou seja, faz com que o seu corpo queime calorias mais rapidamente. O resultado é menos acúmulo de gordura no organismo e, consequentemente, uma silhueta mais magra.
2. Melhora o tônus muscular
Como todo exercício físico, pedalar exige força dos músculos. Por isso, pedalar regularmente vai fazer com que você ganhe força muscular e tônus, sobretudo na parte inferior do seu corpo. Empurrar os pedais envolve seus quadríceps, os músculos das coxas, e os glúteos. Os braços e ombros também são usados, principalmente ao segurar o guidão dos dois lados para subir morros íngremes.
3. Proporciona bem-estar
Você já viu alguém pedalando com expressão de raiva ou tristeza? Provavelmente não, já que pedalar faz com que o seu organismo libere endorfinas e serotoninas, hormônios que causam sensação de prazer.
Por isso, além de fazer bem para o corpo, andar de bike ajuda a combater a depressão, ansiedade e o estresse.
4. Aumenta o fôlego
Se você já viu um ciclista subindo uma ladeira íngreme deve ter se perguntado: como ele consegue? A resposta está nos pulmões reforçados.
Quando pedala, você precisa de mais oxigênio e acaba exercitando mais a respiração. Com o tempo, começa a ganhar fôlego para aguentar não só as longas subidas, mas pedalar por longas distâncias.
O ganho de resistência física vai além dos momentos de pedalada e será útil para todas as atividades do seu dia a dia, como brincar com os filhos e subir escadas.
5. Não prejudica as articulações
Diferentemente de outras atividades, como a corrida, no ciclismo, o seu contato com o chão não fica a cargo das suas pernas e pés. Isso faz com que todo o impacto transmitido para as articulações, principalmente nos pés e joelhos, seja pequeno.
Então se você tem alguma restrição física para atividades como correr, jogar tênis ou futebol, já sabe que a solução é investir na bicicleta.
6. Reduz o colesterol
O ciclismo, como você já sabe, acelera o metabolismo. Isso faz com que as substâncias que geram o colesterol ruim (LDL) sejam rapidamente queimadas pelo seu organismo.
7. Ajuda a prevenir e controlar o diabetes
Uma pessoa diabética pode e deve praticar exercícios físicos e pedalar é um dos melhores para este grupo de pessoas. Andar de bike regularmente ajuda a manter os níveis de açúcar no sangue estáveis, além de reduzir o risco de complicações cardiovasculares.
Quem não é diabético mas quer prevenir a doença também deve incluir essa atividade na rotina!
8. Controla a pressão arterial
Que andar de bike tonifica os músculos você já sabe. O que muita gente desconhece é que pedalar também trabalha as veias e artérias. O processo de contração e relaxamento delas fica mais rápido durante a atividade, o que ajuda a baixar a pressão arterial. O seu coração agradece!
9. Melhora a coordenação motora
Andar de bicicleta é divertido e ainda contribui para melhorar a sua coordenação motora. Como a atividade envolve todo o corpo (braços, pernas, mãos), ainda faz com que você fique com reflexos mais rápidos.
10. Auxilia na recuperação de lesões ósseas e artrite
Por ser um exercício de baixo impacto, andar de bike contribuindo para a saúde das articulações, prevenindo quedas e fraturas. É um exercício físico ideal para prevenir osteoartrite e osteoporose.
Viu como trocar o carro pela bicicleta, pelo menos de vez em quando, pode mudar a sua vida? Essa atividade, acompanhada de uma alimentação saudável e de visitas regulares ao médico, vai melhorar - e muito - a sua qualidade de vida! Portanto, vamos pedalar!
Fonte: MetLife
terça-feira, 16 de julho de 2019
A religião dos neopagãos

Uma das convicções do shibumismo é que estamos imersos em um neopaganismo, isto é, cultuação de falsos deuses. Dentre esses falsos deuses configura Asmodeu, o deus do sexo.
Em uma sociedade deste tipo, onde até mesmo o conservadorismo se ajoelha à revolução sexual (conceituados no shibumismo como conservadiarismo), foi com alegria que descobrimos em Peter Kreeft, filósofo católico, com uma visão semelhante sobre o problema.
Em “Como Vencer a Guerra Cultural”, Kreeft elenca o sexo como a radical mudança de nossa sociedade moderna, ou se preferir, pós-moderna. Estando como peixes que não enxergam a água no aquário, parece que os “construtores/renovadores” da “alta cultura” – os “conservadores” brasileiros – não atentam para isso. Não sendo por acaso que cunhamos o conceito de direita punheta, que não custa explicar novamente. Direita punheta são opositores do esquerdismo, cientes do marxismo cultural, e portanto da guerra cultural, mas que se negam a batalhar na raiz que nutre e fortalece o aparato revolucionário moderno: a revolução sexual. E, na maioria dos casos, não é mera omissão, é aceitação mesmo. É como se dissessem: ‘é que vemos a liberdade sexual como progresso’.
Não é surpreendente quando se olha para debaixo do pano e se descobre que na verdade são liberais que se acham conservadores, pois se percebe o quão estão imbuídos de espírito burguês. O espírito burguês, definia Plínio Salgado, são as pessoas cujo fim da vida é gozar, seja pela luxuria, seja pela avareza.
Mas não é sobre os conservadiarismo que queremos falar. Voltemos sobre o tema central: o sexo como religião do neopaganismo. Em “Jesus: o maior filósofo que já existiu”, ao final do livro, Peter Kreeft comenta sobre o assunto, dando pistas donde surgiu toda essa mudança:
“Do ponto de vista de Freud, a religião é um substituto do sexo; da perspectiva de Cristo, o sexo é um substituto da religião. E um substituto bastante bom. De todas as coisas que Deus criou, o sexo é a melhor e um ícone natural do amor sobrenatural e de nosso destino sobrenatural. Apenas coisas muito boa podem ser cultuadas. Você não pode fazer uma religião a partir do encanamento ou do seguro”.
Ainda refletindo sobre esta inversão, Kreeft acrescenta mais adiante do capítulo:
“A religião não é um pálido substituto do sexo; mas o sexo é um pálido substituto da verdadeira religião; porque, como Tomás de Aquino diz: ‘Nenhum homem pode viver sem alegria: por isso, um homem privado da alegria espiritual volta-se para os prazeres carnais’ (ST II-II, 35, 4 e 2). A origem da revolução sexual é religiosa. Por essa razão, as exigências dela são tão inegociáveis”.
Dado isso, não podemos deixar de comentar sobre Freud e sua psicanálise. O brasileiro não adora pagar de psicanalista à toa, dando laudos psicológicos à torto e qualquer direito. É que a mente do cidadão aprendeu por osmose a pensar como um psicanalista. E isso não é bom. Adentremos na cabeça de um típico neopagão que, sem saber, ou melhor, pensando que pensa com a própria cabeça, na verdade está raciocinando em termos da pseudo-científica psicanálise.
Diz a psicanálise que desejos reprimidos ou frustrados vão para o inconsciente causando transtornos na pessoa. Daí vem a justificativa pagã para a punheta, por exemplo. Dizem os punheteiros que é preciso “descarregar”. Assim vale para o sexo: se não fizer sexo, é como se a pessoa fosse explodir. É basicamente com esse tipo de leviandade o assunto é encarado. E o pressuposto aceitam por desconhecimento é o do inconsciente controlando o consciente. Ou seja, na visão da psicanálise, não há vontade humana.
Mas isso não é o pior. O pior é que os neopagãos se acham livres. Tanto que glorificam o que acreditam ser a “liberdade” sexual. Curiosa liberdade essa que se não praticar, o inconsciente faria o consciente “explodir”. Percebe-se facilmente o quanto são reféns do vício e apenas fazem pose (chamamos no shibumismo de pose neopagã) de pessoas “independentes” e “livres”. Não tendo a legítima liberdade, só podem recorrer ao teatro.
Asmodeu, o deus do sexo, é um deus bem interessante. Fazem os pagãos prestarem culto a ele apelando para efeitos colaterais de desejo sexual reprimido. É o deus que joga a cenoura de um lado (sexo dá prazer) e o porrete do outro (se não fizer sexo, sua psique vai derreter) e assim o fraco pagão fica escravo de seu deus.
Desconhecem os pagãos que a virtude da castidade propicia ao homem o controle sobre o sexo. Assim, ele é capaz e consegue ficar sem fazer sexo sem explodir, pois o homem se tornou senhor do sexo e não o sexo senhor dele. Isso é a verdadeira liberdade. Asmodeu, como demônio que é, usa da mentira como método para levar a perdição.
E aí vem a ironia e o paradoxo mais interessante disso tudo. Por serem escravos do sexo, os pagãos se acham “experts” no assunto. Novamente é pose. Duas pessoas amadurecidas e que, portanto, controlam o apetite sexual, aproveitam muito mais a realidade e o prazer sexual. E o motivo é simples: por controlarem o sexo, não desvinculando a prática do amor e do leito conjugal, colhem o louro da função unitiva do sexo.
A mulher madura faz sexo por acredita na promessa de amor que seu amado fez (casamento). A mulher pagã faz sexo pelo desespero de achar que por esta estratégia, irá fazer o homem amá-la.
Nota-se que o sentido do sexo está invertido entre cristãos e pagãos. Contudo, a lógica teológica é a mesma. Pois veja: ambos acham que a fonte do amor é divina. Os pagãos fazem sexo tentando gerar o amor, pois tomam o sexo como deus. É diferente dos cristãos que encaram o sexo como expressão de um amor consumado pelo casamento: porque nos amamos, fazemos sexo como forma de concretizar nossa união mística.
Em suma, o pagão acha que o sexo gera amor; os cristão acham que o amor precede o sexo.
Recentemente li uma pessoa declarar no Facebook que achava ABSURDO (sim, ele escreveu em letras garrafais) o celibato e casar virgem.
O princípio teológico dessa afirmação está correto, posto que é absurdo viver sem deus. O problema, o erro do cidadão, é que ele cultua o sexo como deus, ou seja, um falso deus.
A moral sexual não é mero regrismo, não é mera proibição do “super ego”, moldado por influência de uma sociedade hipócrita, cuja libertação é necessária. Não, isso é pseudo-ciência, papo de psicanalista. É difícil ensinar ao pagão moderno que a moralidade sexual faz parte de uma realidade objetiva, porque ele encara o assunto como religião, ainda que irracional e não formal. É essa realidade que o Instituto Shibumi tenta evidenciar e que Peter Kreeft chama a atenção:
“O sexo é o deus do mundo, da nossa cultura. É nossa exigência mais não negociável. O ensinamento da Igreja fiel de Cristo a respeito do sexo é o principal motivo pelo qual o mundo odeia e teme a Igreja, pois ela tem uma atitude ‘julgadora’ em relação ao vício e à real religião da nossa sociedade.
Cristo modifica radicalmente a revolução sexual. Como ele faz isso? Não ao contrapor religião e sexo, mas ao contrapor a verdadeira e a falsa religião.
(…)(…) quando você tem a coisa verdadeira, fica livre do vício da imagem dela. Quando você tem um relacionamento de amor (ágape) com Deus, liberta-se do relacionamento de amor (eros) com as criaturas. E apenas aí, apenas quando não precisamos desesperadamente das criaturas, podemos usufruir e apreciar as criaturas livremente. O alcoólatra não está livre para apreciar o álcool, o viciado em sexo não está livre para apreciar o sexo.”
#Augusto
terça-feira, 2 de julho de 2019
Dois discursos de cunho ateísta

Há dois discursos do lado ateu que me chama a atenção. O primeiro é dizer, ao melhor estilo de Bertrand Russel, que não existe evidência de Deus. Alegação deveras polêmica, mas o caso é que a falta de evidência não prova nem a existência e nem a ausência de Deus. Repare que aqui eu não estou refutando nada, só estou dizendo algo bastante óbvio: a falta de evidência não prova a ausência. Pode ser uma maneira de justificar uma posição, dizer um “não estou convencido”. Contudo, não estar convencido de algo não significa que esse algo não existe. Próximo ponto.
Agora, o top-top do discurso ateísta, em minha opinião, é o famoso “se Deus é bom, por que o mau existe?”. Se Deus é o amor supremo; bondade suprema, por que permite que o mal aflija seus filhos teoricamente amados pelo Criador? Este tipo de questionamento envolve, sem dúvidas, uma grande carga emotiva que pode ser comparada a uma criança pensar “se papai e mamãe me amam, por que não compram os presentes que eu quero?”. Só que esse tipo de discurso já foi exaustivamente rebatido por várias linhas de argumento teísta.
Lembro-me de assistir a um documentário sobre o Muro de Berlin, onde se apresentava casos de fugas bem sucedidas. Para fugir da opressão do lado oriental, várias pessoas arriscaram a vida para vencer o muro e chegar ao lado ocidental. Houve casos de fuga que foram bem sucedidos e era disso que descrevia o documentário. Ao final, um bem-sucedido fujão atesta: “a liberdade é o maior bem humano, mas só se dá conta disso quem a perdeu”. E esta é a chave: Deus, alegam os teístas, deu-nos liberdade. Liberdade que inclui o direito de rejeitá-lo e a capacidade de fazer o mal.
É bastante recorrente em filmes algum personagem ter que passar por testes para “provar o seu valor”. Compreensível, não? Bom, não é muito diferente com Deus. Quem fizer bom uso da liberdade e provar o seu valor, será recompensado na vida a após a morte. Quem não fizer bom uso, será condenado. Esta é, a grosso modo, a visão cristã.
Pode-se, naturalmente, rejeitar essa visão. Pode-se dizer que “não há evidência”. Prová-la cientificamente está fora de questão, pois, se verdadeiro, trata-se de uma realidade metafísica. Contudo, o que não se pode fazer, e infelizmente muitos abobados cedem a essa tentação, é dizer que tal visão é irracional ou desprovida de sentido.
O problema do mal de fato envolve bastante a emoção, mas do ponto de vista da razão, o questionamento da existência do mal não prova a ausência de Deus. Pior, a insistência em declarar irracionalidade onde não existe, pode ser comparada à criança mimada que faz biquinho porque não tem suas vontades obrigatoriamente satisfeitas. E aqui vem a observação mais reflexiva e o núcleo central da problemática: ficar preso a desejos não é liberdade, mas sua oposição. Referente à escravidão dos vícios, exista ou não Deus, muitas teologias as descrevem muito bem. Mesmo que Deus não exista, o valor da teologia e suas contribuições não podem ser negadas por conta de um mero capricho materialista.
Rejeitar esse tipo de observação por causa de capricho seria autossabotar a investigação da realidade. Como a religião se preocupa com a salvação da alma, ela também despeja esforços para compreender as tensões humanas e luta para pregar a pureza da liberdade.
#Augusto
quinta-feira, 9 de maio de 2019
O que é a Matrix?

Por mais comum que tenha se tornado o uso do termo Matrix, podemos ter certeza que são poucas as pessoas realmente entenderam seu significado. Tradicionalmente, alguns grupos de homens focados na discussão de temas como mulheres e relacionamentos (o maior exemplo é a Real), já vinham usando o termo para tentar explicar a dinâmica dos relacionamentos. Apesar disso, venho percebendo que até mesmo entre aqueles que foram capazes de entender a analogia, poucos foram realmente capazes de entender a essência de seu significado.
Apesar do conceito de Matrix ser comumente associado à alegoria da caverna de Platão, há também uma outra associação (que tem suas diferenças) com o filme Matrix. Por ora, veremos aqui seu uso geral (como é normalmente entendido e usado por esses grupos) pois, além de ser importante para o entendimento do sentido atual do termo, também é necessário para o entendimento dos próximos artigos deste blog. Falarei posteriormente sobre outro conceito que, mesmo completamente diferente e desconhecido dentro e fora destes grupos, também é de grande valor.
Comecemos com o diálogo que se dá entre Neo e Morpheu no filme Matrix:
Neo: O que é Matrix?
Morfeu: Você quer saber o que é Matrix? Matrix está em toda parte […] é o mundo que acredita ser real para que não perceba a verdade.
Neo: Que verdade?
Morfeu: Que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu em cativeiro. Nasceu em uma prisão que não pode ver, cheirar ou tocar. Uma prisão para a sua mente.
Como vimos, podemos entender o filme Matrix como uma analogia ao Mito da Caverna de Platão (ou Alegoria da Caverna). Para os que não conhecem, a alegoria da caverna mostra indivíduos que cresceram em uma caverna, acorrentados, de modo que não pudessem ver a entrada da caverna, sendo capazes de enxergar, somente, sombras de outros homens, do mundo exterior, que se projetavam nas paredes da caverna. Esses prisioneiros não tinham como saber que havia todo um mundo fora daquela caverna e, por isso, tinham como única realidade aquelas sombras que eram projetadas. Eram incapazes de entender que aquelas sombras eram projeções. A tinham como realidade única e independente. Como seria se um daqueles conseguisse se libertar da corrente e sair da caverna? Ele provavelmente se assustaria ao ver o mundo pela primeira vez. Aquele primeiro conhecimento da realidade seria um pesadelo (assim como costuma ser tudo aquilo que é novo e contrário ao que acreditamos), mas, com o tempo, poderia se acostumar e, quem sabe, tentar mostrar a seus colegas sua recém-descoberta realidade. Como seriam as reações? Provavelmente negativas, normalmente indo do deboche à violência. Essa alegoria foi usada por Platão para mostrar que o homem normalmente vive na ignorância, tomando muitas coisas por verdade universal devido à uma incapacidade de ver além dos sentidos. É importante entendermos essa analogia para que possamos perceber, de uma vez por todas, que muitas ilusões vem justamente do costume que temos de somente acreditar naquilo que podemos ver, ouvir, cheirar e tocar. As ilusões mais perigosas são justamente aquelas mais capazes de satisfazer nossos sentidos. Ao receberem uma forma concreta, somos praticamente forçados, por nossos sentidos, a aceitá-las.
O filósofo Mário Ferreira dos Santos abre seu livro, Filosofia e Cosmovisão, nos dando uma ideia dessa ilusão dos sentidos:
“Que diríamos de quem quisesse dar valor apenas aos fatos sensíveis e proclamasse, por exemplo: ‘Basta a experiência dos meus sentidos’. E ainda acrescentasse: ‘…o que os meus olhos vêem é a única verdade, e eles são a medida de toda a verdade’. Ou então: ‘…só o que ouço é para mim rigorosamente exato’. Seria o mesmo se os sentidos, ao voltarem-se para o cérebro, dissessem: ‘Tuas generalizações, tuas coordenações são puramente abstratas, meras locubrações sem nenhuma realidade. Nós não precisamos de tuas reflexões sobre nossos atos; basta-nos apenas sentir, e nada mais. O que tu fazes é obra morta, anquilosada, estática; um pobre fantasma criado por ti’.” (Mário Ferreira dos Santos, Filosofia e Cosmovisão)
Fica claro que, muitas vezes, são os nossos próprios sentidos que nos atraem para as ilusões. Temos uma tendência a tratar recortes da realidade como se fossem toda a realidade. As pessoas costumam cair no erro da totalização, analisando pequenas amostras e considerando seus padrões observados como a realidade de não só daquela amostragem, mas de todo o resto. Dessa forma (mas, não apenas por isso), cada vez mais e mais matrix são criadas, seja pela necessidade, seja pela ignorância, seja pelo medo. Poderíamos criar diversas classificações, como matrix política, matrix profissional, matrix dos relacionamentos, matrix econômica, matrix religiosa, matrix científica. Ainda assim, jamais seriamos capazes de categorizar todos os tipos de matrix. Além disso, poderíamos também dizer que há, dentro de cada categoria de matrix, diversas subcategorias, além de outras dentro dessas. Uma hierarquia sem fim, se inflando, constantemente, em progressão geométrica.
São justamente aqueles que acreditam ser os mais racionais os que costumam acreditar em desculpas “científicas” para criar suas matrix baseadas em seus recortes da realidade. Como também nos mostra Mário Ferreira dos Santos na mesma obra:
“Pois bem. As ciências especializadas são como os sentidos; são predominantemente empíricas, experimentais. Mas a nossa experiência não é apenas esta. A inteligência regula nossas atividades, escolhe, seleciona, descobre relações que os sentidos não podem alcançar desde logo: mostra erros e ilusões que eles cometem e dos quais sofrem; corrige-os, melhora-os, adapta-os, ensina-os a procederem com mais cuidado, incita-os a alcançarem bases mais sólidas.“ (Mário Ferreira dos Santos, Filosofia e Cosmovisão)
Podemos dizer que a Matrix antecede, ultrapassa e é criadora do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Leva homens ao fundamentalismo religioso com a mesma rapidez que os leva ao ateísmo. É o produto criado pelas fraquezas do ser humano, pela dominação do forte pelo fraco com mentiras e, ao mesmo tempo, é a criadora de todas essas fraquezas, mentiras e traições. Enfim, a Matrix é a mãe do relativismo, da hipocrisia, das ilusões. Sua força é proporcional à fraqueza e ao apego do homem pelas ilusões. Ilusões que podem ser tanto abstratas, que nunca podemos ver, como também concretas, que só podemos ver superficialmente, focando somente na forma e ignorando a essência.
Porém, devemos tomar muito cuidado com uma coisa: Muitas vezes a própria ideia de que vivemos em uma Matrix já é uma Matrix.
#Lawlyet
terça-feira, 24 de outubro de 2017
Slogans e Chavões: “Temos que ter misericórdia”
O que a misericórdia está fazendo nessa série com slogans e chavões? É claro que não me refiro ao verdadeiro significado de misericórdia, mas ao truque sentimentalista bastante em roga em meios cristãos para, acredite, tentar validar valores anticristãos.
Falaremos então das confusão que gira em torno da palavra misericórdia, um dos conceitos mais importantes do cristianismo, pois é um dos atributos de Deus. E já que estamos falando de misericórdia, é apropriado a recorrer a Santa Faustina, secretária de misericórdia, que relata experiências místicas em seu Diário [1]:
“O primeiro atributo que o Senhor me deu a conhecer – foi a Sua santidade. Essa santidade é tão elevada que tremem diante Dele todas as potestades e virtudes. Os espíritos puros cobrem seu resto e mergulham em incessante adoração, e tem apenas uma palavra para exprimir a maior honra, isto é – Santo… A santidade de Deus derrama-se sobre Sua Igreja e sobre toda alma que nela vive – embora nem sempre com a mesma intensidade. Existem almas inteiramente divinizadas, porém outras que tão somente vivem.
O Senhor concedeu-me também o conhecimento do segundo atributo – o da Sua justiça. E este é tão imensa e penetrante que atinge o fundo do ser e tudo diante Dele é manifesto em toda a nudez da verdade, e nada Lhe pode resistir.
O terceiro atributo – é o amor e a misericórdia. E compreendi que o amor e a misericórdia é o maior atributo. É ele que une a criatura ao Criador. O mais imenso amor e abismo de misericórdia reconheço na encarnação do Verbo, na Sua Redenção; e foi aqui que reconheci que este é o maior atributo de Deus.” (D. 180)
Ainda sobre a misericórdia, em outra parte do diário, Jesus diz a Santa Faustina:
“Oh! Como Me fere a incredulidade da alma! Essa alma confessa que sou Santo e Justo e não crê que sou Misericórdia, não acredita na minha bondade. Até os demônios respeitam a minha justiça, mas não creem Minha bondade.
[…]
Diz que a misericórdia é o maior atributo de Deus. Todas as obras das Minhas mãos são coroadas pela misericórdia.” (D. 300)
Misericórdia representa, portanto, a bondade de Deus. Deus é bom! Ainda que respeitem a Justiça de Deus, os demônios escolheram por não querer acreditar nesta verdade: Deus é misericordioso; é amor; é bondade. Os anjos rebeldes, decaídos, recusaram eternamente a reconhecer o maior atributo de Deus.
O que confunde os cristãos ignorantes da própria doutrina é uma contradição aparente, portanto um paradoxo, sobre esses atributos de Deus.
- Temos que Deus, em sua Justiça, condena o pecador, havendo o risco da alma ser mandada para o inferno;
- Temos que Deus, em sua misericórdia, perdoa o pecador, podendo a alma obter a felicidade eterna no céu.
Considerando apenas o atributo da Justiça, algo que até os demônios reconhecem, teremos Deus por um carrasco e a alma, ao invés de amar a Deus, opta por obedecê-lo por temor, uma vez que não reconhece Sua bondade.
Considerando apenas o atributo da misericórdia, faz-se a imagem de um Deus que aceita tudo, que dá tudo, que não se zanga.
Deus, contudo, não é apenas justiça e não é apenas misericórdia, mas ambos. Como pode então aquele que tudo perdoa ser aquele que condena a alma ao inferno? Monsenhor de Segur [2] ajuda a esclarecer este paradoxo:
“Após a morte, a vontade dos condenados fica petrificada no pecado e no mal. Mas o que pode ser feito nesta vida para que um pecador se converta? Em primeiro lugar, como fora dito, há o tempo e a Graça que o bom [misericordioso] Deus sempre lhe dá. Mas assim é porque ele é livre e pode, com sua vontade, por uma escolha, voltar par ao lado de Deus. É por um ato de livre vontade, através da Graça desse Deus tão bondoso, o pecador muda o caminho, arrepende-se e o pobre filho pródigo retorna perdoado à casa paterna.
Todavia, no momento da morte, perde-se também a liberdade e a Graça. Acaba-se para sempre. Não se trata mais de escolher, mas de permanecer naquilo que se escolheu. Escolhendo-se o bem e a vida, você possuirá para sempre o bem e a vida. Mas se for uma escolha estúpida pelo mal e pela morte, você terá a morte. E a terá para sempre, pois receberá apenas aquilo que desejou. Esta é a eternidade das punições”
[…]
Desde o quarto século, o ilustre arcebispo de Constantinopla, São João Crisóstomo, um dia a colocou nesses termos: “Há quem diga: eu tive apenas alguns instantes para matar um homem ou cometer um adultério [3], e por um pecado que dura um instante terei de sofrer penas eternas? Certamente, porque o que Deus julga nos pecados, não é o tempo necessário para que ele seja praticado, mas a vontade que o fez cometê-lo.”
Deus é justo e bom. Justiça e misericórdia. Por sua justiça, pune. Por sua misericórdia, perdoa. Não apenas isso, por sua misericórdia, envia as graças para que a pessoa busque o arrependimento.
Eis a misericórdia. Deus envia a graça para resgatar o pecador. Se ele se arrepende, Deus perdoa; senão, rejeitando a graça, continua afastado. Eis a Justiça: ao fim da vida, a alma será julgada. Portanto, não é Deus que condena a alma, mas a alma que condena a si, pois, em sua liberdade, rejeitou a misericórdia de Deus.
Falando de modo mais direto, para tentar elucidar a questão. O perdão de Deus não é automático, há, com efeito, três condições para se obter o perdão divino:
- Arrependimento
- Confessar seus pecados ao sacerdote
- Cumprir a penitência com a disposição de não mais querer pecar
Deus perdoará tanto quanto houver arrependimento das faltas. Perdoará sempre que houve arrependimento e confissão sincera. O pressuposto para o perdão é o arrependimento.
Misericórdia consiste em um ato de reconhecer a miséria (que somos pecadores) do outro e (esse detalhe o pessoal costuma esquecer) se esforçar para tirar a pessoa da miséria! Não se trata de sentimento, mas de atitude concreta. Não se trata de “ter misericórdia”, mas de “praticá-la”. Deus é misericordioso porque é bom. Ele nos dá as graças necessárias para a salvação e está sempre disposto a perdoar nossos pecados. Deus quer que todos nós alcancemos o céu, mas ao mesmo tempo, sua Justiça respeita a liberdade humana. Sendo livre, o homem pode se orgulhar do pecado e, não se arrependendo, ser condenado ao inferno.
Não há, deste modo, misericórdia sem verdade. Não há misericórdia sem esforço de conversão, aceitando a graça que Deus nos envia para que habitemos o céu junto Dele. Diz Santa Faustina:
“Deus concede as graças de duas maneiras: pelas inspirações e pelas iluminações. Se pedimos uma graça, Deus a dará, mas queiramos aceita-la; todavia, para aceita-la, é necessária a renúncia de si mesmo. O amor não consiste em palavras nem em sentimentos, mas em atos. É um ato da vontade, é um dom, isto é, uma doação; a razão, a vontade, o coração – temos que exercitar essas três faculdades durante a oração.” (D. 392)
O Diário de Santa Faustina está repleto de exemplos e lições sobre obediência e cumprimento da vontade de Deus. O que mais agrada a Deus é quando uma alma, por amor a Deus, vontade própria, aceita obedecê-Lo em Sua Vontade. E reside na Vontade de Deus o símbolo da cruz, isto é, aceitar o sofrimento com fé, esperança e amor. Em resumo: conversão.
Para não restar dúvida quanto a isso, listemos então as 14 obras de misericórdias ensinadas pela Igreja:
As 14 Obras da Misericórdia
Obras Corporais: 1ª Dar de comer a quem tem fome; 2ª Dar de beber a quem tem sede; 3ª Vestir os nús; 4ª Dar pousada aos peregrinos; 5ª Assistir aos enfermos; 6ª Visitar os presos; 7ª Enterrar os mortos.
Obras Espirituais: 1ª Dar bons conselhos; 2ª Ensinar os ignorantes 3ª Corrigir os que erram; 4ª Consolar os tristes; 5ª Perdoar as injúrias; 6ª Sofrer com paciência as fraquezas donosso próximo; 7ª Rogar a Deus por vivos e defuntos.
Diante do exposto até aqui, torna-se vergonhoso o uso do termo misericórdia sem sentido objetivo, isto é, como slogan e chavão para tentar defender o indefensável.
Ora, a misericórdia serve para tirar a pessoa do pecado, não para justificá-lo. Quem é que faça isso, age como um agente do anticristo. Usar a misericórdia para defender o pecado, a tibieza e/ou o conformismo é astúcia demoníaca para que misericórdia seja usada em seu sentido oposto!
Lembro que eu e alguns colegas do trabalho discutíamos sobre uma questão moral da qual não me recordo. Contudo, lembro se tratar de pecado grave e, portanto, condenável ao inferno. Foi eu explicar isso que uma pessoa questionou: “tá, mas Deus não é misericórdia?”, no que tive que responder com a seriedade que exige o caso: “sim, exatamente por isso que é necessário se arrepender e renunciar a esse tipo de coisa. O perdão não é automático, é preciso querê-lo e buscá-lo”. Portanto, meu caro, arrependa-se.
#Augusto
[1] Santa Ir. Maria Faustina Kowalska. Diário – A Misericórdia Divina na minha Alma. 41º edição. Curitiba: Apostolado da Divina Misericórdia, 2014.[2] Monsenhor de Ségur. O Inferno – Se existe, o que é, como evitá-lo. Campinas: Ecclesiae, 2011.
[2] Monsenhor de Segur - O Inferno.
[2] Monsenhor de Segur - O Inferno.
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