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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Considerações sobre "Amor Líquido" – Parte 3


No capítulo 2 de “Amor Líquido”, o sociólogo Zigmunt Bauman comentou a respeito da ilusão do sexo sem amor, cujo resultado é a frustração e sofrimento que afeta inclusive a instituição familiar. O efeito do “amor líquido” nos relacionamentos é o afastamento e mudança de arranjos de relacionamento, sendo os contatos virtuais um exemplo prático dessa realidade.

A terceira parte do livro “Amor Líquido” possui um título sugestivo: “sobre a dificuldade de amar ao próximo”, uma clara alusão ao resumo dos mandamentos de Deus [Amar a Deus sobre toda as coisas e o próximo como a ti mesmo (Mt 22,37)].

Bauman inicia o capítulo com as provocações reducionistas de Freud contra este mandamento que foi o preceito fundador de nossa civilização:

  • É um dos preceitos fundamentais da vida civilizada, mas é também o que mais contrario o tipo de razão que a civilização promove: a razão do interesse próprio e da busca da felicidade.
  • Só pode ser aceito como “faz sentido”, via exortação teológica: acredite porque é absurdo;
  • “Por que devo fazer isso? Que benefício me trará?
  • Se eu amo alguém, ela ou ele deve ter merecido de alguma forma…
  • Essa exigência não trás evidências suficientes de que o estranho a que devo amar me ama ou demonstra por mim a mínimo consideração. Pode até, se lhe convier, não hesitar em injuriar, zombar, caluniar ou mostrar seu poder superior…
  • “qual é o objetivo de um preceito enunciado de modo tão solene se seu cumprimento não pode ser recomendado como algo razoável?”
Destes questionamentos, Freud conclui que se trata de “um mandamento que na verdade se justifica pelo fato de que nada mais contraria tão fortemente a natureza original do homem”. Bauman então prossegue:

“Tanto menor a probabilidade de uma norma ser obedecida, maior a obstinação com que tenderá a ser reafirmada. E a obrigação de amar o próximo talvez tenha menos probabilidade de ser obedecida do que qualquer outra. Quando o filósofo talmúdico Rabi Hillel foi desafiado por um possível convertido a explicar o ensinamento de Deus enquanto pudesse se sustentar numa perna só, ele ofereceu o “amar o próximo como a si mesmo” como a única resposta, embora completa, que encerra a totalidade dos mandamentos divinos.

Aceitar esse preceito é um ato de fé; um ato decisivo, pelo qual o ser humano rompe a couraça dos impulsos, ímpetos e predileções “naturais”, assume uma posição que se afasta da natureza, que é contrária a esta, e se torna o ser “não-natural” que, diferentemente das feras (e, na realidade, dos anjos, como apontou Aristóteles), os seres humanos são.

Aceitar o preceito do amor ao próximo é o ato de origem da humanidade. Todas as outras rotinas da coabitação humana, assim como suas ordens pré-estabelecidas ou retrospectivamente descobertas, são apenas uma lista (sempre incompleta) de notas de rodapé a esse preceito. Se ele fosse ignorado ou abandonado, não haveria ninguém para fazer essa lista ou refletir sobre sua incompletude.”

O amor, como pôde-se perceber, é o caminho para sair da animalidade. Animalidade esta que Freud encara como uma fatalidade do ser humano (crença refutada por Viktor Frankl). Freud foi incapaz de reconhecer a transcendência do amor, aludindo a capacidade do homem “amar” apenas segundo seu próprio interesse, ou seja, o erro de partida de Freud ao falar do amor foi confundi-lo com o “Amor Líquido”, confusão esta cada vez mais disseminada e praticada em nossos tempos pós-modernos.

– Passagem decisiva do instinto de sobrevivência para a moralidade

A passagem que resume as leis de Deus torna a moralidade uma parte da sobrevivência não do homem, mas da humanidade no humano. Enquanto a mera sobrevivência humana, a exemplo dos outros animais, não precisa de mandamento, uma vez que predomina-se um ambiente de lei do mais forte, o amor ao próximo como a si mesmo torna a sobrevivência humana diferente de qualquer outra criatura viva:
“o preceito do amor ao próximo desafia e interpela os instintos estabelecidos pela natureza, mas também o significado da sobrevivência por ela instituído, assim como o do amor-próprio que o protege.”

– Amor-próprio

Para termos amor-próprio, reflete Bauman, precisamos ser amados. A recusa do amor alimenta a auto-aversão. Sendo assim, devemos construir o amor-próprio a partir do amor que nos é oferecidos por outros.

Como saber que não fomos desconsiderados ou descartados? Como saber que há um amor que está prestes a aparecer e que somos dignos dele? Eis a resposta:
“Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos tranqüilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em consideração”

A partir disso, pode-se esquematizar o raciocínio de Bauman:

  • Para haver amor-próprio, a pessoa deve ser amada primeiro;
  • Se os outros me respeitam, então deve haver algo em mim que lhes posso oferecer. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou apenas um objetivo descartável que pode ser usado e jogado fora.
  • Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação “amar o próximo como a si mesmo” carrega a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas razões que estimulam o nosso amor-próprio;
  • “Amar o próximo como a si mesmo” evoca o desejo do próximo de ser reconhecido, admitido e confirmado a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não descartável.
“Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um — o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.”

Este pensamento de Bauman parece ser próximo ao princípio conservador de Russell Kirk a respeito da variabilidade.

– Dignidade Humana

Bauman usa de um discurso antiamericano, aproveitando-se da fala infeliz de uma porta-voz americana em sua justificativa a respeito do bloqueio econômico ao Iraque, para dizer algo que é bem certo:

“Não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos” é a desculpa favorita dos visionários, dos porta-vozes das visões oficialmente endossadas e dos generais que agem da mesma forma sob o comando dos porta-vozes. Essa fórmula transformou-se, com o passar dos anos, num verdadeiro slogan de nossos admiráveis tempos modernos.

Apesar de prosseguir incorporado de discurso esquerdista e de um espírito de utópica paz mundial, Bauman continua falando coisas profundas e relevantes a respeito da dignidade humana:

“A negação da dignidade humana deprecia o valor de qualquer causa que necessite dessa negação para afirmar a si mesma.”

Em seguida, o sociólogo parece encarnar de um espírito conservador para criticar os utópicos, cujas ideologias não são capazes de respeitar a dignidade humana, pelo contrário, o resultado prático dessas ideologias é, na realidade, o roubo, desvirtuamento e mutilação da dignidade.

Infelizmente, para estes visionários, parece difícil perceber que não consegue impor legalmente a perfeição humana. A mudança deve passar pela livre tentativa individual de cada um, no respeito e defesa da própria dignidade e das demais pessoas:

”(…) valor, o mais precioso dos valores humanos, o atributo sine qua non de humanidade, é uma vida de dignidade, não a sobrevivência a qualquer custo.”

– Desumanização e Holocausto

Bauman afirma que o direito do mais forte, mais astuto, engenhoso ou ardiloso de fazer o possível para sobreviver ao mais fraco e desafortunado é uma das lições mais horripilantes do Holocausto.

Para a filosofia do mais forte vigorar, é necessário que seja despido de todas as conotações éticas, inclusive a crua essência do jogo de soma zero da sobrevivência. Desde que você seja o mais forte, pode escapar impune, não importa o que tenha feito ao fraco. É a partir disso que se devasta moralmente as vítimas através do processo de desumanização. E isso foi verificado no Holocausto.

À medida que cresce a lista de atrocidades, maior a necessidade de desumanização das vítimas de modo não apenas impedir que as vítimas sejam ouvidas, mas para que sequer sejam objetos de atenção.

– Confiança

Bauman rejeita a visão de Antonina Zhelazkova, uma etnóloga que utiliza de determinismo para afirmar que o ser humano não tem capacidade de frear os impulsos oriundos dos ressentimentos [ela deve adorar Freud e Nietzsche]. Ela não aceita que as pessoas estejam em posição de combater o impulso de se tornarem assassinas depois de terem sido vítimas. Na visão da etnóloga, isso seria exigir em demasia das pessoas. Por conta disso, a forma da vítima escapar à dor e à humilhação seria matar ou humilhar seu algoz ou benfeitor. Ou descontar suas frustrações nas pessoas mais fracas.

Provavelmente Zhelazkova nunca assistiu ao Chaves que, apesar de ser uma clássica série de humor, iluminou várias gerações com um ensinamento muito sério: “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.

A esse respeito, Bauman também trás uma visão mais otimista de Logstrup, que afirma que “é uma característica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural confiança. Só em circunstância especial desconfiamos antecipadamente de um estranho… Em circunstância normais, contudo, nós aceitamos a palavra do estranho e não duvidamos dele até que tenhamos uma razão particular para isso. Nunca suspeitamos da falsidade de uma pessoa até que a tenhamos apanhado numa mentira.”

Com duas visões diferentes, Zygmunt pondera que as pessoas tendem a tecer suas memórias do mundo utilizando o fio de suas experiências. No caso de Logstrup, um homem muito bem casado, um seguro emprego como professor de teologia e vivendo em uma tranquila e pequena paróquia da Ilha de Funen. 

Referente às pessoas da pós-modernidade, contudo, a visão otimista estaria em desacordo com o que é insinuado pelas narrativas comuns da experiência humana e recomendado pelas estratégias de vida que lhes são apresentadas no dia-a-dia. A mídia, representado mais claramente nos populares reality shows, transmitem uma imagem bem diferente: “Não confie em ninguém”, invertendo a idéia de Logstrupe: “É uma característica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural suspeita.”

Segundo Bauman “esses espetáculos televisivos que tomaram milhões de espectadores de assalta e imediatamente capturaram sua imaginação eram ensaios públicos sobre a descartabilidade do ser humano.” A mensagem remente à triste verdade do mundo darwiniano (estado selvagem): o que vale é a sobrevivência do mais forte.

“Os outros são, em primeiro lugar e acima de tudo, competidores, tramando como qualquer competidor, cavando buracos, preparando emboscadas, torcendo para que venhamos a tropeçar e cair. Os trunfos que ajudam os vencedores a superar a concorrência e emergir triunfantes da batalha impiedosa são de muitos tipos, variando da autoconfiança ruidosa à humilde auto-aniquilação. E no entanto, independente do estratagema empregado, dos trunfos dos sobreviventes e das deficiências dos perdedores, a história da sobrevivência tende a se desenvolver da mesma e monótona maneira: num jogo de sobrevivência, confiança, compaixão e clemência (os atributos supremos de Logstrup) são fatores suicidas. Se você não for mais duro e menos escrupuloso do que todos os outros, será liquidado por eles, com ou sem remorso. Estamos de volta à triste verdade do mundo darwiniano: é o mais apto que invariavelmente sobrevive. Ou melhor, a sobrevivência é a derradeira prova de aptidão.”

É lamentado que os jovens, por não serem leitores de livros, e particularmente de livros antigos, possuem dificuldade de refletir sobre a mensagem que, graças a programas como Big Brother, já se tornou senso comum da pós-modernidade que Bauman atesta:

“Eles insistiram [..] em afirmar que este é um mundo duro, feito para pessoas duras: um mundo de indivíduos relegados a se basearem unicamente em seus próprios ardis, tentando ultrapassar e superar uns aos outros. Ao conhecer um estranho você precisa em primeiro lugar de vigilância, e em segundo e terceiro lugares de vigilância. Aproximar-se, colocar-se ombro a ombro e trabalhar em equipe fazem muito sentido enquanto o ajudam a avançar em seu próprio caminho. Mas perdem a razão de ser quando não trazem mais benefícios, ou quando estes — esperada ou apenas possivelmente — são menores que os obtidos evitando-se compromissos e cancelando-se obrigações.”

– O relacionamento puro

O “Amor Líquido” remonta a um estado de “relacionamento puro”, na qual se entra “pelo que cada um pode ganhar” e se “continua apenas enquanto ambas as partes imaginem que estão proporcionando a cada uma das satisfações suficientes para permanecerem na relação”.

Para Anthony Giddens, o “relacionamento puro”:

“não é, como o casamento um dia foi, uma “condição natural” cuja durabilidade possa ser tomada como algo garantido, a não ser em circunstâncias extremas. É uma característica do relacionamento puro que ele possa ser rompido, mais ou menos ao bel-prazer, por qualquer um dos parceiros e a qualquer momento. Para que uma relação seja mantida, é necessária a possibilidade de compromisso duradouro. Mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a um grande sofrimento no futuro, caso ela venha a ser dissolvida.”

No sentido do “relacionamento puro”, o casamento como compromisso incondicional (na alegria e na tristeza, na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença, até que a morte nos separe) é encarado como uma armadilha que se deve evitar a todo custo. A situação complica ainda mais, pois não é suficiente o comprometimento de fidelidade, tido como arriscado, seja investido por apenas uma parte, pois mesmo que uma pessoa assuma seriamente o compromisso, se a outra estiver no espírito do “relacionamento puro” poderá abandonar o barco a hora que achar conveniente. No “relacionamento puro”, o requisito para se terminar a relação independe do desejo do outro. A partir do momento que as coisas esfriam, ou que “a grama do vizinho pareça ser mais verde”, etc. uma das partes se sente livre para romper.

– Conspiração contra a confiança

Segundo Bauman, a confiança foi condenada a uma vida cheia de frustração. Pessoas (sozinhas, individualmente ou em conjunto) empresas, partidos, comunidades, grandes causas ou padrões de vida investidos com autoridade de guiar nossa existência frequentemente deixam de compensar a devoção.

“De qualquer forma, é raro serem modelos de coerência e continuidade a longo prazo. Dificilmente há um único ponto de referência sobre o qual se possa concentrar a atenção de modo fidedigno e seguro, para que os desorientados possam ser eximidos do fatigante dever da vigilância constante e das incessantes retrações de passos dados ou pretendidos. Não se dispõe de pontos de orientação que pareçam ter uma expectativa de vida mais longa do que os próprios necessitados de orientação, por mais curtas que possam ser suas existências físicas. A experiência individual aponta obstinadamente para o eu como o eixo mais provável da duração e da continuidade procuradas com tanta avidez.”

Essa desorientação faz surgir uma pressão para a “necessidade de moral”, contudo – alerta Bauman, a moral não pode ser guiada pela expectativa de lucro, conforto, glória ou auto-engrandecimento. Voltandose a Logstrup, Bauman para explicar que nos atos morais “exclui-se um motivo ulterior”. Sendo assim, a demanda ética – pressão “objetiva” para que sejamos éticos, necessária pelo fato de compartilharmos o planeta com os outros, é e deve ser silenciosa, uma vez que “obediência à demanda ética” pode facilmente transformar-se (se deformada e distorcida) num motivo de conduta.

Em termos práticos, ela significa que, não importa o quanto um ser humano possa ressentir-se por ter sido abandonado (em última instância) à sua própria deliberação e responsabilidade, é precisamente esse abandono que contém a esperança de um convívio moralmente fecundo. A esperança — não a certeza. Em outras palavras, é que a incerteza é a terra natal da pessoa ética e o único solo em que a moral pode brotar e florescer.

Mas, como Logstrup prontamente nos assinala, é a “imediação do contato humano” que é “sustentada pelas expressões imediatas de vida”. Presumo que a conexão e o condicionamento mútuo ajam nos dois sentidos. A “imediação” parece desempenhar no pensamento de Logstrup um papel semelhante ao da “proximidade” nos textos de Levinas. As “expressões imediatas da vida” são disparadas pela proximidade, ou pela presença imediata de outro ser humano — fraco e vulnerável, sofrendo e precisando de auxílio. Somos desafiados pelo que vemos. E desafiados a agir — a ajudar, defender, trazer alívio, curar ou salvar.

– Expressão soberana da vida

Por mais que fale de “demanda moral” ou “demanda ética”, ela continuará à espera, pois o fato de encarará-la como uma necessidade já tira o caráter moral dela. Bauman pode parecer meio maluco nessa abordagem da moral, mas o que ele parece dizer, na realidade, é que a “demanda moral” de nosso tempo quer dar obrigações aos outros, sem antes lembrar do “eu”. O que seria, de fato, uma hipocrisia danada, o famoso “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. É dai que se tira a “expressão soberana da vida” que, ao contrário da “demanda ética”, sempre se realiza e se conclui prontamente – embora não por escolha, mas “de modo espontâneo, sem que se exija”.

Oposto ao “Amor Líquido”, seria fazer boas ações sem querer tirar lucro pessoal. O adversário da “expressão soberana da vida” é a “expressão constrangida”, que é induzida externamente (heterônoma em vez de autônoma, portanto). É uma expressão cujos motivos (desvirtuados como causas) se projetam sobre os agentes externos. Como exemplo de “expressão constrangida” temos a ofensa, o ciúme e inveja:

”Em cada caso, um traço marcante da conduta é o auto-engano destinado a ocultar as fontes genuínas da ação. Por exemplo, o indivíduo “tem uma opinião muito elevada de si mesmo para tolerar a idéia de ter agido erradamente, e assim apela à ofensa para desviar a atenção de seu próprio deslize, o que consegue identificando-se com a parte prejudicada … Obtendo-se satisfação em ser a parte prejudicada, deve-se inventar erros para alimentar a autocondescendência.” A natureza autônoma da ação é, portanto, suprimida — é a outra parte, acusada da má conduta original, do delito que deu origem a tudo, apresentada como o verdadeiro ator do drama. O eu permanece, assim, totalmente do lado receptor. Sofre as ações dos outros em vez de ser um ator por direito próprio.”

Esse tipo de postura parecer reforçar-se a si mesmo. Para manter a credibilidade do “eu”, o ultraje imputado à outra parte deve ser mais assustador e acima de tudo menos curável ou redimível, e os consequentes sofrimentos das vítimas devem ser declarados ainda mais abomináveis e dolorosos. A tática consiste em ficar sempre na ofensiva. Se alguém criticá-lo, suba a crítica sobre a pessoa. No linguajar popular, trata-se de “falar dos podres” em relação à pessoa quando for confrontado pela mesma. Com isso, seu erro passa a ser escondido no erro do outro.

É evidente então que para dar asas à “expressão soberana da vida” – uma expressão se se manifesta, acima de tudo, na confiança, na misericórdia e na compaixão – é preciso superar as restrições autoimpostas mediante o desmascaramento e desvalidação do auto-engano, ou seja, é preciso superar seus próprios erros para diminuir a eficácia da “expressão constrangida”.

O terceiro capítulo do livro continua com o sociólogo analisando o problema das cidades urbanas que, por serem complexos e muitas vezes especulativos, não será tratado aqui neste texto.

Para encerrar este capítulo, vale compartilha uma análise de Peter Kreeft sobre Freud ao que tange o assunto do “Amor Líquido”. O Capítulo 3 iniciou-se com Bauman trazendo as provocações do psicoanalista, encerraremos com Kreeft comentando sobre o que foi o grande promotor da revolução sexual e que, de certo modo, resume o conteúdo dos dois capítulos anteriores:

Na base da “revolução sexual” ocorrida na segunda metade do século XX,encontra-se uma enorme demanda por satisfação e uma confusão entre desejos e necessidades. Todo o ser humano normal experimenta desejos sexuais; no entanto, os pressupostos freudianos de que esses desejos seriam “necessidades” ou “direitos”, de que ninguém conseguiria viver sem satisfazê-los, ou de que reprimi-los prejudicaria a saúde psicológica, simplesmente não são verdade.

Essa confusão entre necessidades e desejos radica na negação dos valores objetivos e de uma lei moral natural igualmente objetiva. Ninguém fez tanto estrago nessa área como Freud, especialmente no que diz respeito à moral sexual. O atual ataque ao casamento e a família, que foi preparado por Freud, causou devastações maiores do que qualquer revolução ou guerra que jamais houve. Afinal, onde haveremos de aprender a lição mais valiosa da nossa vida, a do amor desprendido, senão em famílias estáveis que o ensinam na prática?


#Augusto