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quinta-feira, 9 de maio de 2019

O que é a Matrix?


Por mais comum que tenha se tornado o uso do termo Matrix, podemos ter certeza que são poucas as pessoas realmente entenderam seu significado. Tradicionalmente, alguns grupos de homens focados na discussão de temas como mulheres e relacionamentos (o maior exemplo é a Real), já vinham usando o termo para tentar explicar a dinâmica dos relacionamentos. Apesar disso, venho percebendo que até mesmo entre aqueles que foram capazes de entender a analogia, poucos foram realmente capazes de entender a essência de seu significado.

Apesar do conceito de Matrix ser comumente associado à alegoria da caverna de Platão, há também uma outra associação (que tem suas diferenças) com o filme Matrix. Por ora, veremos aqui seu uso geral (como é normalmente entendido e usado por esses grupos) pois, além de ser importante para o entendimento do sentido atual do termo, também é necessário para o entendimento dos próximos artigos deste blog. Falarei posteriormente sobre outro conceito que, mesmo completamente diferente e desconhecido dentro e fora destes grupos, também é de grande valor.

Comecemos com o diálogo que se dá entre Neo e Morpheu no filme Matrix:

Neo: O que é Matrix?
Morfeu: Você quer saber o que é Matrix? Matrix está em toda parte […] é o mundo que acredita ser real para que não perceba a verdade.
Neo: Que verdade?
Morfeu: Que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu em cativeiro. Nasceu em uma prisão que não pode ver, cheirar ou tocar. Uma prisão para a sua mente.

Como vimos, podemos entender o filme Matrix como uma analogia ao Mito da Caverna de Platão (ou Alegoria da Caverna). Para os que não conhecem, a alegoria da caverna mostra indivíduos que cresceram em uma caverna, acorrentados, de modo que não pudessem ver a entrada da caverna, sendo capazes de enxergar, somente, sombras de outros homens, do mundo exterior, que se projetavam nas paredes da caverna. Esses prisioneiros não tinham como saber que havia todo um mundo fora daquela caverna e, por isso, tinham como única realidade aquelas sombras que eram projetadas. Eram incapazes de entender que aquelas sombras eram projeções. A tinham como realidade única e independente. Como seria se um daqueles conseguisse se libertar da corrente e sair da caverna? Ele provavelmente se assustaria ao ver o mundo pela primeira vez. Aquele primeiro conhecimento da realidade seria um pesadelo (assim como costuma ser tudo aquilo que é novo e contrário ao que acreditamos), mas, com o tempo, poderia se acostumar e, quem sabe, tentar mostrar a seus colegas sua recém-descoberta realidade. Como seriam as reações? Provavelmente negativas, normalmente indo do deboche à violência. Essa alegoria foi usada por Platão para mostrar que o homem normalmente vive na ignorância, tomando muitas coisas por verdade universal devido à uma incapacidade de ver além dos sentidos. É importante entendermos essa analogia para que possamos perceber, de uma vez por todas, que muitas ilusões vem justamente do costume que temos de somente acreditar naquilo que podemos ver, ouvir, cheirar e tocar. As ilusões mais perigosas são justamente aquelas mais capazes de satisfazer nossos sentidos. Ao receberem uma forma concreta, somos praticamente forçados, por nossos sentidos, a aceitá-las.

O filósofo Mário Ferreira dos Santos abre seu livro, Filosofia e Cosmovisão, nos dando uma ideia dessa ilusão dos sentidos:

“Que diríamos de quem quisesse dar valor apenas aos fatos sensíveis e proclamasse, por exemplo: ‘Basta a experiência dos meus sentidos’. E ainda acrescentasse: ‘…o que os meus olhos vêem é a única verdade, e eles são a medida de toda a verdade’. Ou então: ‘…só o que ouço é para mim rigorosamente exato’. Seria o mesmo se os sentidos, ao voltarem-se para o cérebro, dissessem: ‘Tuas generalizações, tuas coordenações são puramente abstratas, meras locubrações sem nenhuma realidade.  Nós não precisamos de tuas reflexões sobre nossos atos; basta-nos apenas sentir, e nada mais. O que tu fazes é obra morta, anquilosada, estática; um pobre fantasma criado por ti’.” (Mário Ferreira dos Santos, Filosofia e Cosmovisão)

Fica claro que, muitas vezes, são os nossos próprios sentidos que nos atraem para as ilusões. Temos uma tendência a tratar recortes da realidade como se fossem toda a realidade. As pessoas costumam cair no erro da totalização, analisando pequenas amostras e considerando seus padrões observados como a realidade de não só daquela amostragem, mas de todo o resto. Dessa forma (mas, não apenas por isso), cada vez mais e mais matrix são criadas, seja pela necessidade, seja pela ignorância, seja pelo medo. Poderíamos criar diversas classificações, como matrix política, matrix profissional, matrix dos relacionamentos, matrix econômica, matrix religiosa, matrix científica. Ainda assim, jamais seriamos capazes de categorizar todos os tipos de matrix. Além disso, poderíamos também dizer que há, dentro de cada categoria de matrix, diversas subcategorias, além de outras dentro dessas. Uma hierarquia sem fim, se inflando, constantemente, em progressão geométrica.

São justamente aqueles que acreditam ser os mais racionais os que costumam acreditar em desculpas “científicas” para criar suas matrix baseadas em seus recortes da realidade. Como também nos mostra Mário Ferreira dos Santos na mesma obra:

“Pois bem. As ciências especializadas são como os sentidos; são predominantemente empíricas, experimentais. Mas a nossa experiência não é apenas esta. A inteligência regula nossas atividades, escolhe, seleciona, descobre relações que os sentidos não podem alcançar desde logo: mostra erros e ilusões que eles cometem e dos quais sofrem; corrige-os, melhora-os, adapta-os, ensina-os a procederem com mais cuidado, incita-os a alcançarem bases mais sólidas.“ (Mário Ferreira dos Santos, Filosofia e Cosmovisão)

Podemos dizer que a Matrix antecede, ultrapassa e é criadora do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Leva homens ao fundamentalismo religioso com a mesma rapidez que os leva ao ateísmo. É o produto criado pelas fraquezas do ser humano, pela dominação do forte pelo fraco com mentiras e, ao mesmo tempo, é a criadora de todas essas fraquezas, mentiras e traições. Enfim, a Matrix é a mãe do relativismo, da hipocrisia, das ilusões. Sua força é proporcional à fraqueza e ao apego do homem pelas ilusões. Ilusões que podem ser tanto abstratas, que nunca podemos ver, como também concretas, que só podemos ver superficialmente, focando somente na forma e ignorando a essência.

Porém, devemos tomar muito cuidado com uma coisa: Muitas vezes a própria ideia de que vivemos em uma Matrix já é uma Matrix.

#Lawlyet

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