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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Slogans e Chavões: “Temos que ter misericórdia”

O que a misericórdia está fazendo nessa série com slogans e chavões? É claro que não me refiro ao verdadeiro significado de misericórdia, mas ao truque sentimentalista bastante em roga em meios cristãos para, acredite, tentar validar valores anticristãos.

Falaremos então das confusão que gira em torno da palavra misericórdia, um dos conceitos mais importantes do cristianismo, pois é um dos atributos de Deus. E já que estamos falando de misericórdia, é apropriado a recorrer a Santa Faustina, secretária de misericórdia, que relata experiências místicas em seu Diário [1]:

“O primeiro atributo que o Senhor me deu a conhecer – foi a Sua santidade. Essa santidade é tão elevada que tremem diante Dele todas as potestades e virtudes. Os espíritos puros cobrem seu resto e mergulham em incessante adoração, e tem apenas uma palavra para exprimir a maior honra, isto é – Santo… A santidade de Deus derrama-se sobre Sua Igreja e sobre toda alma que nela vive – embora nem sempre com a mesma intensidade. Existem almas inteiramente divinizadas, porém outras que tão somente vivem.

O Senhor concedeu-me também o conhecimento do segundo atributo – o da Sua justiça. E este é tão imensa e penetrante que atinge o fundo do ser e tudo diante Dele é manifesto em toda a nudez da verdade, e nada Lhe pode resistir.

O terceiro atributo – é o amor e a misericórdia. E compreendi que o amor e a misericórdia é o maior atributo. É ele que une a criatura ao Criador. O mais imenso amor e abismo de misericórdia reconheço na encarnação do Verbo, na Sua Redenção; e foi aqui que reconheci que este é o maior atributo de Deus.” (D. 180)

Ainda sobre a misericórdia, em outra parte do diário, Jesus diz a Santa Faustina:

“Oh! Como Me fere a incredulidade da alma! Essa alma confessa que sou Santo e Justo e não crê que sou Misericórdia, não acredita na minha bondade. Até os demônios respeitam a minha justiça, mas não creem Minha bondade.

[…]

Diz que a misericórdia é o maior atributo de Deus. Todas as obras das Minhas mãos são coroadas pela misericórdia.” (D. 300)

Misericórdia representa, portanto, a bondade de Deus. Deus é bom! Ainda que respeitem a Justiça de Deus, os demônios escolheram por não querer acreditar nesta verdade: Deus é misericordioso; é amor; é bondade. Os anjos rebeldes, decaídos, recusaram eternamente a reconhecer o maior atributo de Deus.

O que confunde os cristãos ignorantes da própria doutrina é uma contradição aparente, portanto um paradoxo, sobre esses atributos de Deus.

  • Temos que Deus, em sua Justiça, condena o pecador, havendo o risco da alma ser mandada para o inferno;
  • Temos que Deus, em sua misericórdia, perdoa o pecador, podendo a alma obter a felicidade eterna no céu.
Considerando apenas o atributo da Justiça, algo que até os demônios reconhecem, teremos Deus por um carrasco e a alma, ao invés de amar a Deus, opta por obedecê-lo por temor, uma vez que não reconhece Sua bondade.

Considerando apenas o atributo da misericórdia, faz-se a imagem de um Deus que aceita tudo, que dá tudo, que não se zanga.

Deus, contudo, não é apenas justiça e não é apenas misericórdia, mas ambos. Como pode então aquele que tudo perdoa ser aquele que condena a alma ao inferno? Monsenhor de Segur [2] ajuda a esclarecer este paradoxo:

“Após a morte, a vontade dos condenados fica petrificada no pecado e no mal. Mas o que pode ser feito nesta vida para que um pecador se converta? Em primeiro lugar, como fora dito, há o tempo e a Graça que o bom [misericordioso] Deus sempre lhe dá. Mas assim é porque ele é livre e pode, com sua vontade, por uma escolha, voltar par ao lado de Deus. É por um ato de livre vontade, através da Graça desse Deus tão bondoso, o pecador muda o caminho, arrepende-se e o pobre filho pródigo retorna perdoado à casa paterna.

Todavia, no momento da morte, perde-se também a liberdade e a Graça. Acaba-se para sempre. Não se trata mais de escolher, mas de permanecer naquilo que se escolheu. Escolhendo-se o bem e a vida, você possuirá para sempre o bem e a vida. Mas se for uma escolha estúpida pelo mal e pela morte, você terá a morte. E a terá para sempre, pois receberá apenas aquilo que desejou. Esta é a eternidade das punições”

[…]

Desde o quarto século, o ilustre arcebispo de Constantinopla, São João Crisóstomo, um dia a colocou nesses termos: “Há quem diga: eu tive apenas alguns instantes para matar um homem ou cometer um adultério [3], e por um pecado que dura um instante terei de sofrer penas eternas? Certamente, porque o que Deus julga nos pecados, não é o tempo necessário para que ele seja praticado, mas a vontade que o fez cometê-lo.”

Deus é justo e bom. Justiça e misericórdia. Por sua justiça, pune. Por sua misericórdia, perdoa. Não apenas isso, por sua misericórdia, envia as graças para que a pessoa busque o arrependimento.

Eis a misericórdia. Deus envia a graça para resgatar o pecador. Se ele se arrepende, Deus perdoa; senão, rejeitando a graça, continua afastado. Eis a Justiça: ao fim da vida, a alma será julgada. Portanto, não é Deus que condena a alma, mas a alma que condena a si, pois, em sua liberdade, rejeitou a misericórdia de Deus.

Falando de modo mais direto, para tentar elucidar a questão. O perdão de Deus não é automático, há, com efeito, três condições para se obter o perdão divino:
  • Arrependimento
  • Confessar seus pecados ao sacerdote
  • Cumprir a penitência com a disposição de não mais querer pecar
Deus perdoará tanto quanto houver arrependimento das faltas. Perdoará sempre que houve arrependimento e confissão sincera. O pressuposto para o perdão é o arrependimento.

Misericórdia consiste em um ato de reconhecer a miséria (que somos pecadores) do outro e (esse detalhe o pessoal costuma esquecer) se esforçar para tirar a pessoa da miséria! Não se trata de sentimento, mas de atitude concreta. Não se trata de “ter misericórdia”, mas de “praticá-la”. Deus é misericordioso porque é bom. Ele nos dá as graças necessárias para a salvação e está sempre disposto a perdoar nossos pecados. Deus quer que todos nós alcancemos o céu, mas ao mesmo tempo, sua Justiça respeita a liberdade humana. Sendo livre, o homem pode se orgulhar do pecado e, não se arrependendo, ser condenado ao inferno.

Não há, deste modo, misericórdia sem verdade. Não há misericórdia sem esforço de conversão, aceitando a graça que Deus nos envia para que habitemos o céu junto Dele. Diz Santa Faustina:

“Deus concede as graças de duas maneiras: pelas inspirações e pelas iluminações. Se pedimos uma graça, Deus a dará, mas queiramos aceita-la; todavia, para aceita-la, é necessária a renúncia de si mesmo. O amor não consiste em palavras nem em sentimentos, mas em atos. É um ato da vontade, é um dom, isto é, uma doação; a razão, a vontade, o coração – temos que exercitar essas três faculdades durante a oração.” (D. 392)

O Diário de Santa Faustina está repleto de exemplos e lições sobre obediência e cumprimento da vontade de Deus. O que mais agrada a Deus é quando uma alma, por amor a Deus, vontade própria, aceita obedecê-Lo em Sua Vontade. E reside na Vontade de Deus o símbolo da cruz, isto é, aceitar o sofrimento com fé, esperança e amor. Em resumo: conversão.

Para não restar dúvida quanto a isso, listemos então as 14 obras de misericórdias ensinadas pela Igreja:

As 14 Obras da Misericórdia

Obras Corporais: 1ª Dar de comer a quem tem fome; 2ª Dar de beber a quem tem sede; 3ª Vestir os nús; 4ª Dar pousada aos peregrinos; 5ª Assistir aos enfermos; 6ª Visitar os presos; 7ª Enterrar os mortos.

Obras Espirituais: 1ª Dar bons conselhos; 2ª Ensinar os ignorantes 3ª Corrigir os que erram; 4ª Consolar os tristes; 5ª Perdoar as injúrias; 6ª Sofrer com paciência as fraquezas donosso próximo; 7ª Rogar a Deus por vivos e defuntos.

Diante do exposto até aqui, torna-se vergonhoso o uso do termo misericórdia sem sentido objetivo, isto é, como slogan e chavão para tentar defender o indefensável.

Ora, a misericórdia serve para tirar a pessoa do pecado, não para justificá-lo. Quem é que faça isso, age como um agente do anticristo. Usar a misericórdia para defender o pecado, a tibieza e/ou o conformismo é astúcia demoníaca para que misericórdia seja usada em seu sentido oposto!

Lembro que eu e alguns colegas do trabalho discutíamos sobre uma questão moral da qual não me recordo. Contudo, lembro se tratar de pecado grave e, portanto, condenável ao inferno. Foi eu explicar isso que uma pessoa questionou: “tá, mas Deus não é misericórdia?”, no que tive que responder com a seriedade que exige o caso: “sim, exatamente por isso que é necessário se arrepender e renunciar a esse tipo de coisa. O perdão não é automático, é preciso querê-lo e buscá-lo”. Portanto, meu caro, arrependa-se.

#Augusto

Notas:
[1] Santa Ir. Maria Faustina Kowalska. Diário – A Misericórdia Divina na minha Alma. 41º edição. Curitiba: Apostolado da Divina Misericórdia, 2014.[2] Monsenhor de Ségur. O Inferno – Se existe, o que é, como evitá-lo. Campinas: Ecclesiae, 2011.
[2] Monsenhor de Segur - O Inferno.

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