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terça-feira, 16 de julho de 2019

A religião dos neopagãos

Uma das convicções do shibumismo é que estamos imersos em um neopaganismo, isto é, cultuação de falsos deuses. Dentre esses falsos deuses configura Asmodeu, o deus do sexo.

Em uma sociedade deste tipo, onde até mesmo o conservadorismo se ajoelha à revolução sexual (conceituados no shibumismo como conservadiarismo), foi com alegria que descobrimos em Peter Kreeft, filósofo católico, com uma visão semelhante sobre o problema.

Em “Como Vencer a Guerra Cultural”, Kreeft elenca o sexo como a radical mudança de nossa sociedade moderna, ou se preferir, pós-moderna. Estando como peixes que não enxergam a água no aquário, parece que os “construtores/renovadores” da “alta cultura” – os “conservadores” brasileiros – não atentam para isso. Não sendo por acaso que cunhamos o conceito de direita punheta, que não custa explicar novamente. Direita punheta são opositores do esquerdismo, cientes do marxismo cultural, e portanto da guerra cultural, mas que se negam a batalhar na raiz que nutre e fortalece o aparato revolucionário moderno: a revolução sexual. E, na maioria dos casos, não é mera omissão, é aceitação mesmo. É como se dissessem: ‘é que vemos a liberdade sexual como progresso’.

Não é surpreendente quando se olha para debaixo do pano e se descobre que na verdade são liberais que se acham conservadores, pois se percebe o quão estão imbuídos de espírito burguês. O espírito burguês, definia Plínio Salgado, são as pessoas cujo fim da vida é gozar, seja pela luxuria, seja pela avareza.

Mas não é sobre os conservadiarismo que queremos falar. Voltemos sobre o tema central: o sexo como religião do neopaganismo. Em “Jesus: o maior filósofo que já existiu”, ao final do livro, Peter Kreeft comenta sobre o assunto, dando pistas donde surgiu toda essa mudança:

“Do ponto de vista de Freud, a religião é um substituto do sexo; da perspectiva de Cristo, o sexo é um substituto da religião. E um substituto bastante bom. De todas as coisas que Deus criou, o sexo é a melhor e um ícone natural do amor sobrenatural e de nosso destino sobrenatural. Apenas coisas muito boa podem ser cultuadas. Você não pode fazer uma religião a partir do encanamento ou do seguro”.

Ainda refletindo sobre esta inversão, Kreeft acrescenta mais adiante do capítulo:

“A religião não é um pálido substituto do sexo; mas o sexo é um pálido substituto da verdadeira religião; porque, como Tomás de Aquino diz: ‘Nenhum homem pode viver sem alegria: por isso, um homem privado da alegria espiritual volta-se para os prazeres carnais’ (ST II-II, 35, 4 e 2). A origem da revolução sexual é religiosa. Por essa razão, as exigências dela são tão inegociáveis”.

Dado isso, não podemos deixar de comentar sobre Freud e sua psicanálise. O brasileiro não adora pagar de psicanalista à toa, dando laudos psicológicos à torto e qualquer direito. É que a mente do cidadão aprendeu por osmose a pensar como um psicanalista. E isso não é bom. Adentremos na cabeça de um típico neopagão que, sem saber, ou melhor, pensando que pensa com a própria cabeça, na verdade está raciocinando em termos da pseudo-científica psicanálise.

Diz a psicanálise que desejos reprimidos ou frustrados vão para o inconsciente causando transtornos na pessoa. Daí vem a justificativa pagã para a punheta, por exemplo. Dizem os punheteiros que é preciso “descarregar”. Assim vale para o sexo: se não fizer sexo, é como se a pessoa fosse explodir. É basicamente com esse tipo de leviandade o assunto é encarado. E o pressuposto aceitam por desconhecimento é o do inconsciente controlando o consciente. Ou seja, na visão da psicanálise, não há vontade humana.

Mas isso não é o pior. O pior é que os neopagãos se acham livres. Tanto que glorificam o que acreditam ser a “liberdade” sexual. Curiosa liberdade essa que se não praticar, o inconsciente faria o consciente “explodir”. Percebe-se facilmente o quanto são reféns do vício e apenas fazem pose (chamamos no shibumismo de pose neopagã) de pessoas “independentes” e “livres”. Não tendo a legítima liberdade, só podem recorrer ao teatro.

Asmodeu, o deus do sexo, é um deus bem interessante. Fazem os pagãos prestarem culto a ele apelando para efeitos colaterais de desejo sexual reprimido. É o deus que joga a cenoura de um lado (sexo dá prazer) e o porrete do outro (se não fizer sexo, sua psique vai derreter) e assim o fraco pagão fica escravo de seu deus.

Desconhecem os pagãos que a virtude da castidade propicia ao homem o controle sobre o sexo. Assim, ele é capaz e consegue ficar sem fazer sexo sem explodir, pois o homem se tornou senhor do sexo e não o sexo senhor dele. Isso é a verdadeira liberdade. Asmodeu, como demônio que é, usa da mentira como método para levar a perdição.

E aí vem a ironia e o paradoxo mais interessante disso tudo. Por serem escravos do sexo, os pagãos se acham “experts” no assunto. Novamente é pose. Duas pessoas amadurecidas e que, portanto, controlam o apetite sexual, aproveitam muito mais a realidade e o prazer sexual. E o motivo é simples: por controlarem o sexo, não desvinculando a prática do amor e do leito conjugal, colhem o louro da função unitiva do sexo.

A mulher madura faz sexo por acredita na promessa de amor que seu amado fez (casamento). A mulher pagã faz sexo pelo desespero de achar que por esta estratégia, irá fazer o homem amá-la.

Nota-se que o sentido do sexo está invertido entre cristãos e pagãos. Contudo, a lógica teológica é a mesma. Pois veja: ambos acham que a fonte do amor é divina. Os pagãos fazem sexo tentando gerar o amor, pois tomam o sexo como deus. É diferente dos cristãos que encaram o sexo como expressão de um amor consumado pelo casamento: porque nos amamos, fazemos sexo como forma de concretizar nossa união mística.

Em suma, o pagão acha que o sexo gera amor; os cristão acham que o amor precede o sexo.

Recentemente li uma pessoa declarar no Facebook que achava ABSURDO (sim, ele escreveu em letras garrafais) o celibato e casar virgem.

O princípio teológico dessa afirmação está correto, posto que é absurdo viver sem deus. O problema, o erro do cidadão, é que ele cultua o sexo como deus, ou seja, um falso deus.

A moral sexual não é mero regrismo, não é mera proibição do “super ego”, moldado por influência de uma sociedade hipócrita, cuja libertação é necessária. Não, isso é pseudo-ciência, papo de psicanalista. É difícil ensinar ao pagão moderno que a moralidade sexual faz parte de uma realidade objetiva, porque ele encara o assunto como religião, ainda que irracional e não formal. É essa realidade que o Instituto Shibumi tenta evidenciar e que Peter Kreeft chama a atenção:

“O sexo é o deus do mundo, da nossa cultura. É nossa exigência mais não negociável. O ensinamento da Igreja fiel de Cristo a respeito do sexo é o principal motivo pelo qual o mundo odeia e teme a Igreja, pois ela tem uma atitude ‘julgadora’ em relação ao vício e à real religião da nossa sociedade.

Cristo modifica radicalmente a revolução sexual. Como ele faz isso? Não ao contrapor religião e sexo, mas ao contrapor a verdadeira e a falsa religião.

(…)

(…) quando você tem a coisa verdadeira, fica livre do vício da imagem dela. Quando você tem um relacionamento de amor (ágape) com Deus, liberta-se do relacionamento de amor (eros) com as criaturas. E apenas aí, apenas quando não precisamos desesperadamente das criaturas, podemos usufruir e apreciar as criaturas livremente. O alcoólatra não está livre para apreciar o álcool, o viciado em sexo não está livre para apreciar o sexo.”

#Augusto

terça-feira, 2 de julho de 2019

Dois discursos de cunho ateísta

Há dois discursos do lado ateu que me chama a atenção. O primeiro é dizer, ao melhor estilo de Bertrand Russel, que não existe evidência de Deus. Alegação deveras polêmica, mas o caso é que a falta de evidência não prova nem a existência e nem a ausência de Deus. Repare que aqui eu não estou refutando nada, só estou dizendo algo bastante óbvio: a falta de evidência não prova a ausência. Pode ser uma maneira de justificar uma posição, dizer um “não estou convencido”. Contudo, não estar convencido de algo não significa que esse algo não existe. Próximo ponto.

Agora, o top-top do discurso ateísta, em minha opinião, é o famoso “se Deus é bom, por que o mau existe?”. Se Deus é o amor supremo; bondade suprema, por que permite que o mal aflija seus filhos teoricamente amados pelo Criador? Este tipo de questionamento envolve, sem dúvidas, uma grande carga emotiva que pode ser comparada a uma criança pensar “se papai e mamãe me amam, por que não compram os presentes que eu quero?”. Só que esse tipo de discurso já foi exaustivamente rebatido por várias linhas de argumento teísta.

Lembro-me de assistir a um documentário sobre o Muro de Berlin, onde se apresentava casos de fugas bem sucedidas. Para fugir da opressão do lado oriental, várias pessoas arriscaram a vida para vencer o muro e chegar ao lado ocidental. Houve casos de fuga que foram bem sucedidos e era disso que descrevia o documentário. Ao final, um bem-sucedido fujão atesta: “a liberdade é o maior bem humano, mas só se dá conta disso quem a perdeu”. E esta é a chave: Deus, alegam os teístas, deu-nos liberdade. Liberdade que inclui o direito de rejeitá-lo e a capacidade de fazer o mal.

É bastante recorrente em filmes algum personagem ter que passar por testes para “provar o seu valor”. Compreensível, não? Bom, não é muito diferente com Deus. Quem fizer bom uso da liberdade e provar o seu valor, será recompensado na vida a após a morte. Quem não fizer bom uso, será condenado. Esta é, a grosso modo, a visão cristã.

Pode-se, naturalmente, rejeitar essa visão. Pode-se dizer que “não há evidência”. Prová-la cientificamente está fora de questão, pois, se verdadeiro, trata-se de uma realidade metafísica. Contudo, o que não se pode fazer, e infelizmente muitos abobados cedem a essa tentação, é dizer que tal visão é irracional ou desprovida de sentido.

O problema do mal de fato envolve bastante a emoção, mas do ponto de vista da razão, o questionamento da existência do mal não prova a ausência de Deus. Pior, a insistência em declarar irracionalidade onde não existe, pode ser comparada à criança mimada que faz biquinho porque não tem suas vontades obrigatoriamente satisfeitas. E aqui vem a observação mais reflexiva e o núcleo central da problemática: ficar preso a desejos não é liberdade, mas sua oposição. Referente à escravidão dos vícios, exista ou não Deus, muitas teologias as descrevem muito bem. Mesmo que Deus não exista, o valor da teologia e suas contribuições não podem ser negadas por conta de um mero capricho materialista.

Rejeitar esse tipo de observação por causa de capricho seria autossabotar a investigação da realidade. Como a religião se preocupa com a salvação da alma, ela também despeja esforços para compreender as tensões humanas e luta para pregar a pureza da liberdade.

#Augusto

quinta-feira, 9 de maio de 2019

O que é a Matrix?


Por mais comum que tenha se tornado o uso do termo Matrix, podemos ter certeza que são poucas as pessoas realmente entenderam seu significado. Tradicionalmente, alguns grupos de homens focados na discussão de temas como mulheres e relacionamentos (o maior exemplo é a Real), já vinham usando o termo para tentar explicar a dinâmica dos relacionamentos. Apesar disso, venho percebendo que até mesmo entre aqueles que foram capazes de entender a analogia, poucos foram realmente capazes de entender a essência de seu significado.

Apesar do conceito de Matrix ser comumente associado à alegoria da caverna de Platão, há também uma outra associação (que tem suas diferenças) com o filme Matrix. Por ora, veremos aqui seu uso geral (como é normalmente entendido e usado por esses grupos) pois, além de ser importante para o entendimento do sentido atual do termo, também é necessário para o entendimento dos próximos artigos deste blog. Falarei posteriormente sobre outro conceito que, mesmo completamente diferente e desconhecido dentro e fora destes grupos, também é de grande valor.

Comecemos com o diálogo que se dá entre Neo e Morpheu no filme Matrix:

Neo: O que é Matrix?
Morfeu: Você quer saber o que é Matrix? Matrix está em toda parte […] é o mundo que acredita ser real para que não perceba a verdade.
Neo: Que verdade?
Morfeu: Que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu em cativeiro. Nasceu em uma prisão que não pode ver, cheirar ou tocar. Uma prisão para a sua mente.

Como vimos, podemos entender o filme Matrix como uma analogia ao Mito da Caverna de Platão (ou Alegoria da Caverna). Para os que não conhecem, a alegoria da caverna mostra indivíduos que cresceram em uma caverna, acorrentados, de modo que não pudessem ver a entrada da caverna, sendo capazes de enxergar, somente, sombras de outros homens, do mundo exterior, que se projetavam nas paredes da caverna. Esses prisioneiros não tinham como saber que havia todo um mundo fora daquela caverna e, por isso, tinham como única realidade aquelas sombras que eram projetadas. Eram incapazes de entender que aquelas sombras eram projeções. A tinham como realidade única e independente. Como seria se um daqueles conseguisse se libertar da corrente e sair da caverna? Ele provavelmente se assustaria ao ver o mundo pela primeira vez. Aquele primeiro conhecimento da realidade seria um pesadelo (assim como costuma ser tudo aquilo que é novo e contrário ao que acreditamos), mas, com o tempo, poderia se acostumar e, quem sabe, tentar mostrar a seus colegas sua recém-descoberta realidade. Como seriam as reações? Provavelmente negativas, normalmente indo do deboche à violência. Essa alegoria foi usada por Platão para mostrar que o homem normalmente vive na ignorância, tomando muitas coisas por verdade universal devido à uma incapacidade de ver além dos sentidos. É importante entendermos essa analogia para que possamos perceber, de uma vez por todas, que muitas ilusões vem justamente do costume que temos de somente acreditar naquilo que podemos ver, ouvir, cheirar e tocar. As ilusões mais perigosas são justamente aquelas mais capazes de satisfazer nossos sentidos. Ao receberem uma forma concreta, somos praticamente forçados, por nossos sentidos, a aceitá-las.

O filósofo Mário Ferreira dos Santos abre seu livro, Filosofia e Cosmovisão, nos dando uma ideia dessa ilusão dos sentidos:

“Que diríamos de quem quisesse dar valor apenas aos fatos sensíveis e proclamasse, por exemplo: ‘Basta a experiência dos meus sentidos’. E ainda acrescentasse: ‘…o que os meus olhos vêem é a única verdade, e eles são a medida de toda a verdade’. Ou então: ‘…só o que ouço é para mim rigorosamente exato’. Seria o mesmo se os sentidos, ao voltarem-se para o cérebro, dissessem: ‘Tuas generalizações, tuas coordenações são puramente abstratas, meras locubrações sem nenhuma realidade.  Nós não precisamos de tuas reflexões sobre nossos atos; basta-nos apenas sentir, e nada mais. O que tu fazes é obra morta, anquilosada, estática; um pobre fantasma criado por ti’.” (Mário Ferreira dos Santos, Filosofia e Cosmovisão)

Fica claro que, muitas vezes, são os nossos próprios sentidos que nos atraem para as ilusões. Temos uma tendência a tratar recortes da realidade como se fossem toda a realidade. As pessoas costumam cair no erro da totalização, analisando pequenas amostras e considerando seus padrões observados como a realidade de não só daquela amostragem, mas de todo o resto. Dessa forma (mas, não apenas por isso), cada vez mais e mais matrix são criadas, seja pela necessidade, seja pela ignorância, seja pelo medo. Poderíamos criar diversas classificações, como matrix política, matrix profissional, matrix dos relacionamentos, matrix econômica, matrix religiosa, matrix científica. Ainda assim, jamais seriamos capazes de categorizar todos os tipos de matrix. Além disso, poderíamos também dizer que há, dentro de cada categoria de matrix, diversas subcategorias, além de outras dentro dessas. Uma hierarquia sem fim, se inflando, constantemente, em progressão geométrica.

São justamente aqueles que acreditam ser os mais racionais os que costumam acreditar em desculpas “científicas” para criar suas matrix baseadas em seus recortes da realidade. Como também nos mostra Mário Ferreira dos Santos na mesma obra:

“Pois bem. As ciências especializadas são como os sentidos; são predominantemente empíricas, experimentais. Mas a nossa experiência não é apenas esta. A inteligência regula nossas atividades, escolhe, seleciona, descobre relações que os sentidos não podem alcançar desde logo: mostra erros e ilusões que eles cometem e dos quais sofrem; corrige-os, melhora-os, adapta-os, ensina-os a procederem com mais cuidado, incita-os a alcançarem bases mais sólidas.“ (Mário Ferreira dos Santos, Filosofia e Cosmovisão)

Podemos dizer que a Matrix antecede, ultrapassa e é criadora do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Leva homens ao fundamentalismo religioso com a mesma rapidez que os leva ao ateísmo. É o produto criado pelas fraquezas do ser humano, pela dominação do forte pelo fraco com mentiras e, ao mesmo tempo, é a criadora de todas essas fraquezas, mentiras e traições. Enfim, a Matrix é a mãe do relativismo, da hipocrisia, das ilusões. Sua força é proporcional à fraqueza e ao apego do homem pelas ilusões. Ilusões que podem ser tanto abstratas, que nunca podemos ver, como também concretas, que só podemos ver superficialmente, focando somente na forma e ignorando a essência.

Porém, devemos tomar muito cuidado com uma coisa: Muitas vezes a própria ideia de que vivemos em uma Matrix já é uma Matrix.

#Lawlyet