
Há dois discursos do lado ateu que me chama a atenção. O primeiro é dizer, ao melhor estilo de Bertrand Russel, que não existe evidência de Deus. Alegação deveras polêmica, mas o caso é que a falta de evidência não prova nem a existência e nem a ausência de Deus. Repare que aqui eu não estou refutando nada, só estou dizendo algo bastante óbvio: a falta de evidência não prova a ausência. Pode ser uma maneira de justificar uma posição, dizer um “não estou convencido”. Contudo, não estar convencido de algo não significa que esse algo não existe. Próximo ponto.
Agora, o top-top do discurso ateísta, em minha opinião, é o famoso “se Deus é bom, por que o mau existe?”. Se Deus é o amor supremo; bondade suprema, por que permite que o mal aflija seus filhos teoricamente amados pelo Criador? Este tipo de questionamento envolve, sem dúvidas, uma grande carga emotiva que pode ser comparada a uma criança pensar “se papai e mamãe me amam, por que não compram os presentes que eu quero?”. Só que esse tipo de discurso já foi exaustivamente rebatido por várias linhas de argumento teísta.
Lembro-me de assistir a um documentário sobre o Muro de Berlin, onde se apresentava casos de fugas bem sucedidas. Para fugir da opressão do lado oriental, várias pessoas arriscaram a vida para vencer o muro e chegar ao lado ocidental. Houve casos de fuga que foram bem sucedidos e era disso que descrevia o documentário. Ao final, um bem-sucedido fujão atesta: “a liberdade é o maior bem humano, mas só se dá conta disso quem a perdeu”. E esta é a chave: Deus, alegam os teístas, deu-nos liberdade. Liberdade que inclui o direito de rejeitá-lo e a capacidade de fazer o mal.
É bastante recorrente em filmes algum personagem ter que passar por testes para “provar o seu valor”. Compreensível, não? Bom, não é muito diferente com Deus. Quem fizer bom uso da liberdade e provar o seu valor, será recompensado na vida a após a morte. Quem não fizer bom uso, será condenado. Esta é, a grosso modo, a visão cristã.
Pode-se, naturalmente, rejeitar essa visão. Pode-se dizer que “não há evidência”. Prová-la cientificamente está fora de questão, pois, se verdadeiro, trata-se de uma realidade metafísica. Contudo, o que não se pode fazer, e infelizmente muitos abobados cedem a essa tentação, é dizer que tal visão é irracional ou desprovida de sentido.
O problema do mal de fato envolve bastante a emoção, mas do ponto de vista da razão, o questionamento da existência do mal não prova a ausência de Deus. Pior, a insistência em declarar irracionalidade onde não existe, pode ser comparada à criança mimada que faz biquinho porque não tem suas vontades obrigatoriamente satisfeitas. E aqui vem a observação mais reflexiva e o núcleo central da problemática: ficar preso a desejos não é liberdade, mas sua oposição. Referente à escravidão dos vícios, exista ou não Deus, muitas teologias as descrevem muito bem. Mesmo que Deus não exista, o valor da teologia e suas contribuições não podem ser negadas por conta de um mero capricho materialista.
Rejeitar esse tipo de observação por causa de capricho seria autossabotar a investigação da realidade. Como a religião se preocupa com a salvação da alma, ela também despeja esforços para compreender as tensões humanas e luta para pregar a pureza da liberdade.
#Augusto
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