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domingo, 17 de agosto de 2014

Em busca de Sentido – Viktor Frankl


Em tempos de guerra cultural onde um dos lados luta pela utópica produção do “novo homem”, também referido pelos pensadores revolucionários como processo de “libertação”, temos em Viktor Frankl o resgate de verdades essenciais para o homem de sempre.

O novo homem não é possível. A premissa para produção do “novo homem” é falsa, contudo diversas correntes ideológicas insistem no empreendimento que considera o homem como ser completamente material, podendo ser ajustado como um burro atrás de uma cenoura através da modificação do ambiente. Ou seja, investem de modo que o “novo homem” emerja da destruição do velho, através de todo um robusto processo de manipulação.

A experiência de Frankl nos campos de contrações nazistas, contudo, mostrou o contrário. Por mais que o ambiente externo possa ser modificado, a liberdade do homem permanece inquebrável internamente, ou seja, na inspiração e nos anseios da alma. Como judeu que sofreu nos campos de concentração nazista, ele viu os dois lados da moeda: tanto homens que se tornaram cruel e sádicos, quanto homens transformados em santos, que arriscava a vida para amenizar, nem que fosse um pouco, a dor do próximo.

A partir das experiência no campo de concentração, Frankl desenvolveu a logoterapia. O paradigma é até simples de entender. Enquanto muitos no campo de concentração pensavam “Será que eu vou sair com vida do campo de concentração? Caso contrário, todo esse sofrimento não tem sentido”. Frankl levantada a questão de um modo um pouco, mas profundamente, diferente: “será que tem sentido todo esse sofrimento, toda essa morte ao nosso redor? Caso contrário, em última análise não faz sentido sobreviver; uma vida cujo sentido depende de semelhante eventualidade – escapar ou não escapar – em última análise nem valeria a pena ser vivida.” Eis a grande finalidade da logoteraria: a busca do sentido, inclusive (mas não apenas) no sofrimento.

Na atual sociedade moderna onde as pessoas estão mal condicionadas a enxergar a felicidade como meta e a infelicidade como sintoma de desajuste, a terceira corrente de psicoterapia de Viena alerta que “esse sistema de valores poderia ser responsável pela circunstância de o fardo da infelicidade inevitável ser acrescido da infelicidade pelo fato de a pessoa ser infeliz” e que a pessoa “não só é infeliz, mas também tem vergonha de ser infeliz”.

Por estarmos imersos em uma sociedade de idolatria aos valores jovens e rebeldes (canalhas, segundo Nelson Rodrigues), pode parecer que Frankl está sendo pessimista. Falso. A grandiosidade da descrição da logoterapia está justamente em sua profundidade. Como podemos notar quando o psicoterapeuta aborta o conceito de vazio existencial:

O vazio existencial é um fenômeno muito difundido no século XX. Isto é compreensível; pode ser atribuído a uma dupla perda sofrida pelo ser humano desde que se tornou um ser verdadeiramente humano. No início da história, o homem foi perdendo alguns dos instintos animais básicos que regulam o comportamento do animal e asseguram sua existência. Tal segurança, assim como o paraíso, está cerrada ao ser humano para todo o sempre. Ele precisa fazer opções. Acresce-se ainda que o ser humano sofreu mais outra perda em seu desenvolvimento mais recente. As tradições, que serviam de apoio para seu comportamento, atualmente vêm diminuindo com grande rapidez. Nenhum instinto lhe diz o que deve fazer e não há tradição que lhe diga o que ele deveria fazer; às vezes ele não sabe sequer o que deseja fazer. Em vez disso, ele deseja fazer o que os outros fazem (conformismo), ou ele faz o que outras pessoas querem que ele faça (totalitarismo).

Um levantamento estatístico recente revelou que entre os meus alunos europeus, 25% mostravam um grau mais ou menos acentuado de vazio existencial. Entre meus alunos norte-americanos a porcentagem não era de 25, mas de 60%. O vácuo existencial se manifesta principalmente num estado de tédio. Agora podemos entender por que Schopenhauer disse que, aparentemente, a humanidade estava fadada a oscilar eternamente entre os dois extremos de angústia e tédio. É concreto que atualmente o tédio está causando e certamente trazendo aos psiquiatras mais problemas de que o faz a angústia. E estes problemas estão se tornando cada vez mais agudos, uma vez que o crescente processo de automação provavelmente conduzirá a um aumento enorme nas horas de lazer do trabalhador médio. Lastimável é que muitos deles não saberão o que fazer com seu tempo livre.

Pensemos, por exemplo, na “neurose dominical”, aquela espécie de depressão que acomete pessoas que se dão conta da falta de conteúdo de suas vidas quando passa o corre-corre da semana atarefada e o vazio dentro delas se torna manifesto. Não são poucos os casos de suicídio que podem ser atribuídos a este vazio existencial. Fenômenos tão difundidos como depressão, agressão e vício não podem ser entendidos se não reconhecermos o vazio existencial subjacente a eles. O mesmo é válido também para crises de aposentados e idosos.

Existem ainda diversas máscaras e disfarces sob os quais transparece o vazio existencial. Às vezes a vontade de sentido frustrada é vicariamente compensada por uma vontade de poder, incluindo a sua mais primitiva forma, que é a vontade de dinheiro. Em outros casos, o lugar da vontade de sentido frustrada é tomado pela vontade de prazer. É por isso que muitas vezes a frustração existencial acaba em compensação sexual. Podemos observar nestes casos que a libido sexual assume proporções descabidas no vácuo existencial.

Algo análogo ocorre em casos de neurose. Existem certos tipos de mecanismos retro-alimentadores e de configurações tipo círculo vicioso que ainda discutirei abaixo. Pode-se observar em casos e mais casos, entretanto, que esta sintomatologia invadiu um vácuo existencial no qual ela continua em plena florescência. No caso desses pacientes não estamos lidando com neuroses noogênicas. Entretanto, jamais conseguiremos que o paciente supere a sua condição se não suplementarmos o tratamento psicoterápico com logoterapia. Isto porque, ao se preencher o vácuo existencial, o paciente estará prevenido contra relapsos. Por isso a logoterapia é indicada não só em casos noogênicos, como foi ressaltado aqui, mas também em casos psicogênicos, e às vezes mesmo em “(pseudo) neuroses somatogênicas”. Sob esta luz se justifica uma afirmação feita certa vez por Magda B. Arnold: “Toda terapia precisa, de algum modo, por mais restrito que seja, ser também logoterapia.”

A logoterapia é ampla porque não ignora a existência da alma humana e, sobretudo, do valor da dignidade humana. Isso fica nítido quando é resgatado a questão do amor, cujo significado vem sendo sumariamente distorcido em nossos tempos:

Amor é a única maneira de captar outro ser humano no íntimo da sua personalidade. Ninguém consegue ter consciência plena da essência última de outro ser humano sem amá-lo. Por seu amor a pessoa se torna capaz de ver os traços característicos e as feições essenciais do seu amado; mais ainda, ela vê o que está potencialmente contido nele, aquilo que ainda não está, mas deveria ser realizado. Além disso, através do seu amar a pessoa que ama capacita a pessoa amada a realizar estas potencialidades. Conscientizando-a do que ela pode ser e do que deveria vir a ser, aquele que ama faz com que estas potencialidades venham a se realizar.

Na logoterapia o amor não é interpretado como mero fenômeno de impulsos e instintos no sentido de uma assim chamada sublimação. O amor é um fenômeno tão primário como o sexo. Normalmente sexo é uma modalidade de expressão do amor. O sexo se justifica e é até santificado no momento em que, porém apenas enquanto for veículo do amor. Desta forma o amor não é entendido como mero efeito colateral do sexo, e sim é entendido como um meio de expressar a experiência daquela união chamada de amor.

Marchando novamente contra os distorcidos valores da modernidade, Frankl relembra a importância da responsabilidade. Segundo a logoterapia, o ser humano deve buscar as virtudes:

Ao declarar que o ser humano é uma criatura responsável e precisa realizar o sentido potencial de sua vida, quero salientar que o verdadeiro sentido da vida deve ser descoberto no mundo, e não dentro da pessoa humana ou de sua psique, como se fosse um sistema fechado. Chamei esta característica constitutiva de “a auto-transcendência da existência humana“. Ela denota o fato de que ser humano sempre aponta e se dirige para algo ou alguém diferente de si mesmo – seja um sentido a realizar ou outro ser humano a encontrar. Quanto mais a pessoa esquecer de si mesma – dedicando-se a servir uma causa ou a amar outra pessoa – mais humana será e mais se realizará. O que se chama de autorrealização não é de modo algum um objetivo atingível, pela simples razão de que quanto mais a pessoa se esforçar, tanto mais deixará de atingi-lo. Em outras palavras, auto-realização só é possível como um efeito colateral da auto-transcendência.

Até aqui mostramos que o sentido da vida sempre se modifica, mas jamais deixa de existir. De acordo com a logoterapia, podemos descobrir este sentido na vida de três diferentes formas:
1. criando um trabalho ou praticando um ato;
2. experimentando algo ou encontrando alguém;
3. pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável.

A primeira, o caminho da realização, é bastante óbvia. A segunda e a terceira necessitam de uma melhor elaboração.

A segunda maneira de encontrar um significado na vida é experimentando algo – como a bondade, a verdade e a beleza, experimentando a natureza e a cultura ou, ainda, experimentando outro ser humano em sua originalidade própria – amando-o.

A terceira forma de encontrar um sentido na vida é sofrendo.

Em uma sociedade cada vez mais egocêntrica, tal terapia pode parecer uma piada de mau gosto. Contudo, ela foi construída através do doloroso sofrimento que este médico passou no campo de concentração.

Confessou nesta autobiografia que muitas vezes se via imaginando falando para as palestras com objetivo de fazer avançar seu aprendizado. Conseguiu! Não apenas isso, constatou que foi fundamental para sua sobrevivência. Muitas das mortes nos campos nazistas – relatou – podem ser apontadas para o fato da alma ter “entregado os pontos”. A pessoa desistiu de lutar, desistiu de fazer cumprir aquele sentido, e colocava-se a falecer dias depois:

Na semana entre o Natal de 1944 e o Ano Novo de 1945 irrompeu uma mortandade jamais vista anteriormente no nosso campo de concentração. Também o médico-chefe foi de opinião de que as causas da mesma não estavam num agravamento das condições de trabalho ou de alimentação ou numa eventual alteração climática ou mesmo novas epidemias. Antes, a causa dessa mortandade em massa devia ser procurada exclusivamente no fato de a maioria dos prisioneiros ter se entregue à habitual e ingênua esperança de estar de volta em casa já para o Natal. Como, porém, as notícias dos jornais fossem tudo menos animadoras, ao se aproximar aquela data, os reclusos foram tomados de desânimo e decepção gerais, cuja perigosa influência sobre a capacidade de resistência dos prisioneiros se manifestou justamente também naquela mortandade em massa daquele período.

Dissemos acima que toda tentativa de restabelecer interiormente as pessoas no campo de concentração pressupõem que, consigamos orientá-los para um alvo no futuro. A divisa que necessariamente orientou todos os esforços psicoterapêuticos ou psico-higiênicos junto aos prisioneiros talvez encontre sua melhor expressão nas palavras de Nietzsche: “Quem tem por que viver agüenta quase qualquer como”. Portanto era preciso conscientizar os prisioneiros, à medida em que era dada a oportunidade, do “porquê” de sua vida, do seu alvo, para assim conseguir que eles estivessem também interiormente à altura do terrível “como” da existência presente, resistindo aos horrores do campo de concentração. E, inversamente, ai daquele que não via mais a meta diante de si em sua vida, cuja vida não tinha mais conteúdo, mas perdia o sentido de sua existência e assim todo e qualquer motivo para suportar o sofrimento. Essas pessoas perdiam a estrutura e deixavam-se cair muito cedo. A expressão típica com que replicavam a toda e qualquer palavra animadora era sempre a mesma: “Não tenho mais nada a esperar da vida”. Como se reagir a esta atitude?

Em busca do sentido faz cair por terra as ilusões da modernidade, pois evidencia que:

  • O ser humano é dotado de alma e dignidade;
  • O ser humano é dotado de liberdade;
  • Cada ser humano é único;
  • Existe o bem e mal: por mais restrição externas que se coloque sobre uma pessoa, a liberdade interior permanece e, mesmo em situação drásticas, pode-se optar pelo bem ou mal;
  • O sentido está para fora do ser humano;
  • A cura da alma passa pela busca das virtudes em detrimento do apego a desejos e símbolos baixos.
  • O mundo não é cor-de-rosa. Alguns sofrimentos e infelicidade são inevitáveis;
  • Senso de sacrifício e responsabilidade são fundamentais para saúde da alma;
  • A saúde mental está baseado em um certo grau de tensão entre aquilo que já se alcançou e aquilo que ainda se deveria alcançar, e não pelo equilíbrio;
  • O problema não está em sofrer, mas em sofrer sem sentido;
  • O vazio da alma não é preenchido com futilidades, mas com virtudes;
  • Revoltar-se contra o destino não é a solução;
  • Olhar e aprender com o passado é importante para buscar o futuro;
  • Fazer algo objeto de si mesmo, aumenta o risco de frustração, diminuindo a chance de êxito (ex: a neurose sexual – “quanto mais um homem procura demonstrar sua potência sexual, ou quanto mais a mulher tenta mostrar a sua capacidade para experimentar o orgasmo, menos chances de sucesso terão”);
  • O vácuo existencial, que faz a pessoa acreditar que o ser não tem sentido, é uma neurose coletiva de nossos tempos;
  • A doutrina do “nada mais que” é uma profecia auto-realizável: “a teoria de que o ser humano é “nada mais que” o resultado de condicionantes biológicos, psicológicos e sociológicos, ou produto da hereditariedade e do meio ambiente. Semelhante visão do ser humano faz o neurótico acreditar no que ele já tende a pensar de qualquer forma, a saber, que é um peão passivo e vítima de influências externas ou circunstâncias internas. Este fatalismo neurótico é fomentado e reforçado por uma psicoterapia que nega liberdade à pessoa humana.”;
  • A liberdade está no fato de que, apesar de fatores condicionantes, não se perde a liberdade de tomar posição frente aos condicionantes;
  • O ser humano tem a liberdade para mudar a qualquer instante; (“A base para qualquer previsão estaria constituída pelas condições biológicas, psicológicas ou sociológicas. No entanto, uma das principais características da existência humana está na capacidade de se elevar acima dessas condições, de crescer para além delas. O ser humano é capaz de mudar o mundo para melhor se possível, e de mudar a si mesmo para melhor se necessário”.);
  • A liberdade não é um fim em si mesma. Ela é “apenas o aspecto negativo do fenômeno integral cujo aspecto positivo é a responsabilidade”. Sem a responsabilidade, a liberdade transforma-se em arbitrariedade.
  • “A felicidade não pode ser buscada, ela precisa ser decorrência de algo. Deve-se ter uma razão para ‘ser feliz'”. “[...] o ser humano não é alguém em busca da felicidade, mas sim alguém em busca de uma razão para ser feliz, através – e isto é importante – da manifestação concreta do significado potencial inerente e latente numa situação dada”;
  • O “princípio do prazer” é um estraga-prazeres;
  • Quando munido de sentido, o indivíduo não só fica feliz, mas também lhe dá forças para enfrentar o sofrimento;
  • O ser humano não vive apenas de bem-estar;
  • A consciência tem a capacidade de indicar “a direção em que temos que nos mover em determinada situação da vida”. Esta situação “deve ser medida e avaliada à luz de um conjunto de critérios e uma hierarquia de valores”;
  • Por conta da bagagem de experiência que carregam, as pessoas jovens deveriam invejar as pessoas mais velhas. (“É verdade que os velhos já não têm oportunidades nem possibilidades no futuro. Mas eles tem mais do que isso. Em vez de possibilidades no futuro, eles têm realidades no passado – as potencialidades que efetivaram os sentidos que realizaram, os valores que viveram – e nada nem ninguém pode remover jamais seu patrimônio do passado.”);
  • O valor segundo o princípio de dignidade humana é superior ao princípio utilitarista, que, egoísta, só enxerga os valores em termos de utilidade.

Dentre outras coisas…

A resposta sobre o sentido da vida é particular de cada um e pode ser mudado no decorrer da vida. Muitas vezes sabemos, mas não queremos enxergá-la, não queremos refletir, não queremos pensar. Organizar as idéias e colocar um sentido é o segredo por trás da cobrança da alma para seguir na vida. Isso fica muito bem ilustrado, por exemplo, nessa passagem:

Gostaria de citar um exemplo. A mãe de um menino que morrera na idade de onze anos deu entrada em minha clínica, após uma tentativa de suicídio. O Dr. Kurt Kocourek convidou-a a participar de um grupo terapêutico. Ocorreu que em certa ocasião eu entrei na sala da clínica em que ele dirigia um psicodrama. Ela estava contando a sua história. Quando seu filho morreu, ficou sozinha com outro filho, mais velho, que era aleijado, vítima de paralisia infantil. O pobre rapaz estava preso a uma cadeira de rodas. Sua mãe, entretanto, rebelou-se contra o destino dela. Mas quando tentou o suicídio juntamente com ele, foi o filho aleijado que a impediu; ele gostava de viver! Para ele a vida continuara a ter muito sentido. Por que não se dava o mesmo com sua mãe? Como poderia a vida dela ainda ter um sentido? E como poderíamos ajudá-la a conscientizar-se disso?

Improvisando, entrei no diálogo e perguntei a outra mulher no grupo por sua idade, ao que ela respondeu: “Trinta anos”. Repliquei: “Não, você agora não está com 30 anos, mas sim com oitenta, deitada no leito da morte. E agora você olha para trás, para sua vida, uma vida sem filhos, mas plena de sucesso financeiro e prestígio social.” Convidei-a então a imaginar como ela se sentiria dentro dessa situação. “Que você acha disso? O que vai dizer para si mesma?” Vou citar o que ela realmente disse, de uma fita gravada naquela sessão: “Ah, casei com um milionário tive uma vida fácil, cheia de riqueza, e aproveitei bem! Flertei com homens, provoquei-os. Mas agora estou com oitenta anos; não tenho filhos próprios. Olhando para trás, como mulher de muita idade, não consigo ver para que foi tudo isso; na realidade preciso dizer que a minha vida foi um fracasso! ”

Convidei então a mulher que tinha o filho paralítico a se imaginar em situação idêntica, repassando a sua vida. Vejamos o que ela disse, conforme está gravado na fita: “Desejei ter filhos e este desejo me foi concedido; um menino morreu, mas o outro, o aleijado, teria sido mandado para uma instituição, se eu não tivesse ficado com ele, cuidando dele. Mesmo que ele seja aleijado e completamente dependente, não deixa de ser o meu filho. Assim eu fiz com que ele pudesse ter uma vida mais completa; fiz do meu filho uma pessoa humana melhor.” Neste ponto houve uma explosão de lágrimas, e, chorando, ela continuou: “Quanto a mim, posso encarar tranqüila a minha vida passada; porque posso dizer que minha vida foi rica em sentido e dei um duro para realizá-lo; fiz o melhor que pude – dei a meu filho o melhor. Minha vida não foi um fracasso!” Encarando sua vida passada como se estivesse no leito da morte, ela repentinamente pôde ver um sentido em sua vida, um sentido que incluía até mesmo todos os seus sofrimentos. Da mesma forma ficara igualmente claro que uma vida de pouca duração, como por exemplo, do seu filho morto, podia ser tão rica em alegria e amor a ponto de conter mais sentido que uma vida que durasse oitenta anos.

Pouco depois passei para outra questão, dirigindo-me desta vez ao grupo inteiro. Perguntei se um macaco utilizado para produzir soro contra poliomielite e que, por esta razão, fosse picado vez após vez, jamais seria capaz de captar o sentido do seu sofrimento. O grupo o negou unanimemente; pois com sua inteligência limitada ele não poderia entrar no mundo dos seres humanos, ou seja, o único mundo no qual o seu sofrimento seria inteligível. Fui em frente com a seguinte pergunta: “E como é com a pessoa humana? Vocês têm certeza de que o mundo humano é um ponto final na evolução do cosmo? Não é concebível que ainda haja outra dimensão possível, um mundo além do mundo humano? Um mundo em que a pergunta pelo sentido último do sofrimento humano encontraria uma resposta?”

Esse sentido último necessariamente excede e ultrapassa a capacidade intelectual finita do ser humano; na logoterapia falamos neste contexto de um super-sentido. O que se requer da pessoa não é aquilo que alguns filósofos existenciais ensinam, ou seja, suportar a falta de sentido da vida; o que se propõe é, antes, suportar a incapacidade de captar em termos racionais o fato, de que a vida tem um sentido incondicional. O logos é mais profundo que a lógica.

A logoterapia é um chute no estômago do materialismo moderno. Muitos aproveitam-se do estado de vazio existencial para ludibriar mentes e ferir a alma humana. Ao recuperar preceitos importantes da existência, ao relembrar de verdades que a modernidade tenta orgulhosamente ignorar ou ridicularizar, Viktor Frankl prestou um grande serviço a humanidade. Que o máximo de pessoas possíveis possam conhecê-lo. Alguém que conseguiu, como médico, concretizar o sentido de sua vida após sobreviver à traumática experiência de opressão nazista.

Em busca de Sentido não só é um arranjo de bons conhecimentos, mas também condensa uma autobiografia que é uma verdadeira lição de vida.

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